sábado, 4 de junho de 2011

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buscando a plenitude onde ninguém jamais esteve
carrego-te com sufoco. sei que teu pranto pesa,
e também teu corpo sobre essas rodas que empurro.
não te aturdas com o concerto ante os rochedos. ouça o saxofone,
o contra-baixo, o tilintar das taças e também o piano em chamas.
não te aturdas com o assédio. sabes que isso me faz falta e
sabes também que já não podes me proporcionar.
aguarde.
faço isso, mas te amo e venero, sabes, pois.
escute o piano. também as risadas e o bumbo ecoando na estrutura de pedras polidas.
sabes que apenas iludo-me. dia após dia. sabes que não sou capaz de satisfazer-me.
às vezes penso que tua deficiência é uma bênção. pois imagine todo seu desejo não podendo ser sanado.
perceba o piano. suas cordas e teclas já em brasa. o banco já vazio. perceba o fascínio daquela que o destrói.
ouça sua gargalhada. veja a destruição...
o show está acabado.

sigamos. estou pronto.
carrego-te com pesar. sei que teu sufoco pesa,
mas também teu corpo sobre esse entulho onde deitas.
ouço o velho mago no caminho.
chegamos ao lamaçal, onde deixo-te e tu choras como uma criança faminta.
chora porque és covarde e fraca. choras porque és demente!
recolho-te, débil criança, e sigo carregando-te.
buscando a plenitude onde ninguém jamais esteve.
veja as flores! sinta o aroma!
"mas não há flores", dizes-me.
VEJA AS FLORES! ADMIRE-AS!
"mas não há flores, meu amor".
covarde! só o que fazes é choramingar!
estou farto da tua auto-piedade. faço tudo por ti e o que recebo em troca é este insuportável pranto!
que teu corpo paralítico e atrofiado se esfole nas malditas pedras polidas e apodreça ao sol - que nunca se põe, é verdade.
e quando o gigantesco coração pulsar, prepara-te para as criaturas obscenas que do lodo emergem! prepara essa carne frágil e morta!
subo a montanha enquanto clama por mim, inválida. impotente.

percebo o quão corrompido foi esse éden! corpos semi-vivos, copos com pêssegos.
a sorte é lançada e o premio é uma chance de rejuvenescer, mesmo que por instantes.
as perdedoras ficam abandonadas com os pêssegos, que me são oferecidos quando apareço, mas recuso.
sabes que uma mulher rejeitada produz mais veneno que uma Taipan. e é esse veneno que voa em minhas vestes, enquanto fujo,
impotente.
deparo-me com deformadas ninfas sedentas e digo que não posso. tento fugir mas sou capturado por sua rainha, que me pune
ao som de vespas.
derrubam e humilham-me. sou guiado até a cova de meu pai, que se ergue e me enterra.
que se ergue e segue as ninfas, que seguem sua majestade, fazendo ciranda.
"papai, papai!", clamo em vão. e me estendo em sua cova.

ouço-te gritando meu nome, incansavelmente.
volto, sem orgulho, sem troféu, desnorteado
e me norteio em ti.
volto.
volto e espero que termines de tocar seu corpo desproporcional, sobre poças de crânios.
a égua dá a luz e quem faz o parto é um homem sedento, que fura o ventre da cria - de onde saem cobras - para satisfazer sua própria vontade.
em seguida mastiga a placenta e chafurda nas fezes e coágulos negros.
volto de quatro.
volto prometendo amar-te eternamente e curar tuas dores, quando chegarmos lá.
lambo teus dedos, sujos de sangue e restos de sêmen de outrem.

