sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O Silêncio — Romance em capítulos


Primeira parte


I



“Eu odeio sonhar”, ela dizia. 
O som altíssimo de alguma TV invadia o quarto e a madrugada. “Certamente um solitário”, ele concluiu. Alguém numa cama de casal, o travesseiro sobre a cabeça para se proteger da luz e som da TV, ligada apenas para fazer companhia.

     Como assim odeia sonhar?
     Odeio sonhar. Sempre acordo mal.

“Eu odeio sonhar”. Que frase incrível.
Ele liga a TV. Sem som. O colchão de casal no chão, sem lençol. Os travesseiros esparramados pelo quarto. 
Quem entrasse agora até poderia pensar que o sexo foi incrível. 
Mas não foi. 
Nunca é.

     No que você tá pensando?
     Em nada...
     Como “nada”? Isso é impossível.  ela insiste.
     Nada importante, eu quis dizer.
     Mas fala.
     Você tá parecendo a minha terapeuta. Já disse que nada importante.
     Mas fala.
     Tô pensando na porra dessa televisão do vizinho, que passa as madrugadas nesse volume absurdo. Ele com certeza nem tá vendo. 
     Como você sabe?
     Ninguém assiste TV com o volume tão alto. Ainda mais de madrugada. Ele nem deve perceber que tá alto o volume. Ou seja, tá em outra. Provavelmente dormindo, sedado.
     Você tem essa mania de ficar imaginando uma vida pras pessoas. Você nunca vai saber exatamente o que outra pessoa passa.
     Aí é que você se engana. O que uma pessoa passa, todas passam. E se eu digo que ele tá usando a televisão como companhia, é porque eu já fiz isso.
     Exato, você acha que seu vizinho tá fazendo isso porque você já fez isso. Você não tem como ter certeza.
      Ok.

É sempre igual. O flerte, o cortejo, o joguinho, o convite despojado prum encontro, o encontro meio frio, o caminho meio frio pra casa, o sexo meio frio, o pós-sexo incompreensível, a esperança de que amanhã vai ser melhor...

     Quer alguma coisa da cozinha? Eu vou pegar água.
     Mas tem água aqui do lado da cama, você trouxe.
     Essa já tá morna. Quero água gelada.
     Eu vou lá com você.
     Não precisa. Fica aí. Quer que eu traga alguma coisa?
     Não.

Quando Hermes voltou ao quarto ela vasculhava uma de suas prateleiras de livros, indecisa entre um Sartre e um Camus.

     Qual desses você me indica?
     O Muro. Eu gosto do Camus, mas A Queda é insuportável.
     “O muro, a queda” hahaha. Caiu do muro! HAHAHA.
     Hã?
     Ai, nada...

Hermes parado à porta do quarto, hesitante. 
Lígia deita-se com os dois livros em mãos. Lê os prólogos, prefácios e opta pel’A Queda.

“Quem é essa mulher na minha cama?...
É alguém que tem dentes, cabelo, intestino, nervos, orelhas, pelos dentro do nariz e acima dos olhos. O que mais poderia ser? Alguém que come quando tem fome e arrota discretamente em público. Que prefere a queda ao muro.”

     Ei, vem cá. Deita comigo.
     Não tô muito afim de deitar. Mas pode ficar de boa aí. Acho que vou tomar um banho.
     Não vai me chamar pra ir junto?
     Ah, eu até pensei nisso, mas... Você tá lendo, não quis interromper.

Lígia fecha A Queda na hora. Pula da cama com um sorriso no rosto.

     A toalha que eu trouxe ainda tá molhada. Você me empresta uma?
     Claro.
     Nossa, agora que eu me liguei. Eu já tô na sua casa há três dias!
     Jura? Caramba, nem tinha percebido...
     Isso foi irônico?
     Não...
     Pareceu.
     Mas não foi.

O banho é frio. Como sempre. 
A água está quente, mas não o suficiente para aproximá-los. 
Fetos numa placenta.

     Você quer que eu vá embora? Pode ser sincero.
     Claro que não, pode ficar.
     Não sei, parece que não tá rolando.
     Fica, por favor.

Lígia abre um sorriso. Resolve passar mais uma noite. 
Hermes tenta mas não consegue. Sentir nada. 
Nada.
Depois de algum tempo  Lígia já adormecida  finalmente percebe:

Sente inveja do vizinho solitário.























II


É Hermes quem acorda primeiro. Livra-se da coberta que foi catar no meio da noite. Se esforça como alguém que almeja passar num teste de concentração. Não quer acordar Lígia.
No caminho pra cozinha, inevitavelmente percebe o topo de sua cabeça semi-calva. Os gatos vem até ele. Têm fome. Hermes, antes de tudo, enche os potes dos gatos com ração. Depois prepara o café.  O silêncio é descomunal, quase ofensivo. É sábado, não são oito da manhã. Hermes não emite um ruído até que a chaleira ensaie seu apito. Hermes desliga antes, sabe que água de café não se ferve. O dia nasceu meio cinza, um tanto frio. Olha pela janela da cozinha e só enxerga outras janelas. Vê roupas no varal, produtos de limpeza nos parapeitos das janelas, geladeiras, pedaços de móveis... 

     "No fundo é tudo igual."

Passa o café bem forte, talvez numa tentativa de impressionar Lígia, que dorme. Ou finge.
Os gatos comem sem cerimônia. Croc Croc Croc Croc. 
Hermes contempla o espetáculo. "São meus filhos", pensa. 
Sabe que Lígia bebe café com leite e pão com manteiga. Prepara tudo e leva até o quarto. A porta se fechou sozinha. Hermes tem as mãos ocupadas e abre a porta com o cotovelo direito. Lígia dorme (ou finge?) na mesma posição. Hermes deposita caneca e prato na mesinha recém-construída por ele mesmo. Ensaia acender a luz, opta por abrir a janela. Filetes de luz inundam o quarto sem cortina. Hermes hesita outra vez. Decide não abrir. Vai até Lígia e lhe dá um beijo no rosto, outro na boca. Sente seu bafo matinal. Ela desperta, como num filme.

     Eu trouxe café. E pão.

Lígia parece não compreender. Seus olhos inchados e impessoais.
Hermes venera a cena. A natureza em sua condição primária.
"Eu te amo", ele deseja dizer. Não consegue.

