sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O Silêncio — Romance em capítulos

Primeira parte





I



“Eu odeio sonhar”, ela dizia. 
O som altíssimo de alguma TV invadia o quarto e a madrugada. “Certamente um solitário”, ele concluiu. Alguém numa cama de casal, o travesseiro sobre a cabeça para se proteger da luz e som da TV, ligada apenas para fazer companhia.

     Como assim odeia sonhar?
     Odeio sonhar. Sempre acordo mal.

“Eu odeio sonhar”. Que frase incrível.
Ele liga a TV. Sem som. O colchão de casal no chão, sem lençol. Os travesseiros esparramados pelo quarto. 
Quem entrasse agora até poderia pensar que o sexo foi incrível. 
Mas não foi. 
Nunca é.

     No que você tá pensando?
     Em nada...
     Como “nada”? Isso é impossível.  ela insiste.
     Nada importante, eu quis dizer.
     Mas fala.
     Você tá parecendo a minha terapeuta. Já disse que nada importante.
     Mas fala.
     Tô pensando na porra dessa televisão do vizinho, que passa as madrugadas nesse volume absurdo. Ele com certeza nem tá vendo. 
     Como você sabe?
     Ninguém assiste TV com o volume tão alto. Ainda mais de madrugada. Ele nem deve perceber que tá alto o volume. Ou seja, tá em outra. Provavelmente dormindo, sedado.
     Você tem essa mania de ficar imaginando uma vida pras pessoas. Você nunca vai saber exatamente o que outra pessoa passa.
     Aí é que você se engana. O que uma pessoa passa, todas passam. E se eu digo que ele tá usando a televisão como companhia, é porque eu já fiz isso.
     Exato, você acha que seu vizinho tá fazendo isso porque você já fez isso. Você não tem como ter certeza.
      Ok.

É sempre igual. O flerte, o cortejo, o joguinho, o convite despojado prum encontro, o encontro meio frio, o caminho meio frio pra casa, o sexo meio frio, o pós-sexo incompreensível, a esperança de que amanhã vai ser melhor...

     Quer alguma coisa da cozinha? Eu vou pegar água.
     Mas tem água aqui do lado da cama, você trouxe.
     Essa já tá morna. Quero água gelada.
     Eu vou lá com você.
     Não precisa. Fica aí. Quer que eu traga alguma coisa?
     Não.

Quando Hermes voltou ao quarto ela vasculhava uma de suas prateleiras de livros, indecisa entre um Sartre e um Camus.

     Qual desses você me indica?
     O Muro. Eu gosto do Camus, mas A Queda é insuportável.
     “O muro, a queda” hahaha. Caiu do muro! HAHAHA.
     Hã?
     Ai, nada...

Hermes parado à porta do quarto, hesitante. 
Lígia deita-se com os dois livros em mãos. Lê os prólogos, prefácios e opta pel’A Queda.

“Quem é essa mulher na minha cama?...
É alguém que tem dentes, cabelo, intestino, nervos, orelhas, pelos dentro do nariz e acima dos olhos. O que mais poderia ser? Alguém que come quando tem fome e arrota discretamente em público. Que prefere a queda ao muro.”

     Ei, vem cá. Deita comigo.
     Não tô muito afim de deitar. Mas pode ficar de boa aí. Acho que vou tomar um banho.
     Não vai me chamar pra ir junto?
     Ah, eu até pensei nisso, mas... Você tá lendo, não quis interromper.

Lígia fecha A Queda na hora. Pula da cama com um sorriso no rosto.

     A toalha que eu trouxe ainda tá molhada. Você me empresta uma?
     Claro.
     Nossa, agora que eu me liguei. Eu já tô na sua casa há três dias!
     Jura? Caramba, nem tinha percebido...
     Isso foi irônico?
     Não...
     Pareceu.
     Mas não foi.

O banho é frio. Como sempre. 
A água está quente, mas não o suficiente para aproximá-los. 
Fetos numa placenta.

     Você quer que eu vá embora? Pode ser sincero.
     Claro que não, pode ficar.
     Não sei, parece que não tá rolando.
     Fica, por favor.

Lígia abre um sorriso. Resolve passar mais uma noite. 
Hermes tenta mas não consegue. Sentir nada. 
Nada.
Depois de algum tempo  Lígia já adormecida  finalmente percebe:

Sente inveja do vizinho solitário.























II


É Hermes quem acorda primeiro. Livra-se da coberta que foi catar no meio da noite. Se esforça como alguém que almeja passar num teste de concentração. Não quer acordar Lígia.
No caminho pra cozinha, inevitavelmente percebe o topo de sua cabeça semi-calva. Os gatos vem até ele. Têm fome. Hermes, antes de tudo, enche os potes dos gatos com ração. Depois prepara o café.  O silêncio é descomunal, quase ofensivo. É sábado, não são oito da manhã. Hermes não emite um ruído até que a chaleira ensaie seu apito. Hermes desliga antes, sabe que água de café não se ferve. O dia nasceu meio cinza, um tanto frio. Olha pela janela da cozinha e só enxerga outras janelas. Vê roupas no varal, produtos de limpeza nos parapeitos das janelas, geladeiras, pedaços de móveis... 

     "No fundo é tudo igual."

Passa o café bem forte, talvez numa tentativa de impressionar Lígia, que dorme. Ou finge.
Os gatos comem sem cerimônia. Croc Croc Croc Croc. 
Hermes contempla o espetáculo. "São meus filhos", pensa. 
Sabe que Lígia bebe café com leite e pão com manteiga. Prepara tudo e leva até o quarto. A porta se fechou sozinha. Hermes tem as mãos ocupadas e abre a porta com o cotovelo direito. Lígia dorme (ou finge?) na mesma posição. Hermes deposita caneca e prato na mesinha recém-construída por ele mesmo. Ensaia acender a luz, opta por abrir a janela. Filetes de luz inundam o quarto sem cortina. Hermes hesita outra vez. Decide não abrir. Vai até Lígia e lhe dá um beijo no rosto, outro na boca. Sente seu bafo matinal. Ela desperta, como num filme.

     Eu trouxe café. E pão.

Lígia parece não compreender. Seus olhos inchados e impessoais.
Hermes venera a cena. A natureza em sua condição primária.
"Eu te amo", ele deseja dizer. Não consegue.

     Que horas são?
     Umas oito.
     Que cedo...
     É. Perdi o sono.

Lígia tenta acordar aos poucos, não se importa com seu estado físico. Hermes percebe e aprova a atitude.

     Me dá o café.

Hermes deita ao lado de Lígia e a observa tomar seu café da manhã como uma criança.

     Vem morar comigo?
     Oi? 
     Vem morar comigo.

Lígia mastiga e faz um sinal com a mão: "espera".
Aí engole.

     Morar com você?
     É.
     Por quê? Como assim?
     Vem morar comigo. Casa comigo. Tem espaço, a gente se dá bem. Eu te amo.

Lígia arregala os olhos.

     Oi!?
     Vem. Só vem. O resto é detalhe...
     Como você vem me dizer isso uma hora dessas?!
     Desculpa, da próxima vez eu agendo um horário.
     Para de falar assim! Eu odeio quando você é sarcástico.
     Então você me odeia na maior parte do tempo.
     Exatamente.
     Uau. Bom saber...
     Pois é.
     Tivemos nossa primeira briga?
     Talvez.
     Vem... Só vem. O resto é detalhe.