seguimos esperançosos.
pintamos nossos nomes nas pedras e no céu.
pinto meu nome em teu corpo. te cubro de mim.
teu sangue é extraído para alimentar o cego pedinte, porém é bebido pelo abutre que o acompanha. o cego reclama a taça e recebe o resto.
lambe a taça e o resto de sangue, já pútrido. se revigora e segue em frente, acompanhado por seu tutor, que recomeça a implorar:
"um pouco de sangue, pelo amor de deus!".
o gigantesco coração pulsa. pulsa forte.
caminho a esmo, fazendo melodia no tambor que furtamos do concerto.
somos surpreendidos pela prova da ineficiência de deus, embora tu já o sejas.
sigo o animal com diamantes na vagina, enquanto ficas a mastigar pêssegos rejeitados.
os diamantes refletem minha mãe, moribunda.
aceito quando ela me oferece doces e lembro-me de seu ensinamento que dizia para não aceitar comida de estranhos.
ora, o que a difere de um transeunte qualquer? dirás para mim que de teu ventre eu saí, é verdade, mas sequer lembro deste fato.
então percebo que durante a infância ingeri alimentos cedidos por uma estranha e talvez aí se enraíze meu déficit.
cuspo o doce.

lembro-me de teu primeiro velório, mamãe, quando eu era apenas um menino e tu já eras como Josefina, a dos ratos.
a rainha dos detentos, das loucas, dos lazarentos, como Geni.
lembro-me nitidamente do que fizeste com papai, apenas porque ele não mais te satisfazia.
você o humilhou. repudiou. ameaçou e cumpriu, tirando-lhe o pássaro do peito.
e eu fugia por entre corredores de gargalhadas estúpidas.
seus súditos. as moscas que rodeavam sua luz.
agora pedes que eu te mate e minha vontade não é outra.
sinto as mãos de deus livrando minha respiração, ao passo que te sufoco em tuas mechas fúteis de cabelo.
arranco teus cílios postiços
e te beijo a boca.
conduzo-te até a cova onde outrora estive e digo para que tenhas cuidado.
sinto tua mão roçando minhas costas e teu peso cedendo abruptamente.
despejo areia em teu cadáver, enquanto me agradeces. paro para que me entregues um novo pássaro.
despejo areia em teu cadáver até que não mais sejas tocada pelo sol - que aqui é eterno.
teu coração não pulsa mais.
o gigantesco coração não pulsa mais.

o pássaro levanta vôo e se perde na imensidão azul.


vamos, meu amor. podemos seguir viagem.
nos tornamos um corpo com duas cabeças.
sinos e banjos preenchem o ambiente enquanto te beijo
e... tu me renegas!
de sua vagina nascem sete porcos.
acorrento-te e espreito os três abutres que nos rodeiam:
o mensageiro, o mímico e também o conselheiro.
ofereço teu corpo, faço alarde, te beijo e aconselho que façam o mesmo.
anuncio-te como um animal de circo.
digo que beijem suas mãos, suas pernas e seus dedos.
os três borbulham excitação mas logo fogem quando digo que és minha noiva.
imprestável!

julgo ouvir a caravana que ruma para . disparo como um tiro e não tenho força para escalar os rochedos.
perco o som dos passos e a culpa é sua e de seu corpo lento, paralítico e corrompido.
arranho as pedras, amaldiçôo os deuses
vago como um bêbado e acabo apoiando-me em ti.
coloco-te cuidadosamente no chão.
falo sobre o padre que extraiu da minha nuca a pedra da loucura.
vejo abacaxis, maçãs, carpas, harpas, amputados e chaleiras.
mas principalmente abacaxis. abacaxis enormes.
carpas e fetos
harpas e tetos
raspas e netos
um funil e mais abacaxis.
pés. fios de ovos. o mar.
um estranho homem sem rosto.
ruídos me ensurdecem.
pássaros atropelados, rãs, homens com um funil na cabeça
harpas num balde, ovos de algum animal, gordura,
frutas e pão numa mesa larga.
a santa ceia dos boçais dos dementes dos fracassados e dos paralíticos.

dizes que sentes fraqueza.
toco meu tambor para ti. a tua música.
tu pedes para que eu a toque quando chegarmos lá.
para que eu a toque todo o tempo.
eu te amo.
essas algemas são para a sua segurança,
confie em mim.
rastejar só vai prolongar sua dor.
venha aqui, estúpida. não te machucarei,
quero apenas colocar essas algemas em teus punhos.