     Que horas são?
     Umas oito.
     Que cedo...
     É. Perdi o sono.

Lígia tenta acordar aos poucos, não se importa com seu estado físico. Hermes percebe e aprova a atitude.

     Me dá o café.

Hermes deita ao lado de Lígia e a observa tomar seu café da manhã como uma criança.

     Vem morar comigo?
     Oi? 
     Vem morar comigo.

Lígia mastiga e faz um sinal com a mão: "espera".
Aí engole.

     Morar com você?
     É.
     Por quê? Como assim?
     Vem morar comigo. Casa comigo. Tem espaço, a gente se dá bem. Eu te amo.

Lígia arregala os olhos.

     Oi!?
     Vem. Só vem. O resto é detalhe...
     Como você vem me dizer isso uma hora dessas?!
     Desculpa, da próxima vez eu agendo um horário.
     Para de falar assim! Eu odeio quando você é sarcástico.
     Então você me odeia na maior parte do tempo.
     Exatamente.
     Uau. Bom saber...
     Pois é.
     Tivemos nossa primeira briga?
     Talvez.
     Vem... Só vem. O resto é detalhe.


III


     Onde eu deixo a mala?
     Onde você quiser. A casa agora é sua também.
     Para. Eu não quero que comece assim. Vamos estabelecer uma ordem, senão daqui a um mês você tá me expulsando da sua casa.
     Nossa casa.
     Você tem certeza que quer isso?
     Eu preciso de você.
     Precisa? Ou quer?
     ...
     Bom, eu vou deixar lá no quarto desocupado.
     Não. Deixa no nosso quarto.
     ...
     Eu tenho um pouco de saquê. E whisky. Cê quer?
     Quero. Saquê.
     Sério?
     Sério, por quê?
     
Hermes sorrindo prepara um drink com o saquê enquanto Lígia vai acomodar-se no quarto.
Gelo, manjericão, melancia velha e saquê.

     VOCÊ GOSTA DE MELANCIA?! — exagera no tom de voz.
     Adoro, por quê? — Lígia reaparece na sala, de pijama e meias. — E não precisa gritar, viu, eu não sou surda.

É noite de terça-feira.
Como sempre, uma criança faz birra em algum apartamento. E a avó grita. E algum vizinho acende incenso. E queima a comida. E tudo se encontra no seu devido lugar. Hermes sorri sem perceber.

     Você prefere Tchaikovsky ou Philip Glass?
     Porra, essa é difícil...
     Não pensa muito. Pra agora. Tchaiko ou Glass?
     Glass.
     OK, posso por as danças?
     Danças?
     É. Não conhece esse álbum dele?
     Não.
     Você vai ouvir. É incrível.

(...)

     Eu te amo.
     Te amo.

(...)

     Mete fundo, vai.
     Você gosta, né, safada.
     Adoro. Acaba comigo, vai.

(...)

     Boa noite.
     Boa noite, meu amor.


IV


     O inferno são os outros. Cortando grama com essa máquina barulhenta. De manhã. E essa ressaca.
 
Lígia, dormindo, concorda.
Hermes enrola o travesseiro na cabeça. Pressiona na região dos ouvidos. Não adianta. O barulho infernal entra fundo em sua cabeça, que lateja.

     Não é possível. Esse cara não tá fazendo isso a essa hora.

Hermes se imagina levantando, abrindo a janela e jogando uma pedra no homem que corta grama.
Alcança o celular, no chão. 08:57

     Falta tato à lei. Não é natural ouvir um barulho desses pela manhã. É violência demais.

A ressaca é aniquiladora. Saquê com whisky. Bela mistura, campeão.
Hermes desiste e levanta. Lígia dorme um sono pesado.
Os gatos vem até Hermes. Um deles, Norberto, para no meio do caminho, empina a bunda e se estica pra frente, as patinhas arranhando o chão.
Hermes alimenta as três boquinhas famintas.
Abre a geladeira rezando pra que tenha água.
Bebe 500ml em velocidade moderada porque sabe bem o que acontece quando alguém desidratado bebe tudo de uma vez. Empirismo.
Faz café mas não toma. Esquenta o leite, adiciona o café, duas colheres de açúcar. Pensa em passar a cabeça do pau, mas desiste. Ri de si mesmo e leva a caneca ao quarto, concentrado para não derrubar.
Em nenhum momento teoriza sobre a ida de Lígia para sua casa.
Norberto surge de repente e se roça na perna de Hermes, que se assusta, grita e derruba café com leite em si e no chão. Norberto se assusta e sai correndo, em dois segundos está na janela, se roçando na tela de proteção.
Hermes deixa o café no quarto e vai até o banheiro se lavar. Aproveita e mija, lava o rosto e a nuca. Por acaso olha para o cesto de lixo. Papel higiênico sujo de merda. Não é dele. Não joga papel de merda no cesto.
"Então essa é a merda da Lígia... É bom eu me acostumar."

(...)

     Você não vai acordar?
     Hum... que horas são?
     Quase onze.
     Ah...  Lígia resmunga enquanto tenta abrir os olhos inchadíssimos.
     Dormiu bem?
     Acho que sim.
     Sonhou?
     Acho que não.
     Você nem tomou o café.
     Desculpa...
     Tá de ressaca?
     Hum...?
     
Hermes levanta impaciente.
Finge estar bem. Finge não estar incomodado com a presença daquela mulher ali, indiferente a ele.
Forja uma postura despreocupada, natural. Sabe que nunca obtém sucesso nessas tentativas, no entanto segue no jogo.

     Eu vou dar aula daqui a pouco. Você fica aqui sozinha numa boa?
     Aham...
     Tá. Eu vou tomar banho...
     Tá bom.