III


     Onde eu deixo a mala?
     Onde você quiser. A casa agora é sua também.
     Para. Eu não quero que comece assim. Vamos estabelecer uma ordem, senão daqui a um mês você tá me expulsando da sua casa.
     Nossa casa.
     Você tem certeza que quer isso?
     Eu preciso de você.
     Precisa? Ou quer?
     ...
     Bom, eu vou deixar lá no quarto desocupado.
     Não. Deixa no nosso quarto.
     ...
     Eu tenho um pouco de saquê. E whisky. Cê quer?
     Quero. Saquê.
     Sério?
     Sério, por quê?
     
Hermes sorrindo prepara um drink com o saquê enquanto Lígia vai acomodar-se no quarto.
Gelo, manjericão, melancia velha e saquê.

     VOCÊ GOSTA DE MELANCIA?! — exagera no tom de voz.
     Adoro, por quê? — Lígia reaparece na sala, de pijama e meias. — E não precisa gritar, viu, eu não sou surda.

É noite de terça-feira.
Como sempre, uma criança faz birra em algum apartamento. E a avó grita. E algum vizinho acende incenso. E queima a comida. E tudo se encontra no seu devido lugar. Hermes sorri sem perceber.

     Você prefere Tchaikovsky ou Philip Glass?
     Porra, essa é difícil...
     Não pensa muito. Pra agora. Tchaiko ou Glass?
     Glass.
     OK, posso por as danças?
     Danças?
     É. Não conhece esse álbum dele?
     Não.
     Você vai ouvir. É incrível.

(...)

     Eu te amo.
     Te amo.

(...)

     Mete fundo, vai.
     Você gosta, né, safada.
     Adoro. Acaba comigo, vai.

(...)

     Boa noite.
     Boa noite, meu amor.


IV


     O inferno são os outros. Cortando grama com essa máquina barulhenta. De manhã. E essa ressaca.
 
Lígia, dormindo, concorda.
Hermes enrola o travesseiro na cabeça. Pressiona na região dos ouvidos. Não adianta. O barulho infernal entra fundo em sua cabeça, que lateja.

     Não é possível. Esse cara não tá fazendo isso a essa hora.

Hermes se imagina levantando, abrindo a janela e jogando uma pedra no homem que corta grama.
Alcança o celular, no chão. 08:57

     Falta tato à lei. Não é natural ouvir um barulho desses pela manhã. É violência demais.

A ressaca é aniquiladora. Saquê com whisky. Bela mistura, campeão.
Hermes desiste e levanta. Lígia dorme um sono pesado.
Os gatos vem até Hermes. Um deles, Norberto, para no meio do caminho, empina a bunda e se estica pra frente, as patinhas arranhando o chão.
Hermes alimenta as três boquinhas famintas.
Abre a geladeira rezando pra que tenha água.
Bebe 500ml em velocidade moderada porque sabe bem o que acontece quando alguém desidratado bebe tudo de uma vez. Empirismo.
Faz café mas não toma. Esquenta o leite, adiciona o café, duas colheres de açúcar. Pensa em passar a cabeça do pau, mas desiste. Ri de si mesmo e leva a caneca ao quarto, concentrado para não derrubar.
Em nenhum momento teoriza sobre a ida de Lígia para sua casa.
Norberto surge de repente e se roça na perna de Hermes, que se assusta, grita e derruba café com leite em si e no chão. Norberto se assusta e sai correndo, em dois segundos está na janela, se roçando na tela de proteção.
Hermes deixa o café no quarto e vai até o banheiro se lavar. Aproveita e mija, lava o rosto e a nuca. Por acaso olha para o cesto de lixo. Papel higiênico sujo de merda. Não é dele. Não joga papel de merda no cesto.
"Então essa é a merda da Lígia... É bom eu me acostumar."

(...)

     Você não vai acordar?
     Hum... que horas são?
     Quase onze.
     Ah...  Lígia resmunga enquanto tenta abrir os olhos inchadíssimos.
     Dormiu bem?
     Acho que sim.
     Sonhou?
     Acho que não.
     Você nem tomou o café.
     Desculpa...
     Tá de ressaca?
     Hum...?
     
Hermes levanta impaciente.
Finge estar bem. Finge não estar incomodado com a presença daquela mulher ali, indiferente a ele.
Forja uma postura despreocupada, natural. Sabe que nunca obtém sucesso nessas tentativas, no entanto segue no jogo.

     Eu vou dar aula daqui a pouco. Você fica aqui sozinha numa boa?
     Aham...
     Tá. Eu vou tomar banho...
     Tá bom.

Hermes fecha a porta do quarto sem olhar pra trás. Percebe a artificialidade do movimento. A cabeça, leve demais, lateja. Whisky e saquê. Faz calor. Ouve os ruídos do mundo: as crianças no parquinho, um aspirador de pó distante, veículos cruzando a avenida expressa, uma ou outra moto se destaca  o som circulando Hermes.
Um avião cruza o céu ostensivamente azulado. Hermes não vê o avião. Gostaria de estar nele. Fugindo.
Imagina uma enorme e metálica turbina. Absoluta. O calor absurdo que aquilo emana. Sente o vento quente no rosto, o cheiro do combustível. O som ensurdecedor. O sol massacrando. A furadeira do vizinho. A merda da Lígia. Sua cabeça vazia e leve é o anfiteatro perfeito para o show de terríveis ruídos. Hermes liga o chuveiro. Tonto. Gelado. Faz tanto calor que a água gelada sai quente. Hermes quase vomita. Abre o vitrô do banheiro e dá de cara com uma janela aberta, as pernas fartas de uma mulher espalhadas pela cama. Hermes não hesita. Pega o pau mole. Começa a bater uma, a cara metida na janela, sem pudor. A mulher lê algum livro e balança a perna direita, como se quisesse enviar sangue pra buceta. Como se estivesse se excitando aos poucos, sem notar. Hermes não consegue uma ereção. A cabeça vai explodir. Uma dor aguda. Grave. Uma turbina de avião na garganta. 
Hermes vomita no box.

Duas da tarde e Lígia ainda não levantou. Enrola na cama, um braço dobrado sobre a testa, a perna esquerda erguida, balançando lentamente. Involuntariamente. Às duas e treze levanta. Leva a caneca cheia até a cozinha e despeja na pia. Norberto, o gato, não vai com a cara de Lígia e sai correndo quando ela entra em cena. Da janela espreita Lígia, desconfiado. Lígia está parada no meio da cozinha. Tenta decifrar os horários organizados a lápis por Hermes numa folha sulfite colada a durex na parede. Nenhum compromisso marcado para hoje, no entanto. 
Lígia bebe água do filtro, abre a geladeira e hesita. Escolhe alguns ingredientes para seu sanduíche.
Norberto não desgruda os olhos dela.