anjos choram e tu partes para cima do meu tambor
e rasga sua pele e destrói sua estrutura
e o arremessa longe e merece cada chute que recebe
e cada pedrada que aceita de mim e
aceita até o momento em que não tem mais opção
e morre.

sei que tuas bonecas choram, longe de ti e sem esperanças
e engasgam por não estarem presentes de corpo no teu velório
a céu aberto.
e a multidão vem prestar-lhe homenagens. os pobres famintos,
os mensageiros, mímicos, mas não os conselheiros.
os fiéis clamam por ti e veneram-te e rasgam tua pele e alimentam-se de ti.

eu ergo teu corpo, beijo a carniça, arrependido
e os anjos se perdem em prantos.
coloco-te nas costas e sigo em frente, ouvindo os passos fiéis da multidão.

ando por meses com teu cadáver em minhas costas, sem olhar para frente.
o sol jamais se pôs e
os urubus jamais ousaram chegar perto do teu sangue arenoso e
teu corpo agora está completamente morto e
eu sei que teu estômago nunca digeriu a rosa que te dei naquela tarde
e os passos fiéis não mais nos acompanham
e eu finalmente me canso e fraquejo,
desmoronando entre os arbustos.
teu corpo repousa sobre o meu, enquanto as folhas secas nos cobrem e
nos protegem do sol e dos abutres e dos conselheiros e dos famintos e apagam nosso nome da história
e nós nunca chegamos lá,
onde, aliás, ninguém jamais esteve
ou estará.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

geração

um homem deve rir da sua geração, mas não deve tentar frear o seu desenvolvimento.
alongar minissaias,
insistir no CD,
tentar driblar o sexo até os 18...

é impossível derrubar a procissão
(e não se incomode se não conse-
guir acompanhá-la).
uma procissão feita de cadáveres ainda quentes.

jovens já não têm a mesma fibra de resistência. invadir a reitoria é facil,
o problema é ficar dias sem o chuveiro quente
o problema é ficar dias sem o play station
o problema é ficar dias sem a chapinha
o problema é ficar dias sem a sinuca
o problema é ficar dias sem o cachorro
sem o conforto.

eles venceram. descobriram o jeito certo de jogar:
oferecendo o conforto em troca da vida.
lutar já não parece mais tão sedutor.

ninguém pode mudar o rumo do ser humano.

o que podemos fazer é assistir a tudo

e rir.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

(...)

que temos enfim?

as ilusões, vãs,
tornaram-se reles
pileques sem norte
é a morte
é sim

que temes enfim?

palavreando

se fez presente
o deleite
no leito.
pro doente
leite do peito.
e, de tanto arrastá-lo,
o rastelo cegou,
o castelo queimou
e coisa e tal...

e o amargo mago magro
se viu impresso,
apertou o passo,
pediu um expresso
e rimou cultura
com literatura
só de pirraça.

e na praça
a jovem perguntava o horário à velha
que entendia "que oração?"
e respondia que era pai nosso.
e a garota insistia "perdão. que horas são?"
e a velha, de soslaio,
"três e trinta".

longe dali,
transformando rotina em ritual
o guri
ferveu seu chá e saiu à francesa
fugindo do pandemônio
que se formava no recinto de requinte
pois prazendo em apoquentar,
o frade franzino
contava piadas que
Matusalém inventara, ainda jovem.


e os leitores do garoto barba-ruiva
se indagavam acerca do poema que estava
diante de seus narizes
e olhos
e cabelos
e traumas
alegando que o sentido passara longe
e o garoto barba-ruiva, na sua inverossimilhança,
notava semelhança entre gatos e focas.

e com um sorriso de deboche
batia a última frase do seu mais novo filho:

um texto desprovido de pé ou cabeça.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

o diálogo entre nossas mãos

minha mão. sua.
aproximação fugaz e inevitável.

minha mão: sua.
a ti me entrego, nua e inesgotável
e te cravo as unhas.