Hermes fecha a porta do quarto sem olhar pra trás. Percebe a artificialidade do movimento. A cabeça, leve demais, lateja. Whisky e saquê. Faz calor. Ouve os ruídos do mundo: as crianças no parquinho, um aspirador de pó distante, veículos cruzando a avenida expressa, uma ou outra moto se destaca  o som circulando Hermes.
Um avião cruza o céu ostensivamente azulado. Hermes não vê o avião. Gostaria de estar nele. Fugindo.
Imagina uma enorme e metálica turbina. Absoluta. O calor absurdo que aquilo emana. Sente o vento quente no rosto, o cheiro do combustível. O som ensurdecedor. O sol massacrando. A furadeira do vizinho. A merda da Lígia. Sua cabeça vazia e leve é o anfiteatro perfeito para o show de terríveis ruídos. Hermes liga o chuveiro. Tonto. Gelado. Faz tanto calor que a água gelada sai quente. Hermes quase vomita. Abre o vitrô do banheiro e dá de cara com uma janela aberta, as pernas fartas de uma mulher espalhadas pela cama. Hermes não hesita. Pega o pau mole. Começa a bater uma, a cara metida na janela, sem pudor. A mulher lê algum livro e balança a perna direita, como se quisesse enviar sangue pra buceta. Como se estivesse se excitando aos poucos, sem notar. Hermes não consegue uma ereção. A cabeça vai explodir. Uma dor aguda. Grave. Uma turbina de avião na garganta. 
Hermes vomita no box.

Duas da tarde e Lígia ainda não levantou. Enrola na cama, um braço dobrado sobre a testa, a perna esquerda erguida, balançando lentamente. Involuntariamente. Às duas e treze levanta. Leva a caneca cheia até a cozinha e despeja na pia. Norberto, o gato, não vai com a cara de Lígia e sai correndo quando ela entra em cena. Da janela espreita Lígia, desconfiado. Lígia está parada no meio da cozinha. Tenta decifrar os horários organizados a lápis por Hermes numa folha sulfite colada a durex na parede. Nenhum compromisso marcado para hoje, no entanto. 
Lígia bebe água do filtro, abre a geladeira e hesita. Escolhe alguns ingredientes para seu sanduíche.
Norberto não desgruda os olhos dela.

Na rua Hermes caminha em ziguezague, de olhos fechados. Pressiona as têmporas com a ponta dos dedos. Passa a mão pelo topo da cabeça semi-calva. Sente a eletricidade dos cabelos percorrendo a mão depois o braço, perdendo força no ombro dolorido. Todo o corpo dói. "Fígado", é o que dizem. Hermes precisa ir ao médico. Há anos adia. Precisa fazer endoscopia, exame de sangue para DSTs no geral, diabetes, hepatite, esquizofrenia.
O alcoolismo autodiagnosticado não tem cura. Aprendeu com a mãe. "Uma doença incurável, progressiva e fatal."
As ressacas pioram a cada bebedeira. Hermes não compreende. "Eu nem bebi tanto ontem".
É verdade. Hermes bebeu meia garrafa de saquê e umas quatro doses (caprichadas) de whisky. "O saquê a 15% de teor alcoólico. 500ml. 15% de 500 é 75. 75 ml de álcool, mais uns 250ml de whisky, a 40%. 40% de 250 é 100. Ao todo, então, 175ml de álcool. É o equivalente a onze latas de cerveja. Não é muito." 
A operação matemática esgota as últimas forças de Hermes, que cessa de andar. Se apoia num Muro, curva o corpo pra frente e ensaia vomitar. Não sai nada. Mete o dedo na garganta. Nada. Pessoas olham curiosas, enojadas, com medo. Ninguém oferece ajuda. Estão no Sul. Hermes nem se espanta mais. Na verdade mal percebe as pessoas que passam. É tudo um borrão claro demais que Hermes tenta enfrentar sem cair. Vai andando assim até encontrar uma mureta em frente a um hospital. Não entra, apenas senta ali. Fecha os olhos, ergue a cabeça e respira fundo, pelo diafragma. Pensa na merda da Lígia. No café com leite desprezado. Não lembra o que aconteceu ontem. Nunca lembra. Só lembra de contar as doses de whisky. E todo o monólogo interno que isso gera. Lembra de Lígia bebendo saquê, portanto deduz que bebeu meia garrafa. O gosto de saquê volta. O gosto do whisky de média qualidade volta. O gosto da merda de Lígia o surpreende. Hermes vomita na calçada.
Como se tivesse vomitado um hospedeiro, levanta muito mais disposto. Distingue os carros e as pessoas e os postes e as placas e as pedras no chão. Caminha rumo ao ponto de ônibus, planejando a aula que seguirá.


V


Hermes chega em casa às seis da tarde. A sala está apagada. Norberto vem recebê-lo. Hermes vai até a cozinha e acende a luz, nota os potes de comida. Vazios. Lambidos. O pote de água está seco a ponto de evidenciar pequenas rachaduras no fundo. Norberto mia, exigente. Em cinco segundos os potes estão cheios novamente. Uma das gatas surge por debaixo do fogão, como um rato. A outra vem correndo de algum lugar da sala escura. Os três comem sem olhar para Hermes, que abre a geladeira e se frustra ao perceber que não tem água gelada. Bebe do filtro. Água morna. 
Não tenta ouvir ruídos, não tenta descobrir se Lígia está em casa. Vislumbra as duas garrafas vazias na pia. Isso o surpreende. As duas estavam praticamente cheias ontem à noite. Hermes vai até o quarto pisando forte o chão de madeira, que estala e range. A casa está toda escura, mas Hermes conhece cada polegada e chega facilmente à porta do quarto. Lígia está com fones no ouvido. Ele sente que interrompeu alguma coisa. Lígia olha sem expressão para Hermes, que sorri e diz oi. Lígia parece reconhecê-lo aos poucos, sorri um sorriso reconfortante, talvez piedoso. Retribui o oi e se vira para trás, acompanhando os passos de Hermes, que vai até a janela e abre. 

     Tá tudo bem? — ela pergunta.
     Agora sim. Eu quase morri hoje.
     Ressaca?
     Sim.
     Também, você matou o whisky e bebeu quase todo o saquê.
     Eu?! Eu bebi umas quatro doses de whisky só!
     Ha-ha-ha-ha. É piada, né? Você parecia um maluco ontem.
     Lá vem...
    ...Disse que bebia pra se vingar. Que nunca tinha sido amado. Que nenhuma mulher tinha sido sua parceira de verdade. Que só se sentia vivo quando tava bêbado, sem falar que...
     Para. Não quero ouvir. Tenho até medo.
     É, eu também teria se fosse você.
     É...
     Você realmente não lembra o que fez ontem?
     Se você soubesse quantas vezes eu já ouvi essa frase...
     Imagino que sim... É que eu nunca sei se devo acreditar nisso de amnésia alcoólica.
     Caralho! Por que eu mentiria? Eu simplesmente não lembro! É só isso!