Na rua Hermes caminha em ziguezague, de olhos fechados. Pressiona as têmporas com a ponta dos dedos. Passa a mão pelo topo da cabeça semi-calva. Sente a eletricidade dos cabelos percorrendo a mão depois o braço, perdendo força no ombro dolorido. Todo o corpo dói. "Fígado", é o que dizem. Hermes precisa ir ao médico. Há anos adia. Precisa fazer endoscopia, exame de sangue para DSTs no geral, diabetes, hepatite, esquizofrenia.
O alcoolismo autodiagnosticado não tem cura. Aprendeu com a mãe. "Uma doença incurável, progressiva e fatal."
As ressacas pioram a cada bebedeira. Hermes não compreende. "Eu nem bebi tanto ontem".
É verdade. Hermes bebeu meia garrafa de saquê e umas quatro doses (caprichadas) de whisky. "O saquê a 15% de teor alcoólico. 500ml. 15% de 500 é 75. 75 ml de álcool, mais uns 250ml de whisky, a 40%. 40% de 250 é 100. Ao todo, então, 175ml de álcool. É o equivalente a onze latas de cerveja. Não é muito." 
A operação matemática esgota as últimas forças de Hermes, que cessa de andar. Se apoia num Muro, curva o corpo pra frente e ensaia vomitar. Não sai nada. Mete o dedo na garganta. Nada. Pessoas olham curiosas, enojadas, com medo. Ninguém oferece ajuda. Estão no Sul. Hermes nem se espanta mais. Na verdade mal percebe as pessoas que passam. É tudo um borrão claro demais que Hermes tenta enfrentar sem cair. Vai andando assim até encontrar uma mureta em frente a um hospital. Não entra, apenas senta ali. Fecha os olhos, ergue a cabeça e respira fundo, pelo diafragma. Pensa na merda da Lígia. No café com leite desprezado. Não lembra o que aconteceu ontem. Nunca lembra. Só lembra de contar as doses de whisky. E todo o monólogo interno que isso gera. Lembra de Lígia bebendo saquê, portanto deduz que bebeu meia garrafa. O gosto de saquê volta. O gosto do whisky de média qualidade volta. O gosto da merda de Lígia o surpreende. Hermes vomita na calçada.
Como se tivesse vomitado um hospedeiro, levanta muito mais disposto. Distingue os carros e as pessoas e os postes e as placas e as pedras no chão. Caminha rumo ao ponto de ônibus, planejando a aula que seguirá.


V


Hermes chega em casa às seis da tarde. A sala está apagada. Norberto vem recebê-lo. Hermes vai até a cozinha e acende a luz, nota os potes de comida. Vazios. Lambidos. O pote de água está seco a ponto de evidenciar pequenas rachaduras no fundo. Norberto mia, exigente. Em cinco segundos os potes estão cheios novamente. Uma das gatas surge por debaixo do fogão, como um rato. A outra vem correndo de algum lugar da sala escura. Os três comem sem olhar para Hermes, que abre a geladeira e se frustra ao perceber que não tem água gelada. Bebe do filtro. Água morna. 
Não tenta ouvir ruídos, não tenta descobrir se Lígia está em casa. Vislumbra as duas garrafas vazias na pia. Isso o surpreende. As duas estavam praticamente cheias ontem à noite. Hermes vai até o quarto pisando forte o chão de madeira, que estala e range. A casa está toda escura, mas Hermes conhece cada polegada e chega facilmente à porta do quarto. Lígia está com fones no ouvido. Ele sente que interrompeu alguma coisa. Lígia olha sem expressão para Hermes, que sorri e diz oi. Lígia parece reconhecê-lo aos poucos, sorri um sorriso reconfortante, talvez piedoso. Retribui o oi e se vira para trás, acompanhando os passos de Hermes, que vai até a janela e abre. 

     Tá tudo bem? — ela pergunta.
     Agora sim. Eu quase morri hoje.
     Ressaca?
     Sim.
     Também, você matou o whisky e bebeu quase todo o saquê.
     Eu?! Eu bebi umas quatro doses de whisky só!
     Ha-ha-ha-ha. É piada, né? Você parecia um maluco ontem.
     Lá vem...
    ...Disse que bebia pra se vingar. Que nunca tinha sido amado. Que nenhuma mulher tinha sido sua parceira de verdade. Que só se sentia vivo quando tava bêbado, sem falar que...
     Para. Não quero ouvir. Tenho até medo.
     É, eu também teria se fosse você.
     É...
     Você realmente não lembra o que fez ontem?
     Se você soubesse quantas vezes eu já ouvi essa frase...
     Imagino que sim... É que eu nunca sei se devo acreditar nisso de amnésia alcoólica.
     Caralho! Por que eu mentiria? Eu simplesmente não lembro! É só isso!

Lígia insiste.

     Você fica muito estranho quando bebe. Parece outra pessoa. Sua voz muda, seu rosto muda, você fica falando super alto, dando risada, agindo como se tivesse num palco, cantando, até aí tudo bem, mas de repente parece que você vê alguma coisa e fecha a cara, fica nervoso, agitado, agressivo, paranóico. Você tem ideia do que me disse ontem? Eu vou falar! Você veio dizer que eu tinha clonado seu cartão! Que eu trabalhava pro Samuca. Eu nem sei quem é Samuca! Você mesmo já disse que nem tem cartão nem conta em banco! Eu te dizia isso e você só respondia "Aham, claro, aham". Era insuportável. Aí você foi até a cozinha, eu fiquei com medo. Achei que você ia pegar alguma faca, ou sei lá... Aí você voltou com a garrafa de whisky e começou a beber no gargalo. Quase vomitou, babou tudo no chão, ficou cuspindo, depois olhou pra mim e me chamou de ingrata! Disse que eu só queria o seu dinheiro e o seu prestígio. Que eu não tinha ideia de como era difícil ser um gênio...

Hermes caminha na direção da porta. Não diz nada.

     ...Que eu tinha que respeitar seu espaço e que eu não te levava a sério. Mas que você ia...

Hermes fecha a porta do quarto. Vai até o banheiro, tranca a porta e dá uma bela cagada. Não acende a luz. Tira o grosso da sujeira com papel higiênico e entra no banho. No escuro, deixa que a água limpe o cu e as palavras de Lígia.


VI


Ouvem Coltrane no escuro, em silêncio. O lençol cheira a virilha. Isso excita Hermes, que ensaia molestar Lígia, mas logo desiste prevendo a frustração. Ele não sabe se Lígia está realmente ali. O silêncio paira leve, mas nunca se sabe.
Choveu durante horas. Agora faz uma noite clara e limpa lá fora. O frescor entra pela janela aberta. Hermes fixa os olhos num ponto luminoso no alto de um prédio.
Já se passaram três meses desde a mudança de Lígia, percebe. Sente uma melancolia incrivelmente boa.
Coltrane. Noite alta, clara. Silêncio e uma mulher ao seu lado. O cheiro humano.
Registra mentalmente a cena.
Lígia quebra a inércia bruscamente. Gira pra cima de Hermes, agarra seus punhos e o imobiliza. É impossível distinguir sua feição felina. Sente apenas o calor do hálito e do corpo, sobretudo na região da pélvis.

O sexo flui surpreendentemente bem. Talvez o mais incrível até o momento. Ninguém diz nada. Não é necessário.
Permanecem o mais perto possível, sem encostar os corpos.
Hermes pega no sono, beirando a plenitude, mas acorda assustado com voz de Lígia.

     ...Pensei em nem falar nada, mas não seria justo.
     Hum?
     Tava dormindo?
     Tava quase... o que você disse?
     Ah, nada. Pode dormir. Amanhã eu falo.
     Não, agora que você me acordou, fala.

O silêncio muda de face.
Esquenta e pesa.

     Ligaram lá de São Paulo enquanto você tava fora.

Hermes nota a preocupação na voz de Lígia.

     Quem?
     Sua avó.
     Ela falou algo de mais?  Hermes dissimula. Sabe que há algo errado.
     Falou... eu não sei como te dizer isso... e não queria ser a pessoa a ter que dizer... eu até pensei em ir embora pra não ter que dar a notícia...
     Porra, fala logo, você tá me assustando.

Hermes senta imediatamente no colchão. Vira o corpo na direção do vulto de Lígia.

     Sua mãe... — Lígia começa a chorar. — Sua mãe morreu.

O tom fúnebre de Alabama (John Coltrane Quartet) pincela de beleza a cena fatal. Hermes não diz nada. Seu corpo esfria por dentro e esquenta por fora. A pele se arrepia completamente. Os ombros de Hermes se erguem, armados. Ondas elétricas nascem no topo da cabeça semi-calva e percorrem todo o corpo até as canelas. Não chegam aos pés.

