terça-feira, 15 de abril de 2014

momento

vivi um momento que sei que será eterno
e o fator eternizante não é o texto.
tanto faz escrevê-lo ou não.
se o faço agora é na busca de preenchimento
(vivo um instante vazio, de espera)

foi um momento branco.
e foi leve, rarefeito,
recebendo aquela carícia nova e pura
mais lá do que cá, pretendendo parecer cá
perguntei sobre etimologia e já não lembro a resposta.

não dormi
mas conheci uma esquina fantástica da consciência
e voltei com uma certeza:
vivi um momento que sei que será eterno.

Montes Claros/MG, fevereiro de 2013                                                                                        

segunda-feira, 14 de abril de 2014

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Noite de espera

"Eu não devia ter tomado aquele café", pensava Carmen com os cotovelos apoiados no parapeito da janela. Numa das mãos segurava um terço; cuidadosamente passeava os dedos através das pequenas bolinhas de plástico, cumprindo suas orações cheias de angústia. Era noite quente e úmida. Não ventava. O céu, sem nuvens, parecia especialmente distante, como se Deus recusasse a ouvir e atender as preces de Carmen.
A luz amarelada e deficiente do poste entrava pelo vão da janela, formando um triângulo isósceles na parede do quarto. O neto de Carmen fingia dormir, o rosto enfiado no vão entre as duas camas que uniam todas as noites. A insônia se devia a uma soma de fatores: essa própria noite atípica, com um silêncio muito pesado e elétrico, eventualmente atravessado pelo gemido distante de algum trem de carga, lá do porto; o triângulo isósceles estampado na parede, fazendo o pequeno Leonardo lembrar-se de um recente pesadelo, onde um homem de chapéu isósceles entrava pela porta do quarto, dirigia-se até Carmen – que dormia na cama geminada – e realizava um tipo de benção, esfregava as mãos, sorria e sumia do quarto – esse mesmo quarto onde agora os dois, avó e neto, aguardam aflitos o retorno da única filha ainda viva de Carmen, mãe do pequeno Leonardo. Aliás, principal motivo da insônia mútua.
O relógio no criado-mudo não podia ser visto na penumbra úmida do quarto, mas a cada duro segundo que se arrastava, o ponteiro se fazia evidente. É inútil ponderar, mas a essa altura o pequeno e indesejado artefato já marca 3:54h. Vânia está fora de casa desde a manhã do dia penúltimo. Saiu pra "dar uma volta", e a essa hora é bem provável que tudo ao seu redor dê voltas e mais voltas. É bem provável que a essa hora Vânia esteja gastando salto em algum boteco realmente sujo, desses que poucos encaram; que poucos encaram à luz da lucidez; à luz da dignidade. É bem provável que a essa hora Vânia esteja eufórica com amigos e desconhecidos (que serão íntimos amigos essa noite, até que acabe a cerveja e a cocaína). 
Em casa, Carmen e Leonardo forjam tranquilidade, imaginando onde estará Vânia. Leonardo bem sabe que a mãe aparecerá hoje ou amanhã, a boca torta, o rosto desfigurado, a cara inchada de coriza e culpa, os olhos cambaleando dentro do crânio, como que ensaboados. Arrependidos, mas falsos. Leonardo sabe. Sabe porque, apesar dos míseros oito anos, está mais do que habituado a essa cena... 
O trem uiva mais uma vez lá fora, bem longe. E Carmen tem um impulso irrefreável. Larga o terço faltando ainda algum Pai-Nosso, veste apenas um casaco leve por cima da camisola rasgada, enfia os pés num par de chinelos, desce as escadas no escuro buscando não acordar o neto (que sequer fechou os olhos essa noite e agora ouve paralisado e aflito os passos da avó na escada, o uivo cada vez mais próximo e, na rua lateral, alguns passos que vão e vêm, ecoando dentro da noite, sob o céu opaco, sem que encontrem o portão e a campainha da casa). 
Carmen, 65 anos, trabalha como moldureira e sustenta uma casa com muitas bocas. Fixas e pedintes. Dentadas e doentias. Bocas limpas e bocas imundas, de vala ou injúria, tuberculose, AIDS. E nesse ambiente vive o que restou da família de Carmen, que agora anda pelas ruas da vizinhança com seus trajes esfarrapados, arrastando uma perna enferma, buscando a filha em qualquer esquina, em todos os bares da região. E finalmente encontra – o impulso foi certeiro, Vânia estava perto de casa, três quadras acima, num pequeno bar chamado NOSTRAVAMOS, bem lá no fundo, quase escondida por detrás de garrafas, copos e pessoas que Carmen tenta reconhecer. A cadeira de Vânia está a poucos passos do banheiro, percebe Carmen, do alto de sua agonia calejada. Não que a essa altura Vânia guardasse algum pudor; já cheirava cocaína há algumas horas, ali mesmo na mesa do bar – muito escuro e ruidoso. Carmen acompanhou o momento em que Vânia tirou do bolso um saquinho de pó, despejou no dorso da mão e meteu o nariz; jogou a cabeça pra trás na intenção de absorver toda a cocaína e foi nesse instante que notou a mãe parada diante da mesa, camisola e chinelo, diante de todas aquelas pessoas sem rosto. Vânia empalideceu. Pegou a bolsa, inalou fundo, levantou-se num pulo sem piscar os olhos e foi até a mãe. 
A discussão a seguir não é conveniente. Basta dizer que minutos depois as duas estavam em casa. Sangrando. Vânia tomava seu primeiro banho em três dias, enquanto Carmen requentava o café. 