Lígia insiste.

     Você fica muito estranho quando bebe. Parece outra pessoa. Sua voz muda, seu rosto muda, você fica falando super alto, dando risada, agindo como se tivesse num palco, cantando, até aí tudo bem, mas de repente parece que você vê alguma coisa e fecha a cara, fica nervoso, agitado, agressivo, paranóico. Você tem ideia do que me disse ontem? Eu vou falar! Você veio dizer que eu tinha clonado seu cartão! Que eu trabalhava pro Samuca. Eu nem sei quem é Samuca! Você mesmo já disse que nem tem cartão nem conta em banco! Eu te dizia isso e você só respondia "Aham, claro, aham". Era insuportável. Aí você foi até a cozinha, eu fiquei com medo. Achei que você ia pegar alguma faca, ou sei lá... Aí você voltou com a garrafa de whisky e começou a beber no gargalo. Quase vomitou, babou tudo no chão, ficou cuspindo, depois olhou pra mim e me chamou de ingrata! Disse que eu só queria o seu dinheiro e o seu prestígio. Que eu não tinha ideia de como era difícil ser um gênio...

Hermes caminha na direção da porta. Não diz nada.

     ...Que eu tinha que respeitar seu espaço e que eu não te levava a sério. Mas que você ia...

Hermes fecha a porta do quarto. Vai até o banheiro, tranca a porta e dá uma bela cagada. Não acende a luz. Tira o grosso da sujeira com papel higiênico e entra no banho. No escuro, deixa que a água limpe o cu e as palavras de Lígia.


VI


Ouvem Coltrane no escuro, em silêncio. O lençol cheira a virilha. Isso excita Hermes, que ensaia molestar Lígia, mas logo desiste prevendo a frustração. Ele não sabe se Lígia está realmente ali. O silêncio paira leve, mas nunca se sabe.
Choveu durante horas. Agora faz uma noite clara e limpa lá fora. O frescor entra pela janela aberta. Hermes fixa os olhos num ponto luminoso no alto de um prédio.
Já se passaram três meses desde a mudança de Lígia, percebe. Sente uma melancolia incrivelmente boa.
Coltrane. Noite alta, clara. Silêncio e uma mulher ao seu lado. O cheiro humano.
Registra mentalmente a cena.
Lígia quebra a inércia bruscamente. Gira pra cima de Hermes, agarra seus punhos e o imobiliza. É impossível distinguir sua feição felina. Sente apenas o calor do hálito e do corpo, sobretudo na região da pélvis.

O sexo flui surpreendentemente bem. Talvez o mais incrível até o momento. Ninguém diz nada. Não é necessário.
Permanecem o mais perto possível, sem encostar os corpos.
Hermes pega no sono, beirando a plenitude, mas acorda assustado com voz de Lígia.

     ...Pensei em nem falar nada, mas não seria justo.
     Hum?
     Tava dormindo?
     Tava quase... o que você disse?
     Ah, nada. Pode dormir. Amanhã eu falo.
     Não, agora que você me acordou, fala.

O silêncio muda de face.
Esquenta e pesa.

     Ligaram lá de São Paulo enquanto você tava fora.

Hermes nota a preocupação na voz de Lígia.

     Quem?
     Sua avó.
     Ela falou algo de mais?  Hermes dissimula. Sabe que há algo errado.
     Falou... eu não sei como te dizer isso... e não queria ser a pessoa a ter que dizer... eu até pensei em ir embora pra não ter que dar a notícia...
     Porra, fala logo, você tá me assustando.

Hermes senta imediatamente no colchão. Vira o corpo na direção do vulto de Lígia.

     Sua mãe... — Lígia começa a chorar. — Sua mãe morreu.

O tom fúnebre de Alabama (John Coltrane Quartet) pincela de beleza a cena fatal. Hermes não diz nada. Seu corpo esfria por dentro e esquenta por fora. A pele se arrepia completamente. Os ombros de Hermes se erguem, armados. Ondas elétricas nascem no topo da cabeça semi-calva e percorrem todo o corpo até as canelas. Não chegam aos pés.

     Caralho...

O saxofone consola o contra-baixo.
Lígia tenta sem sucesso consolar Hermes, que nada diz o resto da noite.
Os dois deitam novamente em silêncio. A claridade do céu estrelado invade o quarto. Hermes distingue todos os seus livros, seu quadro em litografia, o interruptor, seu divã, os óculos sobre a mesa. Tenta sentir alguma coisa. Então percebe a TV do vizinho. O volume altíssimo.
Filme dublado.
"Tela Quente. Ainda existe isso?"
Sente pena do vizinho. A cabeça esquenta e lateja.
Hermes solta um uivo áspero e grave que pode ser ouvido a dois quarteirões dali.
Lígia finge dormir.


VII


     "O som leve do ventilador portátil não interrompe o silêncio tropical; pelo contrário: intensifica-o. Todas as janelas abertas não dão vazão ao calor dantesco e atípico. As moscas vagam fartas pela merda dos gatos que, exposta ao calor, fede o dobro. A cena é de dar inveja a qualquer escritor de sub-literatura policial. Não há mesa de escritório ou arma, é verdade. Sento-me sobre um travesseiro murcho, enrolado no chão, de costas apoiadas num sofá velho fedendo a vinagre.Nesse exato momento encontro-me suspenso na existência. Busco um tipo de paz interior, mas as gotas de suor me escorrendo pelas costas distanciam qualquer possibilidade. Esfrego as costas no sofá. O travesseiro se desenrola. Dou um impulso com os joelhos, o corpo salta um pouco e tento nesse ínterim arrumar o travesseiro, mas caio rapidamente sobre ele, ainda mais desfeito. Esmago os dedos com o peso do corpo. Meu saco vai parar embaixo do cu, todo empapado de suor. Um mosquito talvez cego tromba no meu nariz  desperto totalmente da paz que vislumbrava. Descolo o saco do cu, enrolo o travesseiro outra vez, ajeito a postura, fecho os olhos, respiro sentindo o diafragma cada vez mais relaxado, estico a coluna, giro o pescoço e tento encontrar um ponto de fuga no negrume dos olhos. O suor escorre. Muito. Tomo conhecimento de dobras até então ocultas no meu corpo. Estou gordo. Levanto bruscamente, vou até o banheiro lavar o rosto, cometo o erro crasso de olhar o topo da minha cabeça oleosa e calva. Ontem mesmo eu era um cara bonito, com certa elegância. Pra onde vai a vitalidade? Escorre como suor? Fede como merda de gato? Gira sem parar como o ventilador portátil?
     É impossível permanecer aqui. Visto uma bermuda limpa e uma camiseta fedendo a sovaco. Tudo bem. Recolho cinco sacolas de lixo antigo  uma delas furada, fazendo escorrer chorume pelo chão  e desço as escadas frias desse prédio pacato onde moro.
     A rua parece o inferno.Vago tentando encontrar o diabo que enfim me libertará."