     Caralho...

O saxofone consola o contra-baixo.
Lígia tenta sem sucesso consolar Hermes, que nada diz o resto da noite.
Os dois deitam novamente em silêncio. A claridade do céu estrelado invade o quarto. Hermes distingue todos os seus livros, seu quadro em litografia, o interruptor, seu divã, os óculos sobre a mesa. Tenta sentir alguma coisa. Então percebe a TV do vizinho. O volume altíssimo.
Filme dublado.
"Tela Quente. Ainda existe isso?"
Sente pena do vizinho. A cabeça esquenta e lateja.
Hermes solta um uivo áspero e grave que pode ser ouvido a dois quarteirões dali.
Lígia finge dormir.


VII


     "O som leve do ventilador portátil não interrompe o silêncio tropical; pelo contrário: intensifica-o. Todas as janelas abertas não dão vazão ao calor dantesco e atípico. As moscas vagam fartas pela merda dos gatos que, exposta ao calor, fede o dobro. A cena é de dar inveja a qualquer escritor de sub-literatura policial. Não há mesa de escritório ou arma, é verdade. Sento-me sobre um travesseiro murcho, enrolado no chão, de costas apoiadas num sofá velho fedendo a vinagre.Nesse exato momento encontro-me suspenso na existência. Busco um tipo de paz interior, mas as gotas de suor me escorrendo pelas costas distanciam qualquer possibilidade. Esfrego as costas no sofá. O travesseiro se desenrola. Dou um impulso com os joelhos, o corpo salta um pouco e tento nesse ínterim arrumar o travesseiro, mas caio rapidamente sobre ele, ainda mais desfeito. Esmago os dedos com o peso do corpo. Meu saco vai parar embaixo do cu, todo empapado de suor. Um mosquito talvez cego tromba no meu nariz  desperto totalmente da paz que vislumbrava. Descolo o saco do cu, enrolo o travesseiro outra vez, ajeito a postura, fecho os olhos, respiro sentindo o diafragma cada vez mais relaxado, estico a coluna, giro o pescoço e tento encontrar um ponto de fuga no negrume dos olhos. O suor escorre. Muito. Tomo conhecimento de dobras até então ocultas no meu corpo. Estou gordo. Levanto bruscamente, vou até o banheiro lavar o rosto, cometo o erro crasso de olhar o topo da minha cabeça oleosa e calva. Ontem mesmo eu era um cara bonito, com certa elegância. Pra onde vai a vitalidade? Escorre como suor? Fede como merda de gato? Gira sem parar como o ventilador portátil?
     É impossível permanecer aqui. Visto uma bermuda limpa e uma camiseta fedendo a sovaco. Tudo bem. Recolho cinco sacolas de lixo antigo  uma delas furada, fazendo escorrer chorume pelo chão  e desço as escadas frias desse prédio pacato onde moro.
     A rua parece o inferno.Vago tentando encontrar o diabo que enfim me libertará."

Hermes fecha o caderno. Da sala consegue distinguir os barulhos que vêm do quarto.
Repete o ritual matinal.
Comida pros gatos, café, pão com manteiga, esquentar o leite, duas colheres de açúcar.
Bebe o café de estômago vazio. Preto. Puro.
Prepara o pão e café com leite de Lígia. Ensaia levar até o quarto mas ao chegar no meio da sala enxerga Lígia encostada na parede, os olhos enormes, interrogativos, reticentes.

     Bom dia!

Lígia roendo a unha não responde.

     Nem ouvi você levantar. Tava indo levar o café pra você na cama.
     Pode deixar aí na mesa, eu já tomo.
     Tá bom.

Lígia em silêncio e determinada anda rápido na direção de Hermes e dá um abraço muito apertado.
Hermes sente as lágrimas no seu ombro.

     Ei, que houve? Por que você tá chorando?

Ela não consegue responder. Desata a chorar e aperta ainda mais o abraço.
Hermes sabe o motivo. Piedade. Está chorando pela perda dele. E por ter sido testemunha e porta-voz da morte.
Lígia enfim soluça algumas palavras.

     Você já ligou lá?
     Já vou. Ainda não liguei porque eu tava escrevendo um conto. Acordei com uma ideia.

Lígia parece não acreditar no que escuta.

     Você tava escrevendo um conto?
     É. Baseado num filme que vi recentemente, me identifiquei bastante... — Nota a repulsa crescer no olhar dela. — Sobre um cara que sofre dessas pequenas maldições cotidianas, sabe?, essas coisas que todo mundo odeia em silêncio por achar que aquilo só acontece com você... — PARA! — Lígia berra.

Empurra Hermes, dá meia-volta, entra correndo no quarto e bate a porta.
Ele finge não entender.
(De fato não compreende muito bem.)
Parado no meio da sala, sente-se oco, um pouco idiota. Sabe que deveria estar chorando ou algo do tipo. A mãe morreu e ele escrevendo um conto baseado num filme que assistiu.
Vai até o quarto e no caminho se vê de relance no espelho da sala. Sente vergonha. Julga patética sua figura. Um frango malcozido e sem tempero. Calvo. Órfão.
Abre a porta do quarto e encontra Lígia fazendo as malas.


O Silêncio — Romance em capítulos (Segunda parte)



I



Mal havia amanhecido, o interfone não precisou de cerimônia para soar seu alarme já esquecido e agudo demais aos ouvidos dele. Talvez pelo ambiente opaco do apartamento quitinete, todo fechado, iluminado apenas pela fresta de luz morna que entra através do buraco na grossa cortina vermelha. A poeira parece dançar tango durante a luz. Ele, deitado num colchão no chão, na extremidade oposta do apartamento, acordado há sabe-se lá quantas horas, cinco dias sem sair de casa, olha estático para o feixe de luz como quem não tem escolha. Costuma imaginar que somente dentro do feixe há poeira; que o resto do apartamento está limpo. Sabe que não, e apesar disso gosta de estar ali, refugiado naquela cidade. Sozinho. Outra vez. Mas não consegue dançar tango na própria fantasia porque agora mesmo o interfone inicia a segunda rodada.
O interfone está ao lado da janela. De seu colchão não consegue enxergar o aparelho que sequer cogita atender. Olha fixo pro teto. Repara numa pequena rachadura na tinta branca. O interfone insiste. Calcula que seja terça ou quarta-feira, algo em torno de 7:00am. Faz esforço para se virar de lado e alcançar um bocado de papel que usou pra esboçar alguns poemas recentemente. Vasculha as páginas, ignora os poemas e só sossega quando encontra o desenho de uma mulher sendo currada por um homem de mandíbula muito projetada pra frente. Ele quem desenhou. Segura a folha em frente ao rosto com a mão esquerda, com a direita pega no pau e começa a bater. O interfone segue. Tenta se concentrar e imaginar que ela sente prazer. Projeta nessa mulher uma dúzia de mulheres que conheceu ao longo da vida e a cada mulher que se lembra, lembra também dos pesares, dos abismos, da maneira cruel com que todas as relações terminam, inevitavelmente. Pensa em Lígia. O pau vai amolecendo, fecha os olhos com força, estica muito a pele do pau, bate com esmero, percebe que não vai gozar e desiste. Joga o desenho longe e torna a olhar para o teto. Demora pra encontrar a rachadura. O ar ali dentro é quase sólido, fede a virilha e peido. A hipótese de cruzar aquela porta lhe parece distante e terrível. Apenas dois metros separam-no do mundo lá fora, no entanto, parecem árduos quilômetros. Tem do mundo o suficiente: a luz límpida e fresca que entra discreta por baixo da porta, os sons saudáveis do dia, os passos cordiais de seus vizinhos.
Não sabe ao certo quantos apartamentos se distribuem pelos andares, mas supõe doze.
"15 andares vezes 12 apartamentos = 180 apartamentos no prédio, vezes 8 blocos = 944 apartamentos, menos esse = 943 apartamentos ao redor. Média de três pessoas por apartamento... 2829 pessoas ao redor e ninguém capaz de me salvar."