minha mão sua.

terça-feira, 31 de maio de 2011

a noite em que nos entorpecemos com o demônio


nosso norte era o sul,
mas aceitamos o leste.
chegamos a uma praia vazia
com um astral estranho
e um vento noroeste.

a paranóia como um gato manso,
a mente cedendo
um arrepio do espírito
e uma fuga vã, sentido norte - que era nosso sul.
uma armadilha confortável
desencadeando a decadência

perigo sutil do ócio,
a mente abalada.
not to touch the earth e a descida ao inferno.
um encontro,
cancelamento.
a loucura abrupta,

        a
b
   
        i 
      
             s
      
           
                   m

     
  O


um mar negro.
família na re
                        de
peixes alucinados

caminho plástico.
pés autônomos
uma quarta pessoa
o desespero cresce
os sentidos alucinados
minha mente na rede
família de peixes
pés autônomos

meus pêsames

palavras absurdas
risadas de uva.
um símbolo na areia

passospassospassopassopassospass
ospassosopassopasso
spassos

              astral
inferno    mental
                  sensorial

se o leste é o norte, o sul é o oeste e o vento noroeste sopra sudeste,
o banheiro é logo ali,
à esquerda, no corredor vermelho
com sombras magras
                    na cama que não existe
                       com pessoas que não existem
                       num quarto que não está ali
                      um velho que já morreu
                             e um cachorro branco que ficou na areia
com os peixes, ao sul - que era nosso norte
e o quarto verde abrigava um ménage-à-trois.

problemas com padrões repetidos,
paralelas
em paredes vermelhas.
de volta

e as palavras do I Ching não se formavam...

  (quarto verde?)

uma barata enorme subiu nas minhas costas e me tirou do transe.
eu precisava deitar

- perdemos o ônibus de volta?
- há muito tempo.
- e que lugar é esse?
- não tenho a menor ideia.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

hiato real

após um árduo vôo
revirei o baú real
e encontrei meu leal diabo
suíno em Luana.

o ciúme dobrou os joelhos
e, pior, desafiou a saúde:
hérnia de hiato.

cruzei a caatinga, miúdo,
conheci hienas
e o feroz ruído de suas risadas.

meu balaústre jônico ficou em ruínas
e o juiz, aliado, condenou-me,
de modo que passei a comer,amiúde, as raízes da voluptuosa rainha
pela fresta do meu ataúde.

Joana

Joana
que não é de Chico
que não é Maria, de Nara

Joana
que não é francesa
mas, apesar dos tais,
é dama na mesa

Joana
da carne, do quase
de fantasias brilhantes

Joana de Juréia
das areias
de azaléias

Joana do planalto central
Joana dos olhos,


de História

de escórias ri e tal.
Joana da aposta,
do carnaval.

do adeus sentido
da promessa do encontro
do desencontro, da busca vã
do abrupto 'oi', pelo fim da manhã.

e nada mais.

Joana do acaso
do caso a curto prazo.
Joana do quase, do quase...


do improvável reencontro
dos furtos de atenção à distância

Joana das horas

noite a dentro.

e ontem ouvi que Joana
ganhou passagem de ida
e lar

e partirá para fazer futuro
para fazer História
para conhecer nossa terra natal

Joana
viverá em Portugal.

terça-feira, 17 de maio de 2011

poema para a mulher amada

eu queria morar no seu cheiro
me alimentar do seu suor
e dormir na sua pele

eu queria poder congelar cada trejeito
eternizar todas as suas caretas que,
teimo em dizer, te deixam ainda mais, mais...

queria esfregar todos os seus cantos
enxugar todos os seus prantos
que tentarei, com esmero, fazer
com que não brotem

e se, por acaso, vierem a correr - como um rio poluído,
servirão, em última instância, pra lubrificar essas fendas noturnas
que são os olhos teus.