Hermes fecha o caderno. Da sala consegue distinguir os barulhos que vêm do quarto.
Repete o ritual matinal.
Comida pros gatos, café, pão com manteiga, esquentar o leite, duas colheres de açúcar.
Bebe o café de estômago vazio. Preto. Puro.
Prepara o pão e café com leite de Lígia. Ensaia levar até o quarto mas ao chegar no meio da sala enxerga Lígia encostada na parede, os olhos enormes, interrogativos, reticentes.

     Bom dia!

Lígia roendo a unha não responde.

     Nem ouvi você levantar. Tava indo levar o café pra você na cama.
     Pode deixar aí na mesa, eu já tomo.
     Tá bom.

Lígia em silêncio e determinada anda rápido na direção de Hermes e dá um abraço muito apertado.
Hermes sente as lágrimas no seu ombro.

     Ei, que houve? Por que você tá chorando?

Ela não consegue responder. Desata a chorar e aperta ainda mais o abraço.
Hermes sabe o motivo. Piedade. Está chorando pela perda dele. E por ter sido testemunha e porta-voz da morte.
Lígia enfim soluça algumas palavras.

     Você já ligou lá?
     Já vou. Ainda não liguei porque eu tava escrevendo um conto. Acordei com uma ideia.

Lígia parece não acreditar no que escuta.

     Você tava escrevendo um conto?
     É. Baseado num filme que vi recentemente, me identifiquei bastante... — Nota a repulsa crescer no olhar dela. — Sobre um cara que sofre dessas pequenas maldições cotidianas, sabe?, essas coisas que todo mundo odeia em silêncio por achar que aquilo só acontece com você... — PARA! — Lígia berra.

Empurra Hermes, dá meia-volta, entra correndo no quarto e bate a porta.
Ele finge não entender.
(De fato não compreende muito bem.)
Parado no meio da sala, sente-se oco, um pouco idiota. Sabe que deveria estar chorando ou algo do tipo. A mãe morreu e ele escrevendo um conto baseado num filme que assistiu.
Vai até o quarto e no caminho se vê de relance no espelho da sala. Sente vergonha. Julga patética sua figura. Um frango malcozido e sem tempero. Calvo. Órfão.
Abre a porta do quarto e encontra Lígia fazendo as malas.


O Silêncio — Romance em capítulos (Segunda parte)



I



Mal havia amanhecido, o interfone não precisou de cerimônia para soar seu alarme já esquecido e agudo demais aos ouvidos dele. Talvez pelo ambiente opaco do apartamento quitinete, todo fechado, iluminado apenas pela fresta de luz morna que entra através do buraco na grossa cortina vermelha. A poeira parece dançar tango durante a luz. Ele, deitado num colchão no chão, na extremidade oposta do apartamento, acordado há sabe-se lá quantas horas, cinco dias sem sair de casa, olha estático para o feixe de luz como quem não tem escolha. Costuma imaginar que somente dentro do feixe há poeira; que o resto do apartamento está limpo. Sabe que não, e apesar disso gosta de estar ali, refugiado naquela cidade. Sozinho. Outra vez. Mas não consegue dançar tango na própria fantasia porque agora mesmo o interfone inicia a segunda rodada.
O interfone está ao lado da janela. De seu colchão não consegue enxergar o aparelho que sequer cogita atender. Olha fixo pro teto. Repara numa pequena rachadura na tinta branca. O interfone insiste. Calcula que seja terça ou quarta-feira, algo em torno de 7:00am. Faz esforço para se virar de lado e alcançar um bocado de papel que usou pra esboçar alguns poemas recentemente. Vasculha as páginas, ignora os poemas e só sossega quando encontra o desenho de uma mulher sendo currada por um homem de mandíbula muito projetada pra frente. Ele quem desenhou. Segura a folha em frente ao rosto com a mão esquerda, com a direita pega no pau e começa a bater. O interfone segue. Tenta se concentrar e imaginar que ela sente prazer. Projeta nessa mulher uma dúzia de mulheres que conheceu ao longo da vida e a cada mulher que se lembra, lembra também dos pesares, dos abismos, da maneira cruel com que todas as relações terminam, inevitavelmente. Pensa em Lígia. O pau vai amolecendo, fecha os olhos com força, estica muito a pele do pau, bate com esmero, percebe que não vai gozar e desiste. Joga o desenho longe e torna a olhar para o teto. Demora pra encontrar a rachadura. O ar ali dentro é quase sólido, fede a virilha e peido. A hipótese de cruzar aquela porta lhe parece distante e terrível. Apenas dois metros separam-no do mundo lá fora, no entanto, parecem árduos quilômetros. Tem do mundo o suficiente: a luz límpida e fresca que entra discreta por baixo da porta, os sons saudáveis do dia, os passos cordiais de seus vizinhos.
Não sabe ao certo quantos apartamentos se distribuem pelos andares, mas supõe doze.
"15 andares vezes 12 apartamentos = 180 apartamentos no prédio, vezes 8 blocos = 944 apartamentos, menos esse = 943 apartamentos ao redor. Média de três pessoas por apartamento... 2829 pessoas ao redor e ninguém capaz de me salvar."