O elevador se faz evidente — seu motor grave ecoa pelas paredes —, a porta se abre e alguém caminha pelo corredor. Ele se encolhe na cama, prende a respiração e se atenta ao menor ruído. Os passos se aproximam. Seus músculos paralisam. Evita mexer até mesmo o pescoço, com medo que o intruso ouça e invada o apartamento através desse som, como faz a poeira através da luz. Involuntariamente, sua boca emite um estalido muito alto. O coração se assusta e bombeia sangue demais. O corpo esquenta. Sua cabeça parece elétrica e vazia. Ele treme. O interfone torna a tocar, seu alarme faz com que Hermes desperte do transe, levante da cama num pulo, jogue a coberta pro lado e, de joelhos, vá até o interfone. Vai engatinhando e mal percebe o carpete rude que esfola seus joelhos. Não sente nada, só calor e esperança. Levanta-se do chão e ao fazer isso a coluna estrala, também os pés e joelhos que agora sangram. Hermes num repente escancara a janela, as cortinas, respira um ar azul que quase não interpreta, gira o pescoço lentamente e atende o interfone.

     Opa.
     Pois não, Seu Hermes?
     ...
     Alô?
     Oi. Você interfonou pra cá?
     Não, senhor, quem interfonou pra cá foi o senhor.
     Não... meu interfone tava tocando sem parar, mas... eu tava no banho e não deu pra atender... aí eu atendi agora.
     Olha, eu não sei. Eu acabei de chegar, mas quem tocou agora foi o senhor. Quem tava aqui era o Emanuel, eu vou perguntar pra ele, aí eu retorno, pode ser?
     Pode ser.
     Então tá bom.

Hermes ainda hesitou por alguns segundos antes de se virar na direção do cômodo. Era agora um cidadão-janela-aberta, seria difícil encarar aquele apartamento triste, minúsculo e imundo, sem espelho, mobília ou carisma. 
Um prazer diurno o invadiu; uma pureza, enfim. Na rua da frente estava montada uma feira. "Isso quer dizer que é sábado." Pelo modo como a luz está batendo na lona das barracas, pelo ruído e pela aparência das pessoas é possível perceber: são 9:00 da manhã. Deu de ombros e resolveu vestir uma roupa, encarar o dia. A geladeira estava vazia, também a despensa. 
“Pronto. Acordei. Sair da caverna e andar um pouco vai me fazer bem. Quem sabe até eu consiga fazer aquela maldita trilha sonora quando voltar.”
O interfone tocou.

     Oi.
     Oi, Seu Hermes, eu falei com o Emanuel e ele me disse que teve uma moça aqui procurando pelo senhor. Já faz três dias que ela vem aqui procurar pelo senhor. Ela disse que era importante e perguntou se podia subir, mas o senhor sabe que a gente não pode deixar ninguém subir sem autorização... Aí hoje ela deixou uma encomenda aqui pro senhor. Uma caixa...
     Uma caixa?
     Sim, senhor.
     Ela disse o nome?
     Luiza. Tá escrito aqui.
     Tudo bem. Daqui a pouco eu desço pra pegar.
     Então tá bom.
     Valeu.

“Quem, diabos, é Luiza?”, fecha a janela, as cortinas, lava o rosto, bebe água da pia e deita-se de novo.
Os joelhos sangram carpete, mas isso não o impede de usar o lençol branco para se cobrir. 
Fecha os olhos, tenta desviar de imagens sujas e indesejadas que recebeu como tortas arremessadas num show cômico e se pôs a imaginar quem poderia ser essa Luiza. Lembrou-se de uma Luiza com quem havia estudado na quarta série. Uma de suas muitas paixões de infância. Certamente não é a Luiza da encomenda.

     "Uma caixa?"

Acorda num tranco, uma pesada chuva do lado de fora. Faz frio. O vento uiva.
Permanecer em casa lhe parece agora absurdo, mas com essa chuva fica impossível sair.
Vai até a janela e, mesmo sem abrir, constata um céu muito escuro e opressor.      
Sem relógio ou calendário em casa, encontra-se suspenso no tempo.































II


Interfona pra portaria.
Quinta-feira, duas da tarde.
Calça chinelos, abre a porta com certa estupidez e dirige-se ao elevador.
Desiste, vai de escada.
Nota o fedor que sobe do próprio corpo, o sangue nos joelhos.
No caminho à portaria toma um pouco de chuva. Detesta a sensação. Nunca compreendeu o misticismo em volta do tal banho de chuva. A água cria uma lama entre os dedos do pé. Sente que pisa em merda mole.
Não há ninguém na portaria. Tenta espiar pelo vidro escuro, não distingue nada lá dentro. Pelo contrário, acaba enxergando o próprio reflexo no vidro fumê.
Cabelo ensebado, uma barba que denota derrota, o bigode cobrindo a boca que fede estômago vazio.
O porteiro vem correndo. Aparentemente também não é adepto ao banho de chuva. Corre rápido como quem pede desculpa pela ausência. Entra na portaria sem falar com Hermes, parece empenhado em entregar a caixa.
Enfim clareia a expressão quando entrega a Hermes uma caixinha quadrada de papel grosso, revestida por um celofane preto brilhoso, a tampa presa com singelos pedaços de durex, nenhuma indicação aparente.
Hermes agradece sem tirar os olhos da caixa. Pensa em abrir ali mesmo mas decide fazê-lo no apartamento. Sobe correndo as escadas. O barulho dos chinelos ecoa no prédio todo. Abre a porta com arrogância, deixa os chinelos do lado de fora, raspa os pés na panturrilha e se joga no colchão com a caixa em mãos.
Analisa minuciosamente o exterior da caixa modesta. Por um momento não deseja abri-la. Sente prazer ao olhar a caixa.
O estômago ronca. Hermes sente uma tontura abrupta. Nota que está ofegante, sente o coração latejar no pescoço. Está sem comer há mais de 24 horas. Gastou as últimas energias descendo e subindo escadas, expondo-se ao mundo lá fora. Não ousa abrir a caixa nessas condições.
Vai até a cozinha conjugada e vasculha os armários. Encontra um pacote de açúcar fechado com pregador de roupa. Joga o açúcar na frigideira, acrescenta um pouco de água da torneira e vai mexendo até pegar consistência. Desliga o fogo mas segue mexendo pra não empedrar. Come o caramelo entre sopros e queimaduras. Sente ódio quando derrama o caramelo quente no pé. Vislumbra a frigideira sendo arremessada pela janela. Come mais algumas colheradas e joga a frigideira na pia, surpreendentemente limpa.
Hermes não consegue pensar. Sente a cabeça travada, poluída. Por um instante esquece a caixa. Faz uma série de alongamentos, estrala as costas, pernas, ombros, pescoço, pés. Uma sinfonia de estralos.
Uma eletricidade orgástica percorre o corpo todo. A mente clareia. Já não chove tão forte lá fora.
Decide abrir a janela outra vez, ventilar a toca.
Num relance pensa em Lígia e na efemeridade daquela relação que terminou em morte. A morte da mãe.
Lígia não suportou a frieza com que Hermes lidou com a situação. Chegou a chamá-lo de psicopata, doente. Fez suas malas (como sempre fazia em discussões), pediu um táxi e voltou pra casa da mãe.
Hermes seguiu sozinho por mais dois meses no apartamento, até que o contrato expirou. Sem perspectivas naquela cidade, decidiu voltar a São Paulo. Não foi ao velório da mãe. Hermes não compreende velórios.
Pensa no velório de seu avô paterno. Aquele corpo absurdo no caixão pequeno demais. As flores cobrindo as pernas do morto. O cheiro do caixão que persegue Hermes até hoje...
Enxerga a caixa negligenciada ao lado do colchão no chão. E sem teorizar sobre caixas e Luizas, retira cuidadosamente os pedaços de durex.