Lá fora o dia raiava preguiçoso, sem nenhum sinal do trem.
No quarto, catatônico, o pequeno Leonardo sentia frio.


domingo, 13 de abril de 2014

A fila

Esse é um texto fictício, escrito há algumas semanas. Mas um fato semelhante, 
ocorrido dias atrás, dá um tom quase jornalístico e panfletário à obra. 
Tudo isso não passa de um mal-entendido.

Dedicado à Julia.


Stella surpreendeu a funcionária da mercearia ao pedir somente 300gr de queijo.

– As meninas foram viajar, Dona Stella?
– Não, menina, é que tem sobrado tanto queijo lá em casa... Ontem eu fiz uma torta com o queijo que sobrou, mas não dá... O quilo do queijo me custa quase um dia inteiro de trabalho! Pobre sofre... Você acredita que hoje eu peguei o trem às cinco e quinze e já tava lotado? Ah, não, tá um absurdo essa situação... 
– Pior que é verdade mesmo... Aqui ficou seis e cinquenta. A senhora deseja mais alguma coisa?
– Não, querida, é só isso mesmo! Até amanhã, se Deus quiser...
– Até amanhã!
– ...e Ele há de querer! 

Ao sair do laticínio teve de virar à esquerda porque a rua onde costumava virar estava interditada. "ATENÇÃO: HOMENS TRABALHANDO". Aquilo arruinou o humor de Stella, que não gostava de alterar seus caminhos. Há nove anos trabalha numa lanchonete de bairro, na parte nobre da cidade. Até sua casa são duas horas de transporte coletivo. Stella completou cinquenta anos no mês passado e, apesar da má condição financeira, guarda traços muito delicados e nobres, dir-se-ia até traços e hábitos de uma verdadeira dondoca. Não esconde as recentes mechas brancas, pelo contrário, faz questão de exibi-las quando alisa o cabelo, em datas especiais. Mãe de duas filhas, recentemente divorciada, finalmente aprendeu a subtrair do queijo diário a parte do ex-marido.
Teria de percorrer duas quadras até chegar na esquina de sua rua. Mas logo no início da primeira quadra notou um aglomerado de pessoas. Curiosa que era, apressou os passinhos e chegou bem perto para verificar; de estatura baixa, não conseguiu enxergar muito bem, mas notou que as pessoas se organizavam numa espécie de fila indiana. Incapaz de cometer um ato imoral, Stella se pôs a aguardar pacientemente atrás do último da fila.
Um leve toque no seu ombro esquerdo, vindo de trás, fez o corpo todo tremer, quase levando a sacola ao chão. Era um curioso; homem baixinho, cabeça larga e calva, bigode muito cheio e aparado, roupa de operário.