O elevador se faz evidente — seu motor grave ecoa pelas paredes —, a porta se abre e alguém caminha pelo corredor. Ele se encolhe na cama, prende a respiração e se atenta ao menor ruído. Os passos se aproximam. Seus músculos paralisam. Evita mexer até mesmo o pescoço, com medo que o intruso ouça e invada o apartamento através desse som, como faz a poeira através da luz. Involuntariamente, sua boca emite um estalido muito alto. O coração se assusta e bombeia sangue demais. O corpo esquenta. Sua cabeça parece elétrica e vazia. Ele treme. O interfone torna a tocar, seu alarme faz com que Hermes desperte do transe, levante da cama num pulo, jogue a coberta pro lado e, de joelhos, vá até o interfone. Vai engatinhando e mal percebe o carpete rude que esfola seus joelhos. Não sente nada, só calor e esperança. Levanta-se do chão e ao fazer isso a coluna estrala, também os pés e joelhos que agora sangram. Hermes num repente escancara a janela, as cortinas, respira um ar azul que quase não interpreta, gira o pescoço lentamente e atende o interfone.

     Opa.
     Pois não, Seu Hermes?
     ...
     Alô?
     Oi. Você interfonou pra cá?
     Não, senhor, quem interfonou pra cá foi o senhor.
     Não... meu interfone tava tocando sem parar, mas... eu tava no banho e não deu pra atender... aí eu atendi agora.
     Olha, eu não sei. Eu acabei de chegar, mas quem tocou agora foi o senhor. Quem tava aqui era o Emanuel, eu vou perguntar pra ele, aí eu retorno, pode ser?
     Pode ser.
     Então tá bom.

Hermes ainda hesitou por alguns segundos antes de se virar na direção do cômodo. Era agora um cidadão-janela-aberta, seria difícil encarar aquele apartamento triste, minúsculo e imundo, sem espelho, mobília ou carisma. 
Um prazer diurno o invadiu; uma pureza, enfim. Na rua da frente estava montada uma feira. "Isso quer dizer que é sábado." Pelo modo como a luz está batendo na lona das barracas, pelo ruído e pela aparência das pessoas é possível perceber: são 9:00 da manhã. Deu de ombros e resolveu vestir uma roupa, encarar o dia. A geladeira estava vazia, também a despensa. 
“Pronto. Acordei. Sair da caverna e andar um pouco vai me fazer bem. Quem sabe até eu consiga fazer aquela maldita trilha sonora quando voltar.”
O interfone tocou.

     Oi.
     Oi, Seu Hermes, eu falei com o Emanuel e ele me disse que teve uma moça aqui procurando pelo senhor. Já faz três dias que ela vem aqui procurar pelo senhor. Ela disse que era importante e perguntou se podia subir, mas o senhor sabe que a gente não pode deixar ninguém subir sem autorização... Aí hoje ela deixou uma encomenda aqui pro senhor. Uma caixa...
     Uma caixa?
     Sim, senhor.
     Ela disse o nome?
     Luiza. Tá escrito aqui.
     Tudo bem. Daqui a pouco eu desço pra pegar.
     Então tá bom.
     Valeu.

“Quem, diabos, é Luiza?”, fecha a janela, as cortinas, lava o rosto, bebe água da pia e deita-se de novo.
Os joelhos sangram carpete, mas isso não o impede de usar o lençol branco para se cobrir. 
Fecha os olhos, tenta desviar de imagens sujas e indesejadas que recebeu como tortas arremessadas num show cômico e se pôs a imaginar quem poderia ser essa Luiza. Lembrou-se de uma Luiza com quem havia estudado na quarta série. Uma de suas muitas paixões de infância. Certamente não é a Luiza da encomenda.

     "Uma caixa?"

Acorda num tranco, uma pesada chuva do lado de fora. Faz frio. O vento uiva.
Permanecer em casa lhe parece agora absurdo, mas com essa chuva fica impossível sair.
Vai até a janela e, mesmo sem abrir, constata um céu muito escuro e opressor.      
Sem relógio ou calendário em casa, encontra-se suspenso no tempo.































II


Interfona pra portaria.
Quinta-feira, duas da tarde.
Calça chinelos, abre a porta com certa estupidez e dirige-se ao elevador.
Desiste, vai de escada.
Nota o fedor que sobe do próprio corpo, o sangue nos joelhos.
No caminho à portaria toma um pouco de chuva. Detesta a sensação. Nunca compreendeu o misticismo em volta do tal banho de chuva. A água cria uma lama entre os dedos do pé. Sente que pisa em merda mole.
Não há ninguém na portaria. Tenta espiar pelo vidro escuro, não distingue nada lá dentro. Pelo contrário, acaba enxergando o próprio reflexo no vidro fumê.
Cabelo ensebado, uma barba que denota derrota, o bigode cobrindo a boca que fede estômago vazio.
O porteiro vem correndo. Aparentemente também não é adepto ao banho de chuva. Corre rápido como quem pede desculpa pela ausência. Entra na portaria sem falar com Hermes, parece empenhado em entregar a caixa.
Enfim clareia a expressão quando entrega a Hermes uma caixinha quadrada de papel grosso, revestida por um celofane preto brilhoso, a tampa presa com singelos pedaços de durex, nenhuma indicação aparente.
Hermes agradece sem tirar os olhos da caixa. Pensa em abrir ali mesmo mas decide fazê-lo no apartamento. Sobe correndo as escadas. O barulho dos chinelos ecoa no prédio todo. Abre a porta com arrogância, deixa os chinelos do lado de fora, raspa os pés na panturrilha e se joga no colchão com a caixa em mãos.
Analisa minuciosamente o exterior da caixa modesta. Por um momento não deseja abri-la. Sente prazer ao olhar a caixa.
O estômago ronca. Hermes sente uma tontura abrupta. Nota que está ofegante, sente o coração latejar no pescoço. Está sem comer há mais de 24 horas. Gastou as últimas energias descendo e subindo escadas, expondo-se ao mundo lá fora. Não ousa abrir a caixa nessas condições.
Vai até a cozinha conjugada e vasculha os armários. Encontra um pacote de açúcar fechado com pregador de roupa. Joga o açúcar na frigideira, acrescenta um pouco de água da torneira e vai mexendo até pegar consistência. Desliga o fogo mas segue mexendo pra não empedrar. Come o caramelo entre sopros e queimaduras. Sente ódio quando derrama o caramelo quente no pé. Vislumbra a frigideira sendo arremessada pela janela. Come mais algumas colheradas e joga a frigideira na pia, surpreendentemente limpa.
Hermes não consegue pensar. Sente a cabeça travada, poluída. Por um instante esquece a caixa. Faz uma série de alongamentos, estrala as costas, pernas, ombros, pescoço, pés. Uma sinfonia de estralos.
Uma eletricidade orgástica percorre o corpo todo. A mente clareia. Já não chove tão forte lá fora.
Decide abrir a janela outra vez, ventilar a toca.
Num relance pensa em Lígia e na efemeridade daquela relação que terminou em morte. A morte da mãe.
Lígia não suportou a frieza com que Hermes lidou com a situação. Chegou a chamá-lo de psicopata, doente. Fez suas malas (como sempre fazia em discussões), pediu um táxi e voltou pra casa da mãe.
Hermes seguiu sozinho por mais dois meses no apartamento, até que o contrato expirou. Sem perspectivas naquela cidade, decidiu voltar a São Paulo. Não foi ao velório da mãe. Hermes não compreende velórios.
Pensa no velório de seu avô paterno. Aquele corpo absurdo no caixão pequeno demais. As flores cobrindo as pernas do morto. O cheiro do caixão que persegue Hermes até hoje...
Enxerga a caixa negligenciada ao lado do colchão no chão. E sem teorizar sobre caixas e Luizas, retira cuidadosamente os pedaços de durex.