III


Marcaram pras 20h mas Hermes, ansioso demais, chegou às 19:20h. 
Pede uma cerveja e um Cynar. Tenta não beber rápido demais. Mata um copo de cerveja num só gole, deposita um pouco de cynar no copo vazio, preenche com cerveja e vê nascer sua íntima criação: cerveja de alcachofra, uma coloração fascinante.
Dá um gole moderado e se dispõe a olhar seu redor. Homens se agrupam ao redor do balcão, alguns botões de camisa abertos, pós-expediente. Muitos estão ali o dia inteiro, Hermes supõe. 
É o único nas mesas. Sente-se menos viril por isso. 
Dá mais um gole e nota um tipo curioso sentado sozinho na extremidade do balcão. Lendo um jornal que parece absurdamente grande, o homem bebe cerveja de uma lata. É jovem, tem olhos loucos. Hermes mata seu copo, levanta-se e vai até ele.

     Muito sangue no jornal?

O rapaz olha friamente para Hermes. Seus olhos são opacos.

     Não sei. Tô lendo a seção de economia.
     Sangue numérico.

O homem não vê graça. Tampouco Hermes, que se sente meio imbecil e volta à sua mesa.
Seu copo está cheio. Inexplicavelmente.
Agradece mentalmente e vira tudo num gole só. Sente-se muito agitado. Luiza pode chegar a qualquer momento. Não conhece sua aparência, julgou grosseiro e ultrapassado perguntar isso ao telefone. Pela voz, um baita mulherão. Pele tom de cobre, cabelo ruivo tingido, armado, lábios carnudos. Imagina uma foda incrível, ela com as pernas erguidas, olhando nos olhos de modo desafiador.
O homem do jornal surge num repente e senta-se à mesa com Hermes, que agora tem o poder e o olhar impessoal.

     Desculpa se eu fui escroto com você. Costumo adotar essa postura pra evitar bêbado chato. Mas eu tava te olhando e notei que você é um cara legal. Eu me chamo Rafael, se isso te interessa.
     Leonardo, prazer — Hermes sempre mente seu nome em bares e estradas.
     Prazer, Leo, posso te chamar de Leo?, tá esperando alguém ou é dos meus, que vem sozinho pro bar?
     Ambos. Hoje, especialmente, tô esperando uma mulher que eu nunca vi na vida.
     Acho que todos os bêbados de todos os bares do mundo esperam por essa mulher.
     Sem dúvidas. Mas hoje eu realmente tô esperando uma pessoa. É uma história complicada. Ela deve chegar a qualquer momento. Aliás, que horas são?

Rafael, o homem do jornal, olha de modo esquisito pro seu relógio de bolso e afirma: Sete e cinquenta.

     Ela deve tá quase aí. Marcamos pras oito.
     Já entendi, você quer que eu vá embora...
     Não é isso. Pode ficar até ela chegar. Prova isso aqui.

Hermes preparou sua cerveja de alcachofra, coloração surpreendente, e empurrou o copo na direção de seu mais novo amigo, que não fez questão de perguntar. Virou uma boa golada, com pinta de bêbado profissional.

     Gostou?
     Porra, demais. Cerveja com Cynar? Nunca teria pensado nisso.

Hermes notou o olhar de seu amigo perder o foco e acompanhar alguém que acabava de entrar pela porta.

     É essa a sua amiga?

Luiza se aproximava bastante da imagem que Hermes criara. Só um pouco mais velha e mais baixa.
Rafael se levantou e voltou ao seu canto, seu jornal.
Hermes, olhando para trás, por cima do ombro, não tinha dúvidas: era ela. Andava com firmeza e uma certa classe natural. Os olhares dialogaram. Ela sentou-se à mesa e, antes de falar qualquer coisa, chamou o garçom. "Uma dose de whisky sem gelo e uma garrafa de água com gás, por favor."
Então olhou frontalmente, sem pudor e com malícia para Hermes, desarmado mas com a guarda alta.

     Você não deve ter entendido nada, né?
     Na verdade eu entendi tudo. E achei surpreendente. É algo que eu faria com certeza.
     Com certeza?
     Sim. — Hermes responde sem desviar o olhar. Está sendo desafiado e gosta disso.
     Chegou faz tempo?
     Uns cinco minutos.
     E já acabou com uma garrafa de cerveja e uma dose?
     É... Calor... Cê sabe...
     Eu só sei que, ou você bebe desesperadamente, ou tá mentindo e chegou há mais tempo, só não quer admitir pra não parecer fraco.
     Eu pareceria fraco se dissesse que cheguei há quarenta minutos?
     Não sei. Pareceria? — O sarcasmo é quase sólido.
     Você é terapeuta?

Ela solta uma gargalhada pro alto, a garganta fica evidente, também um enorme par de brincos que Hermes não havia notado.
O garçom chega com o whisky e a água.
Ele pede mais uma cerveja e mais uma dose.

     Eu cheguei há quarenta minutos.

Luiza sorri de modo cortante e diz "Eu sei."


IV


Hermes acorda em casa. Sozinho, vestindo a roupa da noite anterior. Não sente ressaca, embora não lembre como chegou em casa. Nunca lembra, por isso não se espanta. Tem uma sensação latente de que agiu de modo idiota. A última coisa que lembra é dançar tango com Rafael, o homem do jornal, no meio do bar. Luiza não se encontra mais em cena. Foi embora logo após o inevitável beijo bêbado. Um beijo afoito, cheio de língua e batom. "Eu já sei onde isso termina", ela diz, "e hoje eu não posso."
Ao tirar a roupa pra entrar no banho, Hermes nota um papel dobrado no bolso.
No papel há um triângulo, reticências e dois olhos desenhados.
Ele se lembra: teve uma ideia genial, pediu papel e caneta ao garçom, anotou rapidamente a ideia de forma simbólica e voltou à jukebox e aos amigos bêbados.
Um triângulo, reticências e dois olhos.
Hermes não faz ideia do que isso significa. Amassa o papel e joga no lixo.
"Eu preciso fazer aquela trilha sonora."
Liga o chuveiro e apaga a luz do banheiro. Deita-se no box de olhos fechados sob a água.
Que noite improvável. Um encontro às cegas com uma mulher que encontrou por acaso seu nome e endereço anotado num papel, em alguma rua de São Paulo. As informações foram escritas a próprio punho por Hermes, dias antes, quando saiu pra beber pela primeira vez em meses e, temendo perder-se na volta, anotou nome e endereço num pedaço de papel, com os dizeres "SOFRO DE CONFUSÃO MENTAL QUANDO BEBO. FAVOR ME GUIAR A ESTE ENDEREÇO". Hermes também não sabe como chegou em casa nesse dia. Mas chegou. Sempre chega. Agora não sabe se já nesse dia conheceu Luiza e não se lembra. Faria mais sentido. De qualquer forma, o encontro não foi tudo isso. Não pretende encontrá-la outra vez. Precisa se concentrar na trilha sonora que aceitou fazer de graça pro curta-metragem de uma amiga de Minas Gerais.
"Por que ela se deu ao trabalho de escrever aquela carta enorme e entregar numa caixa? Por que insistiu três dias consecutivos?"
Hermes, no chão do box, de olhos fechados, lembra-se então de um fato curioso da noite anterior. Luiza falando sobre como Hermes lembrava um filho que ela havia perdido. Suicídio. Lembra agora com vivacidade da expressão desesperada nos olhos dessa mãe. "Meu filho era como você, pensava carregar um fardo maior do que podia aguentar. Por isso se matou. Promete pra mim que não vai fazer o mesmo!"
Foi então que aconteceu o beijo. Um beijo dramático. Um beijo alcoólatra, suicida. Um beijo cheio de língua e desespero.
Então o tango com o homem do jornal; então o dia de hoje. Simples assim.
Hermes agradece a sorte que tem. Surpreende-se por ainda estar vivo.
Desliga o chuveiro e volta à cama, decidido a fazer a trilha sonora.