queria te entregar uma flor bonita a cada encontro
mas minha ansiedade em te ver é tamanha
que me esqueço totalmente das pétalas

queria encontrar uma rima perfeita pra cada bocejo teu
uma resposta adequada para cada pensamento turvo,
fruto do teu ciúmes vão,
e ter em mãos infinitas surpresas para que teus cílios
nunca deixem de vibrar.

eu queria morar no seu cheiro
me alimentar da sua pele
me lavar no teu suor e
principalmente
eternizar nós dois em versos puros,
mas temo falhar


então eu apenas te venero,
sorrindo.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

brendan fraser

enquanto jovens discutem política inutilmente
e a massa se surpreende com a duração do ano
e seu amigo come sua ex-namorada
e a nova geração dá importância demasiada para animais e sacolas plásticas,
o encanador desentope o seu banheiro dos fundos.

enquanto a garota finge um orgasmo
e um desconhecido te cumprimenta
e todos pensam em sexo com a mesma frequência que
mentem e piscam
e o Baden destrói no saarbrucken
e o tarado cheira calcinhas roubadas,
todos esperam: os exames, o ônibus,
a boa vontade, o parceiro ideal,
a providência, a previdência,
a assistência social,
o semáforo, a coragem, o milagre,
a morte.

enquanto anjos se procuram para eleger um novo deus
e você toma sua coca-cola,
e todos os transeuntes disfarçam sua insegurança
e os estudantes da federal protestam em vão
e 6 milhões fogem aos olhos do Estado
e hímens são rompidos
e homens logram mulheres
e mulheres logram homens
e todos são enganados
e fazem planos que não relizar-se-ão
e comem
e peidam com cautela
e desejam comer crianças
a vida escorre por entre os vãos dos dedos flácidos...

mas nada,
nada me chateia mais do que o Brendan Fraser no poster de Decisões Extremas...

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

obsessão

eu arriscaria quinze anos.
ela é pequena pra idade
mas irradia um poder indizível
que luz, que força, que mulher!

todos os movimentos perfeitamente sincronizados.
o seu cruzar de rua é como a comissão de frente
ruidosa
da primeira escola de samba
invadindo o sambódromo na noite principal

ela exala sexo pelos poros.
o seu arrumar de cabelo
exala sexo
seus passos
exalam sexo
sua voz é sexo.

seus traços são grosseiros
e dão o contrapeso ideal para
seu corpo mirrado
e empinado.

ela tem o nome da minha ex e não passa um dia sem se pendurar no pescoço de, pelo menos, cinco garotos
virgens
e loucos para serem o primeiro.

essa garota vai arruinar
amizades,
casamentos,
festas,
lares,
famílias,
carreiras,
vidas inteiras
com o seu incrível poder.

essa garota pode encerrar uma guerra apenas com
seu fascinante modo de
atravessar a rua.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

certezas

o sucesso se fixa sobre certezas.
a sabedoria, sobre incertezas.
enquanto a plenitude é fruto de uma única certeza.

e é essa certeza que eu busco
a todo instante

terça-feira, 23 de novembro de 2010

poema da necessidade (2) ou síndrome de elefante

é preciso inventar a vida
para ocupar as mentes comuns
com um sonho intocável
é preciso realizar o sonho
mas é bom que isso não aconteça

é preciso inventar limites para
domesticar a população:
uma água pra quebrar o café,
a coca-cola pra quebrar o álcool,
a camisinha pra quebrar o sexo,
o pudor pra evitar a cruz

é preciso inventar o orgasmo
fantasias, temperos
é preciso esconder o fato de que o sexo é apenas mais uma burocracia, uma obrigação

é preciso sair de casa no sábado à noite
e se divertir. é preciso conhecer gente
e viajar. é preciso gozar o verão
como se fosse uma bênção

é preciso fazer uma faculdade
é preciso ter um emprego
é preciso amar os animais
é preciso assistir Clube da Luta
e difamar o sistema
é preciso se rebelar - seguir o roteiro.