terça-feira, 29 de novembro de 2016

Poema escrito enquanto eu dormia



O silêncio sibila sincero através do meu ouvido míope
Gotas de alho atravessam meu tato inodoro
The heavyweight George Foreman defends his title against Ken Norton
Teço esculturas através do escuro silêncio sólido na edícula pastoral
Meus ancestrais bípedes plantam bananeiras sobre aquarelas
Minha bola esquerda se contrai nefasta num processo de evangelização

Muhammad Ali, the dancing master with tremendous hand speed

Licenciatura estéril
Herpes
Santo Agostinho catequizando putas no Pará
Consciência mole, inconsciente ativo
Lacunas no discurso elástico de Lacan




terça-feira, 22 de novembro de 2016

morte



seguir vivo — tarefa impossível.
não pertenço
nunca sei pra onde ir
e se pareço livre é porque tô sempre fugindo


viver é uma obrigação.


nem arte, nem ofício
só a morte liberta.
mas ao suicídio me falta coragem
(talvez pretensão de ser eterno)

então sigo
não pertencendo
sempre fugindo
trêmulo
obrigatoriamente

e noites cruéis hão de chegar
posição fetal
uma luz acesa
imóvel, estático
nulo
escrevendo poesia inútil
enquanto arquiteto a melhor forma de acabar com isso



Ex



Expulso da sala de estar
cidadão do mundo
Me adapto num banco de padaria


Meu passado encaixotado
meu lar
             encaixotado, bagunça

Meu reflexo no balcão de frios
expulso do passado
ex-marido
Malparido, parado
       esperando o relógio me expulsar
em transe, delírio
   
      ex



  etc



banco de rodoviária



tenho tudo que sempre quis agora:
folha em branco
tempo
um banco de rodoviária
passagem no bolso
lápis
e a tela pálida do amanhã.

no entanto sigo tonto
tenso e

triste.



estrada-canção



indo embora
sempre
daqui

me vi rio
me vi mar
montanha

estar, estado de ser
   passageiro   estrangeiro   turista

me vi frio
me vi bar
calçada

indo embora
sempre
daqui


estrada



mitridatismo



do silêncio nasce a dúvida
diluída, mitridática

da folha arrancada o poema
manuscrito, apressado
em dúvida.

do fim de um ciclo, teu sorriso
teu rosto
teus cachos
teu pescoço

da longa espera nasce o sonho, tédio.
da longa espera uma esfera opaca
diluída,
murcha
mapas viários, continentes.

da próxima linha, a insatisfação com a poesia
que agora nasce:

                            fim.




parede de vidro




parado pareço estranho
pintando poema em tela-caderno

no metrô meço meu passo
lento

lendo poesia
faço

respiro água
com gás

me banho na clareira
parede de vidro

parado no tempo

me torno estátua




carta de despedida precoce encontrada num fundo de armário


São Paulo, 05/2010                                  


sei que vai durar pouco mas não me importo
brindemos.
sei exatamente o que vou sentir quando isso acabar,
aliás, já começo a sentir e quase não me importo.

vou me arrepender de não ter sido pleno e me repudiar por ter caído em armadilhas tão simples.
vou te procurar por todos os cantos,
cidades e rostos
pra tentar a redenção.

não vou te encontrar.

sinceramente vou desejar o seu bem antes de dormir e lembrar — sem sono — dos nossos silêncios e olhares furtivos a uma distância segura.
tão certo quanto o seu caráter, vou te agradecer por ter me cedido lápis e matéria quando tudo o que eu tinha era lama num tubo de ensaio.
nossa historia terá sido triste e nostálgica.
nossa despedida será tão efêmera quanto imagino agora e apesar de sabermos disso tudo, choraremos.

nossas bocas só se tiveram por uma noite.
tudo para nós terá sido incompleto.
um para o outro seremos uma lacuna opaca onde o silêncio é auscultado.
sei que está para acabar e que será cruel.
sei que tenho medo.
só não entendo porque escrevo assim, tão triste, se você está agora
tão perto de mim.


                             

domingo, 9 de outubro de 2016

Amanda,



queria te dizer agora que tá tudo bem.
que eu consegui a passagem
que deu tudo certo
que te vejo amanhã de manhã.

mas incomunicável me limito a escrever canções
dizendo que queria te dizer agora que tá tudo bem
que eu já respirei
que encerrei a viagem,
que deu tudo certo
e foi muito bom.

te vejo amanhã de manhã.
te beijo amanhã de manhã.
tua língua no café da manhã,
                                  faminto.

não minto:
queria te dizer agora que o tempo não passa
e os minutos ferem
meus olhos que querem
te ver logo -- que esperem!
                 
amanhã de manhã.



quarta-feira, 28 de setembro de 2016

flores nas mãos



sou uma bomba-relógio atada a um corpo estranho ou
carrego nas entranhas fogos de artifício
que explodem sem cor?

acordo de mais um suicídio mal-sucedido.