V


Cheio de energia, Hermes ganha a rua. É a primeira vez em muito tempo que sai de casa durante o dia sem a intenção de ir ao bar.
Precisa ir ao banco. Normalmente essa obrigação o torturaria, mas hoje cumpre com alegria nos lábios. Faz sol mas não calor. Hermes se encanta com os mínimos detalhes do mundo, como se tivesse esquecido sua face; como alguém que volta a enxergar após uma cirurgia.
Caminha cantando, sorri pras pessoas, vê beleza numa conversa de senhoras do outro lado da rua. Traz em mãos um livro que não lerá pois está encantado demais com a vida real e saturado das páginas. No entanto carrega o livro por segurança.
A porta giratória do banco trava. Hermes se assusta. Morre de medo de portas de banco. O guarda do banco — essa pequena autoridade — manda Hermes voltar, depositar chaves e celular no compartimento da porta. "Não to com nada nos bolsos."
Tenta de novo e dessa vez consegue entrar. Sabe que foi barrado pela sua aparência. Sabe que é o guardinha quem controla a porra da porta. Encara o pequeno homem com ódio. O segurança ri pro outro guardinha, que retribui o sorriso como se fosse uma colegial tímida.
Hermes tem de ficar em pé, o banco está lotado. As pessoas falam. Todas ao mesmo tempo. Alto demais. O mundo já não parece mais tão belo assim.
"Isso é um absurdo. Onde já se viu, pra atender tudo isso de gente eles colocam só três funcionários. Tem mais dois caixas vazios, eles podiam colocar mais gente pra atender.", diz um velho.
Todos concordam.
É sexta-feira, dia de vencimento da conta. Hermes quer desistir, voltar pra toca. Mas permanece ali em pé, um pouco tonto. O gosto de alcachofra se sobrepõe à pasta de dente. Hermes vai até o filtro e bebe dois copos d'água. Sente que todos o observam. Todos cochicham sobre ele. Até o velho lastimoso. "Onde é que já se viu, esse cara chega aqui com essa barba de desempregado, essa cara de quem bebeu a noite inteira, ainda se acha no direito de beber a nossa água. A água paga com o nosso dinheiro! O dinheiro dos nossos impostos!"
Hermes se vira na direção das pessoas e percebe que ninguém olha pra ele. Num relance enxerga através da porta de vidro uma pessoa conhecida passando apressada pela calçada. Não reconhece, de fato, mas compreende a importância daquela pessoa. Num ímpeto vai atrás. Estanca no meio da agência. Olha o relógio: 15:57. Se sair agora não entra mais. Se não pagar hoje, a conta vai atrasar, gerar multa, toda essa merda. Hesita um pouco mas teme perder a pessoa de vista. Sai apressado do banco. A porta giratória trava outra vez. Hermes sente o ódio escorrer pela nuca. Olha pro guardinha, que ri de modo grosseiro. Da um chute na porta, ganha a rua e se dispõe a correr atrás de alguém que já não sabe se conhece.
No caminho percebe que esqueceu o livro no banco. Não para de correr. Segue sua intuição e vira à esquerda numa rua onde nomeou todas as casas numa de suas andanças pelo bairro. Certeiro. O homem perseguido está parado em frente ao portão da casinha amarela: "Gema".
Tenta disfarçar, mas não sabe o que fazer com as mãos. Nunca sabe. Cruza os braços? Põe as mãos no bolso? Atrás do corpo? Segue caminhando? Se ao menos tivesse um cigarro, sua presença ali deixaria de ser suspeita. Mas não tem, não fuma.
O homem misterioso troca algumas palavras com alguém através do portão da Gema. Acena e segue seu rumo. Hermes vai atrás. Sente que o velho lastimoso ainda olha pra ele. "Onde já se viu!".
Checa a retaguarda, o velho não está. Quando se vira, dá de cara com o homem, que olha pra ele e sorri. Os dentes amarelos, o bigode amarelado, a barba irregular, o cabelo branco ensebado, olhos de pescador, rugas de quem passou por poucas e boas.

     Tá atrás de mim, campeão? — O tom de voz é sereno e ameaçador.
     Não! É que eu te vi passar e achei que era... — O homem nubla a expressão e vai pra cima de Hermes. Empurra com as duas mãos.

     Sai daqui, seu comédia! Desaparece da minha frente, seu filho da puta!

Hermes fica sem reação. O velho destila ódio.

     Seu viadinho! Some daqui, seu merda!

O velho sai correndo rua abaixo. Hermes vai atrás sem saber o motivo. Correm cerca de 20 metros, até que Hermes consegue alcançar o velho e dar um chute certeiro numa das pernas. O velho cai de cara no chão. Hermes pega no ombro do velho e o vira de barriga pra cima. Coloca o joelho no estômago do velho e dispara uma sequência de socos e cotoveladas até que o velho, jorrando sangue, desmaie. Ou morra. Hermes não sabe. Não consegue pensar. O coração bate no ouvido, a garganta fecha, os ombros se erguem, armados. Sente que alguém respira por ele. Esquece o próprio nome.
Algumas pessoas olham de longe, sem pudor. Grupos de curiosos surgem. O velho não se mexe. Hermes tem um lampejo de sanidade e sai correndo rua acima. Quase infarta quando chega novamente à avenida principal. A cabeça lateja, o corpo exala álcool. Pensa na mãe morta. Pensa em Lígia; no papel higiênico sujo com a merda dela. Passa em frente ao banco, ainda cheio mas já fechado. O segurança bebe café. O velho lastimoso parece vermelho. Fala com o dedo em riste, uma veia saltada na testa. Hermes pensa no homem que acabou de matar. Ou desmaiar. Teme ser perseguido e linchado. Se perde por ruas desconhecidas em vez de seguir o caminho tradicional. Sente desespero quando nota que está perdido em plena luz do dia, perseguido por uma multidão furiosa. Por que o homem o insultara daquele jeito? "Eu agi em legítima defesa", Hermes ensaia. Soa falso. Sente uma mão no seu ombro. "Morri", pensa num relance, os ouvidos tomados por um zumbido ensurdecedor.

     Tá perdido? — Luiza pergunta, rindo.
     O que você tá fazendo aqui?
     Eu moro aqui, você sabe disso. Eu te falei ontem.
     Falou? Não, eu... Ah, sim, eu lembro — mentiu.
     Eu to indo ali na padaria comprar umas coisinhas pra lanchar, sobre pra comer comigo?

Hermes deseja dizer não. Está sem condições de manter uma conversa. Não quer ser objeto de fissura daquela mãe que projeta nele o filho morto. Odeia comer acompanhado, no entanto sabe que é o melhor a ser feito, tendo em vista que pode ser linchado a qualquer momento.