– Que é que tá acontecendo aí? – perguntou o homem em tom operário.
– Sabe que eu não sei – respondeu Stella, rindo muito –, eu tava voltando pra casa por essa rua porque a rua que eu sempre viro tá interditada, aí quando eu cheguei aqui, vi umas pessoas paradas na calçada e vim tentar descobrir o que era. Eu até perguntei prum moço mas ele não me respondeu.
– Eita, será que é briga, é?

O homem dobrava seu corpo para o lado direito, a fim de poder enxergar o motivo daquela quizumba, mas seu pescoço era curto demais, e a calçada (muito estreita) não possibilitava ao homem andar paralelo à fila. Pôs-se a esperar. Iniciaram uma animada conversa, ele e Stella. Falaram sobre empregos, sobre seus patrões, sobre filhos, casamento, o preço do ônibus, o tempo, falaram até sobre futebol – assunto que Stella não dominava.
Dez minutos, uma senhora gorda vinha pela calçada, mãos dadas a uma criança de uniforme e mochila nas costas. A mulher pediu licença e pareceu ter interrompido um funeral porque Stella e seu novo amigo olharam-na com olhar duro e condenador:

– Eu já estou aqui há dez minutos, desculpa, mas eu não vou deixar a senhora passar. Se quiser, que atravesse a rua e vá pela outra calçada.

(Stella tratava a maioria das pessoas por Senhor ou Senhora, mesmo quando da mesma faixa etária.)
A mulher olhou com pesar para a criança, que concordou em esperar. Logo estava inserida na efusiva conversa. Vez ou outra um curioso passava e perguntava, interessado, o motivo daquilo. Ninguém sabia dizer. O céu escurecia lentamente.
Então a fila já ocupava meia quadra. Pessoas vinham correndo, esticavam seus pescoços mas nada viam, então punham-se a esperar no final da fila, que já podia ser notada de longe. Alguns tentaram burlar a ordem, mas foram hostilizados brutalmente pelos que esperavam há mais tempo. Stella abriu ali mesmo a sacola do laticínio. Ofereceu queijo ao homem de cabeça larga, desejando que ele não aceitasse. Ele, querendo aceitar, recusou por educação. A gorda – faminta – perguntou para a criança se ainda restava algo do lanche; a criança, temerosa, fez que sim com a cabeça. Numa situação normal a gorda teria dado uma baita bronca, mas só o que fez foi abrir a lancheira e devorar um resto de sanduíche de patê.
Um homem em sua bicicleta passou lentamente pela fila vendendo suco, água e cerveja. Muitas mãos solicitaram o homem, que saiu dali minutos depois, com um lucro de $82. "Fiz meu dia", pensou.
A fila ocupava três quadras. Espalhou-se um rumor sobre sua origem. "Assassinato". Um jovem negro teria tentado assaltar uma senhora, mas foi pego em flagrante e agredido por um homem que passava. O negrinho tirou uma faca do bolso e matou o homem. Alguns diziam ter sido o contrário: o negro é quem morreu linchado. Outros, que a senhora é quem havia morrido.
"MATEM O NEGRINHO!" gritavam em coro alguns ocupantes no final da fila. Stella concordava: "É isso mesmo! A gente trabalha o dia inteiro, ainda tem que pegar trem e ônibus lotado pra chegar na rua de casa e ser assaltado! Se a polícia não faz nada, que matem o negro!"
Os negros saíam discretamente da fila, com medo de um possível equívoco.
Carros passavam, curiosos, já formando um engarrafamento em toda a avenida. "É um absurdo", bradavam, "essas cenas estão cada vez mais comuns. Estupro à luz do dia! Esse país tem é que afundar mesmo!"
Stella demonstrou frio e um homem lá de trás cedeu seu casaco, que foi passando de mão em mão até chegar a ela, que teve nojo e não vestiu. A noite caía sem que ninguém soubesse de fato o que estava acontecendo; ainda assim, aguardavam em fila alguma resposta. 
"Pegaram o bandidinho?!", gritaram lá do fundo. A pergunta ecoou até o começo da fila e seguiu sem resposta.