"toda bomba pode ser desarmada", ela me diz com calma.

suspiro com pesar
porque
apesar desse cuidado
e a boa intenção de quem ainda acredita,
já conheço os passos dessa estrada
e sei que as explosões seguirão ocorrendo.

ela não quer saber,
insiste em me salvar.

temo machucá-la,
temo não ter mais jeito.

"isso que você me diz, tantos já disseram" e no entanto sigo assim
ingerindo esses coquetéis destrutivos.

"pois agora sou eu aqui, dizendo outra vez
e você vai me ouvir".

não respondo.
ouço o tiquetaquear aqui dentro.
preconizo novas explosões
após raros dias de calmaria.

quem diria,
depois de tanta toxina
alguém se aproxima
com flores nas mãos.



quarta-feira, 21 de setembro de 2016

pela fresta



a velha buzina do trem
novas cicatrizes, diretrizes
um novo nome,
seu sorriso de manhã

também a lesma de mandíbula torta todo dia na mesa, na sala, pelo vão da porta
do quarto entulhado
onde dormi
dormia
durmo
agora

(chove forte.)

espio pelas frestas da janela:
há ratos na cozinha,
a luz acesa

respiro
me alongo
bebo água
deito novamente

         espero

a salada de repolho ainda estará lá
mais tarde



terça-feira, 9 de agosto de 2016

08/08/2016



doutora, hoje fui um bom rapaz.
levantei tarde, é verdade, mas sorrindo e
tomei o remédio em jejum.

elogiei minha esposa, beijei sua testa
fiz lentilha

comi com farinha
e só então fumei o primeiro baseado do dia.

(não enlouqueci como meu Tio-N,)
pratiquei exercícios
alonguei todo o corpo
estudei
comuniquei assertivamente

bebi bastante água
com bicarbonato
escovei os dentes

estendi a roupa
assisti futebol antigo
limpei o cinzeiro
juntei migalhas
marquei datas na agenda
reguei as plantas
conversei com os gatos e
tomei apenas 10mg à noite.

escrevi até um poeminha, sabia?

(...)

suicídio?
não, hoje não.



quarta-feira, 3 de agosto de 2016

palavra na noite densa



olhos abertos não enxergo
meu corpo inerte a 80km/h
dentro da noite densa

suspenso no tempo
                                  de Cronos
decido enxergar o tempo do palco

e revivo gota a gota
tudo aquilo que um dia
sonhalizei



27/07/2016



vivo a noite dos ébrios
e amo-os,
ébrios.

mas

dias adiante
           suando frio
respiro enfim ao perceber
a serenidade do motorista abstêmio

que me guiará
quilômetros, estrada
volta ao lar





crise





bagagem horário
passagem arroz com ovo
maconha citalopram valium
despedida abraço 
pressa
suor frio falta de ar tontura
metrô
bagagem pressa culpa
falta de ar calor suor frio
incomunicabilidade
sede pressa
pânico     vertigem
crise
rodoviária        horário
água
respira diafragma saudade
pazpassagem estrada
fim





terça-feira, 2 de agosto de 2016

sexta-feira, 15 de julho de 2016

azia


escravo de mim mesmo
sou o rei do meu dia.

sentado no sofá-trono
            (torto)
em absoluta
                     letargia


terça-feira, 12 de julho de 2016

às tantas



então
é por isso que as pessoas regam plantas
                         e levam seus lixos pra fora
                               e recorrem a um Deus
                                               e têm filhos…
e é por isso que os pais abandonam seus filhos
e os filhos procuram os pais por toda a vida
                                        em outros rostos          
                                            e identidades
e ao encontrarem se decepcionam e choram.

é exatamente por isso que alguns cometem
suicídio e fogem, enlouquecem, erguem prédios
e escrevem poemas se queixando disso
(…)
frequentam puteiros, enchem a cara de valium
ganham estradas, perdem o orgulho,
brocham.

é por você que homens tacam fogo em seus próprios olhos
e transtornam avenidas nus e passam a noite em cana
e sustentam as têmporas com um gole de vinho
e enxergam afluentes nascendo da pele frágil
martirizada por canivetes cegos que foram úteis na estrada quando a única opção era manga verde do pé.

é por isso que marcam-se obras-primas.
comemora-se a taça ou recordes

é por isso que as mulheres tomam anti-gases e compram revistas descartáveis
e alisam o cabelo descartável e disputam o amor descartável com uma faca sob a saia.

por isso tantos documentários sobre 
fome, guerra, capitalismo, aborto, Hitler, carros, equilibristas, mamutes, répteis
depressão,
                 incompreendida pelos que nunca sentiram isso, então seguem
regando plantas, tecendo netos, unindo e destruindo lares,
colocando seus lixos pra fora, recorrendo a um Deus…
confortáveis, 
em consignação, à espera da extrema unção que redimirá
seus pecados secretos que sequer são excitantes..

é disso que as baratas se alimentam.
é por essa fresta que entram répteis com sorrisos injustos
roubados de homens ensandecidos que não queriam o aborto
mas tiveram sua sorte abortada por mulheres aparentemente 
frágeis e
doces.

por isso as pontes são tão altas
e os esgotos tão escuros.

por isso tantos idiomas, tantas crenças, tantos mantras, tantos filmes, tantas palavras…
por isso a incompreensão absurda sobre um fato simples,
o choro,
o aborto.

por isso os filhos seguem buscando seus pais por toda a vida;
em corpos, copos, cabelos loucos, olhos opacos,
peles insípidas, putas em alemão,
valas sujas, rodoviárias, borracharias, bares,
quartos de hotel,
                     o susto de um alce em meio ao silêncio suspeito da floresta.

por isso estou aqui,
por isso tantas palavras.

para espantar isso
que insiste em chegar
quando o equilíbrio já acena como um velho camarada…

e foi justamente isso que estiou a tempestade de lágrimas
por tempo indeterminado.

bom.
sem lágrimas.
é mais fácil assim.

enfrentando
com olhos brutos

e prontos.


_______________________________
inverno, 2012, São Paulo/SP