     Nossa! Você tá todo cheio de sangue, agora que eu vi!
     É... Eu caí.
     Vamos subir! Eu cuido disso. Depois eu vou na padaria.
     Tá bom.

Luiza adquire uma fisionomia completamente nova. Já não tem mais aquela cara de predadora sexual, mas a de uma mãe preocupada.
No elevador ele tenta pensar em algo que justifique o sangue e sua presença ali.
Nada vem à mente. A realidade lhe escorre como sangue entre os dedos.


VI


Hermes finge se interessar pelos porta-retratos expostos na sala. Passa os olhos por todos mas não fixa. Vai discretamente até a janela e tenta enxergar alguma coisa lá em baixo. Aparentemente nenhuma multidão raivosa por ali. Respira pela primeira vez em muito tempo. Dá meia-volta e repara em outros porta-retratos. Em um deles vê Luiza bem mais jovem com uma criança ao lado. A mãe sorri e canta parabéns. A criança olha fixamente para o bolo cuidadosamente confeitado, com uma vela "3" em cima.
Num outro porta retrato vê Luiza ainda mais jovem ao lado de um homem idêntico ao Chacrinha. Luiza parece fantasiada de paquita. Ou chacrete.

     Gostou das fotos? Essa é aquela que te falei, com o Chacrinha.
     Você conheceu o Chacrinha?
     Cê tá brincando com a minha cara, né? A gente falou disso durante horas, ontem. Eu era chacrete, esqueceu disso?

Ele tenta dissimular mas não consegue.

     Meu deus, você é pior do que eu imaginava! Agora senta aqui pra eu cuidar desses machucados. E me conta o que houve. Arranjou briga ontem?
     Não, eu caí agora há pouco subindo uma ladeira.
     Pra cima de mim? Você pode falar isso pra quem você quiser, mas não me tira de otária. Tá na cara que isso aqui foi briga. E pelo jeito não foi ontem, não. Que que aconteceu?
     Nada demais. Um cara mexeu comigo na rua...
     E você, valentão, encheu ele de porrada?
     É. Mais ou menos isso.

Luiza suspira como mãe. Cuida dos ferimentos como mãe. Hermes sente-se sufocado ali dentro. Deseja fugir o mais rápido possível.

     Eu preciso ir pra casa... Tô trabalhando numa trilha sonora...
     Você me contou ontem. Disse que não ia fazer porra de trilha nenhuma. Que não era homem de trabalhar de graça.
     Eu disse isso?

Luiza parece não acreditar. Encara Hermes com olhos de mãe.
Ele se levanta, agradece e diz que precisa ir.

     Abre a porta pra mim, por favor.
     Você não vai embora antes de me dizer o que veio fazer aqui.
     Como assim? Eu nem sabia que você morava aqui... Se sabia, não lembrava. Eu simplesmente saí correndo pra não ser linchado e acabei parando nessa rua e por acaso te encontrei.
     Por acaso? Não existe acaso. Você veio porque queria me ver mas tava com vergonha de dizer.
     Desculpa te decepcionar, mas não. Eu realmente não sabia que você morava aqui. E mesmo se soubesse e quisesse te ver, não conseguiria encontrar sua casa. Eu sou do tipo... — Que se perde até em elevador, eu sei. Você disse isso ontem.
     Então pronto. Eu disse isso ontem e agora to dizendo que eu preciso ir. Abre a porta, por favor.
     Seu inconsciente te trouxe aqui!
     Bom, então eu mesmo abro. Tchau.
     Você precisa de mim!

Hermes abre a porta que julgava estar trancada e caminha na direção do elevador. A voz ecoa pelo corredor do prédio classe-média alta, "VOCÊ VEIO PORQUE QUIS. VOCÊ SABE QUE PRECISA DE MIM. VOCÊ DISSE QUE EU ERA SUA NOVA MÃE, QUE A GENTE IA FICAR JUNTO E UM IA PREENCHER O VAZIO DO OUTRO. VOCÊ SABE QUE DISSE ISSO! SEU COVARDE!"

Essas palavras perseguem Hermes até sua casa. Na ausência da multidão odiosa, palavras odiosas.
Será verdade? Ele teria dito aquilo na noite anterior?
Passa de cabeça baixa pela portaria e no elevador é obrigado a lidar com o olhar curioso de um casal de idosos. O sangue parece amedrontá-los. Hermes, sem jeito, sorri e diz boa tarde.
Não quer entrar em casa mas não sabe pra onde ir. Pensa em subir mais alguns andares e matar o tempo na casa do tio (dono do apartamento onde tem passado os últimos dias). Enxerga todo aquele sangue nas mãos e na roupa. Desiste. Entra em casa como quem entra numa cela de prisão. Vai até a parede, encosta a testa e permanece assim, de olhos fechados, por muito tempo.
No escuro dos olhos fechados enxerga o homem que o ofendeu. Em silêncio pisa na garganta do homem, esmaga sua cabeça contra o meio-fio, enche o corpo do velho de chutes. Sente o ódio crescer dentro de si, treme de arrepio. Abre os olhos, respira fundo e vai até o chuveiro, único lugar seguro da casa.









terça-feira, 29 de novembro de 2016

Poema escrito enquanto eu dormia



O silêncio sibila sincero através do meu ouvido míope
Gotas de alho atravessam meu tato inodoro
The heavyweight George Foreman defends his title against Ken Norton
Teço esculturas através do escuro silêncio sólido na edícula pastoral
Meus ancestrais bípedes plantam bananeiras sobre aquarelas
Minha bola esquerda se contrai nefasta num processo de evangelização

Muhammad Ali, the dancing master with tremendous hand speed

Licenciatura estéril
Herpes
Santo Agostinho catequizando putas no Pará
Consciência mole, inconsciente ativo
Lacunas no discurso elástico de Lacan




terça-feira, 22 de novembro de 2016

morte



seguir vivo — tarefa impossível.
não pertenço
nunca sei pra onde ir
e se pareço livre é porque tô sempre fugindo


viver é uma obrigação.


nem arte, nem ofício
só a morte liberta.
mas ao suicídio me falta coragem
(talvez pretensão de ser eterno)

então sigo
não pertencendo
sempre fugindo
trêmulo
obrigatoriamente

e noites cruéis hão de chegar
posição fetal
uma luz acesa
imóvel, estático
nulo
escrevendo poesia inútil
enquanto arquiteto a melhor forma de acabar com isso



Ex



Expulso da sala de estar
cidadão do mundo
Me adapto num banco de padaria


Meu passado encaixotado
meu lar
             encaixotado, bagunça

Meu reflexo no balcão de frios
expulso do passado
ex-marido
Malparido, parado
       esperando o relógio me expulsar
em transe, delírio
   
      ex



  etc



banco de rodoviária



tenho tudo que sempre quis agora:
folha em branco
tempo
um banco de rodoviária
passagem no bolso
lápis
e a tela pálida do amanhã.

no entanto sigo tonto
tenso e

triste.



estrada-canção



indo embora
sempre
daqui

me vi rio
me vi mar
montanha

estar, estado de ser
   passageiro   estrangeiro   turista

me vi frio
me vi bar
calçada

indo embora
sempre
daqui


estrada



mitridatismo



do silêncio nasce a dúvida
diluída, mitridática

da folha arrancada o poema
manuscrito, apressado
em dúvida.

do fim de um ciclo, teu sorriso
teu rosto
teus cachos
teu pescoço

da longa espera nasce o sonho, tédio.
da longa espera uma esfera opaca
diluída,
murcha
mapas viários, continentes.

da próxima linha, a insatisfação com a poesia
que agora nasce:

                            fim.