– Tá vendo, filho, é por isso que eu digo pra você estudar, pra não terminar igual esses bandidos aí, que às vezes matam por uma moeda de um real. – disse a gorda.
– Cadê o bandido, mamãe? Eu não consigo ver nada daqui!
– Eu também não to vendo, filho, mas tão dizendo que um marginalzinho matou uma menina de doze anos.
– Que que é "marginalzinho", mãe? 
– Deixa isso pra lá...

A população ficava cada vez mais inquieta. "Crime hediondo!", gritou um estudante de direito. A temperatura despencava brutalmente, uma fina garoa se fazia notar. Alguns cidadãos já desistiam. Largavam lentamente a fila, quase envergonhados por sua falta de fibra. Uns poucos ainda gritavam palavras de ódio ao passo que se distanciavam. 
"Se fosse comigo eu matava!"
Então a fila começou a andar. Simples assim. Alguns comemoravam a surpresa, outros mal acreditavam naquilo! Os desistentes voltaram imediatamente, mas tamanha a euforia do povo, tiveram de ir para o final ou seriam linchados ali mesmo, afinal, aquele lugar na fila era uma vitória, uma conquista da qual não abririam mão.
A fila andava muito rápido, alguns tinham dificuldade em acompanhar o ritmo. Dobraram a primeira esquina em ritmo de maratona, mas Stella cedeu; abandonou a fila. Parou na esquina de casa e, ao se aproximar, notou as filhas no portão.

– Demorou, mãe, a gente tava preocupada!
– Ai, desculpa! É que um bandido matou um homem ali na rua de trás, e eu tava lá vendo!
– Que horror, mãe! Você podia ter se machucado!
– Mas tinha bastante gente lá. O povo cansou de apanhar!
– Verdade, mãe. 
– A senhora trouxe queijo?
– Trazer eu até trouxe, mas comi metade no caminho. Me deu uma fome naquela fila! – Stella ria muito.
– Como assim, "fila"?
– A gente teve que fazer uma fila porque a calçada era estreita e a rua tava movimentada de carro, você acredita? – e gargalhava.
– Uma fila pra ver um cadáver? Que horror!
– Besta! Ninguém chegou a ver o cadáver, eu acho... Tinha muita gente. Cada um disse uma coisa, no fim das contas. Só o que eu sei é que o ladrão era preto!
– Olha, eu não sou racista, até tenho um colega de trabalho que é negro, mas pode ver, a maioria dos ladrões é preto.
– É verdade... – concordaram, confortáveis, entrando em casa.

Até hoje ninguém achou o cadáver. Ou a carteira. Ou vítima. Ou o bandido.
Sequer descobriram o motivo daquela fila ter surgido. 


quarta-feira, 26 de março de 2014

Antônio Carlos

Antônio Carlos viveu vida amarga
porque teimou ser amargo durante a vida.
Antônio Carlos foi homem de poucas palavras e demonstrações.

Antônio Carlos jamais chorou, exceto no último dia de vida, quando cedeu a um infarto fulminante.