é preciso ser liberal
e aceitar a homossexualidade
(mas eles que ousem chegar perto)

é preciso falar das flores
é preciso falar de amores
é preciso rimar
é preciso não rimar
é preciso inventar e seguir,
não importando o quê.
é preciso que nos digam a direção

é preciso ler C.F.A.,
Clarice Lispector
e escrever como eles

"é preciso ser livre!"
"é preciso ser livre!"
"é preciso ser livre!"

é o ser humano sofrendo da sua síndrome de elefante

é preciso parar de precisar

haikai bêbado

no banco da praia
o Sol me acorda
e não dá bom dia.

sábado, 23 de outubro de 2010

breve homenagem ao metrô (eu também vou reclamar)

a caminho do Paraíso
braços erguidos
não se vê um sorriso

relógios cansados
cérebros moídos
os corpos apertados,
comprimidos.

batalha diária
predatória
ilusória
aviária

o momento do dia em que os humanos mais se aproximam de
frangos moles.
bois na esteira
prontos para o abate.

carrancas com relógios.
todas os usam.

carrancas com cotovelos
sem apelos
sem 'licença'
cheios de pressa,
de crença.

as caras vermelhas; os olhos mortos.
bigodes delineados. cabelos chapados
de creme sem enxágüe

sem pudores, sem cortesia
fincando o pé esquerdo
no show de horrores de mais um dia
falido.

seus braços erguidos se misturam,
com seus relógios
todos iguais. tiquetaqueando
mais um percurso
a caminho do inferno.

sábado, 11 de setembro de 2010

eu vi um anjo brilhando na sarjeta

um homem
exilado da sua própria existência
amaldiçoado em sua ausência
cobaia da pior experiência.
seu sorriso, absorto na demência,
com seus olhos vidrados, ainda sorrindo.

esse homem,
que poderia morrer em sequência,
que já se alimentou de lixo e
violência
sem desistir do jogo, sem pensar em
vingança...

esse homem detém o segredo e a
essência
da vida
no seu olhar.

e não é notado.

milhares de transeuntes,
transitando tranquilamente
trancando o trânsito travado
nas trevas das treze horas, atrasados
tristes, trêmulos, entrevados e tramando
a maior tramóia de suas trágicas vidas,
não o notam.

o que prova que
esse disfarce de mutilado é o traje ideal.

pois
se uma pessoa que não consegue enxergar esse
anjo na sarjeta
também fosse digna de
receber tal injeção de paz,
gratuitamente,
nada
mais
faria
sentido
pra mim.

e, então, eu dormiria profundamente.

eternamente.

sábado, 21 de agosto de 2010

a caminho do trabalho


todos os dias
eu tomo o ônibus das
quinze-pras-seis.
todos os dias
eu olho pra cara cansada
e desiludida
das pessoas
no ônibus das quinze-pras-seis.
todos os dias
eu leio contos
e poemas
a caminho do trabalho
e,
enquanto mergulho no céu
cor de papaya,
estico os ouvidos até as conversas engraçadas
dos passageiros.
mas
hoje
eu tomei o ônibus das
seis e vinte.
hoje
o céu tem cor de
fumaça de óleo diesel
e
eu não encarei os passageiros
cansados.
não estiquei os ouvidos. hoje
eu sinto
aquela velha tristeza
que há tempos não me visitava.
hoje,
meu amigo,
a noite vai ser longa...
...
mas
amanhã,
quem sabe,
eu tome o ônibus das quinze-pras-seis
e leia Hemingway
enquanto
estico os ouvidos, buscando
as lamúrias das Marias
ou
a fúria das Jandiras
ou
seu Zé e suas mentiras,
ao passo que o céu
cor de papaya
nos brinda com
sua magnitude
lá fora.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

para a responsável pela paz que ando sentindo.

eu e você.

nos aquecemos nessa cama fria
embriagados de vinho e poesia
adiando o mundo lá fora

sorrio e, em ti, encontro a paz
sugiro uma fusão, pra não perder-te jamais
peço que não vá embora

nossos corpos agora dançam em perfeita harmonia
e a sinfonia é o som ofegante que sai de nós
eu digo o que não pensei que, tão cedo, diria
como é bom, meu amor, quando estamos assim, a sós

eu te amo.
agora.
eu
te amo,
minha menina.
tanto. tanto. tanto.
na ausência do raciocínio,
a presença do fascínio.
sob o seu domínio, não me espanto

quando percebo
que o sol já se pôs
e assim como ele
você tem de partir
estilhaçando nossos devaneios.