Entrevista de emprego



Hesitei no último botão da camisa. Jovem ambicioso ou homem responsável? Óculos ou não? Amassei as sobras laterais do cabelo, tentei ajeitar os fios que ainda me restam no topo, puxei um pequeno tufo pra cobrir uma espinha tardia e decidi: homem responsável. Fechei o último botão, ensaiei um semblante ambicioso, calcei um par de tênis e me dirigi pra entrevista.
Não foram muito didáticos; “Compareça pessoalmente, traga documento com foto, e currículo”.
Ansioso, fiquei pronto com larga antecedência. Quando ganhei a rua percebi que poderia ir a pé. O trajeto não era longo. Não pra mim. É verdade que o sol se fazia evidente, meu relógio marcava 15:15h, a entrevista estava marcada pras 16h. Deduzi que percorreria algo em torno de três quilômetros. Confiante, de óculos, camisa fechada e currículo na mão, peguei a avenida principal, ainda muito movimentada. Por diversão, decidi repassar o discurso ensaiado. “Ah, sim, tenho total disponibilidade de horário. Com certeza, pontualidade é meu ponto forte. Sim, sou músico há mais de dez anos e já trabalhei com crianças e adultos. Meu método? Ah, eu gosto de moldar as aulas de acordo com o gosto do aluno. Quer blues? Vai ter blues. Quer samba? Vai ter samba. Teoria? Vai ter teoria. Violão clássico? Violão clássico. Filhos? Não. Sou casado, mas filhos ainda não, haha.” Decidi então que seria mais firme. Mais sério. Não sorriria, falaria pouco e ainda passaria uma imagem de durão. Curitibano prefere assim, esse povo carrancudo e xenófobo. Já faz um tempo que decidi tirar o “Sou de São Paulo, vim pra Curitiba porque me casei com uma curitibana e agora vivo aqui” do meu discurso, percebi que não funcionava. Certa vez, numa entrevista coletiva, onde eram disputadas 5 vagas por 12 pessoas – eu sendo claramente o mais bem preparado dali – para trabalhar numa livraria, recebi um “não” que me dói até hoje. O motivo? Ter vindo de outro estado. E a imensa barba. Ali constavam pessoas semi-analfabetas, sem experiência, inocentes e deslumbradas; gente burra mesmo. Ainda assim, não consegui a vaga.
Resolvi investir na carreira de professor. No currículo, menti descaradamente sobre o tempo de experiência dando aulas, floreei minhas habilidades, descrevi todas as minhas atividades relacionadas à musica num período de dez anos – esse tempo é real.
Então percebi que o trajeto era muito maior do que eu havia imaginado. Faltava vinte pras quatro e eu não estava nem na metade do caminho. Dei conta de que andava lentamente ao divagar; apertei o passo. A camisa ensopada de suor. A testa derretendo. Os óculos escorregando pelo nariz oleoso. Meu humor despencou e eu passei a andar sem pudor; como um louco, tropeçando, em zigue-zague, provando pra mim mesmo a minha falta de equilíbrio. O calor só aumentava e nada de eu chegar na tal escola de música. Dez pras quatro, eu não fazia ideia de onde estava. No mapa parecia muito diferente... Decidi pedir informação e abordei duas garotas na faixa dos 16, que me julgaram mal, apertaram os passos e atravessaram a rua. Fiquei puto. Cogitei ir atrás delas e explicar que estou a caminho de uma entrevista de emprego e não faço ideia de como chegar. Mas só perderia mais tempo.
Abordei um taxista que me explicou com segurança, dizendo que a rua era “logo ali, à esquerda”. Sorri com a alma, agradeci meu amigo e encontrei a rua.
Cheguei à escola faltando dois minutos pras quatro da tarde
Quando entrei, não distingui nada. Estava escuro lá dentro. Minhas pupilas, ainda diminutas pela claridade excessiva do sol, suaram para se adequar ao novo ambiente. Um silêncio peculiar pairava por ali. Um silêncio totalmente imune aos carros lá fora, incrementado pelo ruir do ventilador portátil no balcão. Ali dentro, só a recepcionista. Parecia concentrada, escrevia com o corpo curvado para frente, meio de lado, e só se dirigiu a mim quando cortei aquele silêncio calmo.

– Oi, eu tenho uma entrevista marcada pras 16h. – disse com exagerada firmeza, me julgando talvez importante.

Ela bocejou e me estendeu uma ficha cadastral.

– Preenche essa ficha, coloca seu nome completo, os documentos, e na folha de trás, uma redação de 15 a 20 linhas, com título, sobre você. Quando acabar, pode deixar aqui comigo. E pode usar essa caneta aqui.

Peguei a folha, a caneta e me sentei numa cadeira dessas de escola, peça única, o suporte muito estreito para alguém de um metro e noventa.
“Tudo bem, é isso que deve ser feito. Então... façamos.”
Finda a primeira parte, depositei a caneta sobre a mesa, alonguei o pescoço, o trapézio, girei os punhos como quem se prepara pra uma luta, descansei os olhos e tive a ideia de um título: Tempo. É musical, forte, admite várias interpretações, é uma palavra conhecida... “Mas muito abstrata e pouco profissional. Preciso de algo mais direto e ousado ao mesmo tempo.” Estralei os dedos, girei o pescoço mais uma vez, olhei de rabo de olho pra recepcionista, novamente entregue à sua atividade – que julguei ser palavra cruzada.
“Com Passo”. Sugere música outra vez, mas também alude ao fato de eu ter percorrido um longo caminho até chegar aqui, seja de casa até a escola, seja de São Paulo até Curitiba... Mas aí eu cairia outra vez na situação da xenofobia. Não. Definitivamente não.
Penso mais um pouco e finalmente decido. “Entrevista de emprego”. Corajoso, realista, levemente metalinguístico, direto. É, definitivamente é um bom título. Quando vou escrevê-lo, a caneta falha; marca o papel mas sem tinta. Rabisco a palma da mão até que funcione e então reescrevo o título. A letra sai torta, como se eu não controlasse meu próprio braço. “Muito tempo sem escrever à mão”, penso. Mas decido manter assim mesmo. Resolvo o velho embate da primeira linha com uma ideia que julgo ousada.

“Me encontro numa recepção, sentado numa cadeira que mal suporta o meu corpo e me serve de base para uma auto-descrição. O motivo? Busco um emprego.
Músico há mais de dez anos, auto-didata em violão clássico, bateria e contra-baixo, tenho 7 anos de experiência como professor de violão e guitarra. Estou em Curitiba há apenas 3 meses. Gosto de pensar na vida como uma longa estrada...”

Não. Caralho, não! Que papinho furado é esse? A mulher, no mínimo, vai achar que sou bicha. “Gosto de pensar na vida como uma longa estrada”? Que merda é essa? Até cantor de folk já se cansou dessa metáfora...
Só o que me resta é pedir uma nova folha à recepcionista. Me surpreendo ao seu jeito rude quando me entrega uma nova ficha. Nos seus olhos pude ler “Porra, cara, como você consegue errar uma redação sobre si mesmo?”. Senti vergonha, mas fiz o que deveria ser feito. Preenchi tudo aquilo outra vez, mas aproveitei para adicionar uma nova informação na parte “ULTIMOS EMPREGOS”, assim mesmo, sem o acento.
Achei que seria prudente informar sobre um emprego antigo, num hortifruti, carregando caminhão. Não anularia minha experiência musical, e ainda ressaltaria minha disposição pro trabalho. Floreio um pouco as descrições e fico satisfeito com o resultado. Chego de novo à redação.
Meu currículo? A mulherzinha nem tocou.
Tento refazer aquele começo, mas não consigo lembrar das palavras. O que reescrevo é equivalente. Falo da minha paixão repentina pela música e sobre como isso se tornou carreira – tudo muito dramático e comovente; falo sobre shows que fiz, músicos que conheci, estilos pelos quais já passeei... Até que erro feio uma palavra. Uma palavra tão simples... Tento ajeitar a grafia, mas vira garrancho. Algo ainda pior do que a melosa frase “Gosto de pensar na vida como uma longa estrada”. Faço o que, inevitavelmente, deve ser feito... Com angústia, mas faço.
A recepcionista não consegue acreditar que estou ali outra vez. Estufo o peito, faço cara de poucos amigos e forço uma hostilidade opressiva na intenção de me impôr. 

– Eu preciso de uma nova ficha. – mas ao dizer isso minha voz falha, desafina, e soa como uma voz adolescente. Fico quente e vermelho de ódio. Pego a nova ficha com rispidez, não agradeço e volto ao meu lugar.
Escrevo a porra da redação em fluxo de consciência, não releio, julgo bem o trabalho, levanto e vou até o balcão, com receio. A mulher me sorri com ternura e parece não ter percebido nada do que acabara de acontecer. Isso me surpreende e anima. Recupero o humor e percebo a paz daquele lugar. Penso em me candidatar pra uma possível vaga de recepcionista, mas desisto. “Ela já vai te receber, ok? Aguarda aí um minutinho”.
Ok, aguardo.
Bebo dois copos d’água; o primeiro desce como a salvação, o segundo bebo sem vontade, para preencher o tempo de espera.
Ouço a madeira ranger acima de mim, uma porta se abre, ouço passos graves no corredor e uma voz aveludada que diz “Leonardo? Pode subir, por favor.”
Respiro e subo, alongando os tendões do braço e mãos. É provável que eu tenha de demonstrar aquilo que alego. Uma cabeça enorme me aguarda no topo da escada. Depois compreendo o corpo, o rosto e o cabelo. Finalmente compreendo, é louca. Minha futura patroa é louca. Olheiras absurdas, cara de ansiolítico e a tal voz de veludo que já citei.
A conversa segue burocrática, com falsa intimidade – da parte dela.
Respondo firmemente olhando nos olhos. Sorrio maliciosamente, não caio nos seus truques de baixar a guarda pra ver se eu baixo também. É inteligente apesar de louca. Fala sobre a própria vida pra preparar o terreno, ri alto com a metade inferior do rosto, enquanto a outra metade me fita e analisa. Devolvo o olhar. Faço com que ela perceba que estou a par de tudo. Ela compreende. Continua falando, depois me aponta uma parede que me havia passado despercebida. Três violões pendurados. Escolho um de nylon, clássico, aparentemente feito por luthier, com muito capricho.