e o que me resta é essa realidade fria
minha cama, vazia, parece grande demais
para mim.
mas fica tranqüila e me ouve:

mesmo que eu tenha de largar tudo
como uma criança tola e rebelde,
sem hesitar,
eu vou até aí te ver
carregando comigo
sua roupa, esquecida
e esse poema em versos livres.

e vamos repetir a dose.
e as doses.
de vinho, amor e poesia

você é mesmo um achado.
quem diria...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

_

não confunda amor com saudade
não confunda amor com carência
não confunda amor com vontade
não confie em amor de vidência

não confunda amor com desejo
não estrague o amor com cinismo
o que chamam de paixão é o verdadeiro amor
e o que sobra é o comodismo

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Pouca fé

O corpo vazio
Hoje eu não quis acordar
Não fui ver o sol

Pouca fé

O copo vazio:
Aceitei
Sei, não preciso
Tento em vão

Pouca fé


Hoje eu fugi do espelho
Hoje eu quis acordar
Não fui ver o sol

Confiança não é, eu sei
É que eu finjo ser essa mulher
E me rebaixo
Pra me igualar

Pára!
Retoca a maquiagem
Faz café
Enche o copo

Pára!
Não sufoca a coragem
Força a fé
Enche o corpo

Confiança não é, eu sei
É que eu finjo ser essa mulher
E me rebaixo
Pra me igualar

Aos seus lugares... SILÊNCIO!

O mundo é como um palco: uma encenação comandada por quem se esconde atrás das cortinas. Figuras carismáticas e polidas, em evidência, cumprindo seus roteiros surreais. E nós, os figurantes: obedecendo às ordens sem abrir a boca, apenas sorrindo e se mexendo, sem direito a falas ou a um solo. Apenas fingindo ser alguém que não somos, para causar boa impressão dentro do espetáculo.
E no final, ainda sentimos orgulho da nossa participação.

Resta saber quem está assistindo ao show.
Haverá aplausos?

CORTA!

sábado, 3 de julho de 2010

São Paulo, marionetes, Fellini e o poema

Foi uma noite agradável. As garrafas de vinho barato conversavam: mentiras, homens calvos, inimigos, o texto. Metalinguagem. O cinema, Orson Welles, vinte e poucos anos e o passado. Teria sido uma noite linda, não fosse aquele verme ter cruzado o meu caminho. Ele sentiu medo. Nós percebemos. Você entra no meu texto.
Velhos amigos pareciam covardes atrás dos próprios nomes. Ojeriza. Tomamos um chopp e voltamos. Voltamos ao vinho barato. Dessa vez, mais barato. Voltamos. Do que falávamos? Não me lembro. Provavelmente medos, traumas. Acabei revelando as primeiras linhas do meu novo romance. Não deveria ter sido assim. Acabei revelando as repetidas linhas de um velho romance. Não deveria...
Os pensamentos são claros quando se está bêbado. Você fala como um profissional; as frases saem, se agrupando, e ao final tudo se encaixa. Você pensa que todo aquele seu potencial escondido durante anos, atrás de pena e consideração, simplesmente se cansou e agora tomou as rédeas. Profissional do quê?
Mais esmola. Mais vinho. Mais Hitchcock.
Mais lacunas.
Sem explicações, estou naquele velho prédio onde, outrora, tudo era lindo: o amor proibido, as promessas, o sexo. Sem explicações, o presente não era nada disso. Apenas as mesmas ladainhas, tentativas, frustrações. Por que eu estava lá? Não era para amar, prometer ou foder. Minhas pernas, simplesmente me levaram até lá. Imagino eu, um cara desfigurado, com manchas daquele vinho por toda a parte, a barba por fazer, vagando pela rua de olhos fechados, sem notar as outras pessoas, sem notar onde estava, sem notar os carros passando perto. Mamãe avisou. Por que eu estava lá? Ah, sim. Vocês sabem, a gente sai de casa com o dinheiro da bebida, mais os trocados para o ônibus, ao fim da noite. Vocês sabem, o corpo não para de pedir MAIS vinho, e então você percebe que seis garrafas poderiam virar sete. Então você faz o que, no fundo, sabia que faria: o dinheiro da condução vira o dinheiro da condição.
Enfim, lá estava eu, me humilhando, indo contra tudo que pregava, pedindo dinheiro para ir embora (embora eu desconfie que o verdadeiro motivo de ter parado lá não era exatamente esse). Eu não andaria tudo aquilo. Eu não dormiria na rua. Faça o que quiser. Saia, beba, gaste o dinheiro da condução, converse sobre São Paulo, marionetes, Fellini e o poema. Mas não durma na rua.
É curioso pensar que a gente anda por aí e pega o ônibus e anda até em casa e fala com a avó e come e bate uma e não se lembra. Você simplesmente não se lembra. Você já está virando um profissional das bebidinhas, mas não vence essa situação. Há anos você faz tudo isso e não lembra. Depois dessa lacuna, você aparece na sua cama, com a camiseta do avesso, o estomago idem. Um prato com pizza, bolo de fubá e catchup, muito catchup, do lado da cama. O shorts que você está usando serviu pra limpar a sua porra durante a semana. Você não se importa. Você só quer beber água, descobrir se xingou alguém da família na noite anterior, pensar sobre homens calvos, Hitchcock, vinte e poucos anos e o texto.
De repente uma ereção me ganha. "ótimo," - pensei - "ainda funciona". Brinquei com ele, comi o bolo, desviando da parte com catchup, levantei da cama e bati esse texto. "Ótimo," - pensei - "ainda funciona".

O estranho homem sem rosto

Plantando a semente da loucura
Buscando um abrigo surreal
Pouco caminho até encontrar
Algo
Que me faça novamente sonhar

Você enxerga aquele homem?
Veja que estranho
O bom moço não tem face
Eu acho que o conheço

Cansado de viver, fadado a sofrer
Seu rosto se apagou como sua alma
e seus anseios
Seu corpo estagnado aguarda a morte
sem receios

Você pode senti-lo?
Feche os olhos
O bom homem chora
Eu acho que o conheço

Chorando lágrimas de contos de fada
Com sua face prateada
De sumir com o sol
Ele ignora as chamas que invadem
O velho prédio abandonado

Você pode ajudá-lo?
Eu prefiro sonhar
O estranho homem é bom
Confie em mim

Eu acho que o conheço

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Essência

Existem pessoas com uma essência brilhante: condenados.
Existem pessoas sem essência alguma: os sem rumo.
E existem os que enterram sua essência: infelizes.

Gato de rua

outro texto antigo:

"Por muito tempo eu me esforcei para me tornar essa rocha. Foi em vão.
Agora eu congelei e não sei se estou feliz, mas sinceramente, existe uma pontinha de prazer nisso tudo. Deprimente.
Mas o ser humano é assim mesmo. Como sempre, insatisfação com a conquista. Parece que a gente só quer participar do sorteio e ouvir nosso nome sendo chamado na frente de todos, mas na hora de receber aquele prêmio tão desejado, a emoção se vai.
Como um gato de rua."

Qualquer coisa

Revirando meus manuscritos, achei essa letra, da época que eu comecei a brincar de escritor. Vou postar aqui só pra ela não sumir com o tempo...

Valores trocados
Normas impostas
A fé pelo medo
A dominação

Homens armados
Vidas sem respostas
Qual é o segredo
Da libertação?

E todos acham que vai passar
Agradecem um gesto supostamente bom
Recomeçam suas vidas
A dominação

Falsa liberdade
Idéias em vão
Quando tudo acabar
A dominação