– Esse foi feito pelo meu marido; fez pro meu filho, mas ele não seguiu carreira... Bom, mas toca um pouco pra eu ver.

Eu estava preparado. Alonguei e aqueci durante quase uma hora, em casa. Optei por um improviso em ré maior, alternando momentos melódicos de poucas e precisas notas, com momentos muito técnicos, sobretudo a mão direita.
Talvez pelos supostos calmantes, ela não demonstrou emoções, apesar da demonstração excepcional. Apontou para uma guitarra encostada na parede.

– Agora um pouco de guitarra.

Demonstrei o que ainda restava dos meus dias de guitarrista, ela gostou. Foi o suficiente. Depois falamos sobre horários, pagamentos, dias livres na minha agenda... Eu estava finalmente empregado. Fácil assim. Finalmente.
O papo seguiu burocrático, naquele mesmo tom de falsa intimidade. Eu tinha de dançar conforme a música... Na primeira oportunidade me levantei, disse “Bom, então tá...”, apertei sua mão e assegurei que estaria ali novamente no dia seguinte, quando já teria um aluno, marcado pras 19:30h.
Eu estava outra vez empregado e sorria de modo patético, orgulhoso do meu feito. Mas essa não era uma alegria plena, algo me incomodava quase secretamente, como uma sensação de estar prestes a desmoronar. Bom, pelo menos agora eu poderia sustentar a casa e ser considerado um Homem novamente. Aos olhos dos outros.
No caminho de volta, parei no mercado e me dei ao direito de comprar algumas cervejas. Doze garrafinhas. Com um dinheiro que ainda não tinha. Para comemorar o fato de estar novamente vendido. Eu era um brasileiro com emprego, celular e o nome sujo na praça. Eu era um Homem. E me sentia patético por isso.
Voltei a pé pra casa. A noite surgia; como deveria ser. Não lembro muito do resto, tenho esse trecho esbranquiçado na memória. O que sei é que bebi as doze garrafas. E dormi no sofá.
Então acordei de ressaca, alimentei meus gatos e, só de cueca, escrevi esse conto.


terça-feira, 25 de março de 2014

O sofá


Emanuel Filho é homem honesto, incapaz de cometer um mínimo ato imoral. Ama, acima de tudo (e até acima de Deus), sua mãe Juracir, mulher guerreira e ignorante – esse fato Emanuel ignora.
Aos 46 anos, Emanuel Filho atingiu o ápice da carreira profissional, tornando-se zelador do Edifício Residencial Paineiras. E conseguiu, finalmente, após árduo trabalho honesto, presentear sua mãe com um novo sofá; afinal, pensava Emanuel, aquela mulher batalhadora merecia (como ninguém) repousar em paz.

O cubículo ao lado do bicicletário C-2 era suficiente para a vida e poucos pertences de Emanuel Filho. Homem discreto e passivo, não recebia visitas; seu único vínculo social era justamente com Dona Juracir, a quem visitava quinzenalmente, nas folgas. 
Ao não perceber que sua humildade havia se tornado submissão, Emanuel Filho pedia licença como quem pede desculpa ao entrar na casa da mãe, que – viúva e silenciosamente envergonhada pela vida do filho – recebia-o sempre com certa impaciência e aflição. 
      
– Já tá ficando tarde, Filho, é melhor você ir indo antes que escurece. Ainda é capaz de pegar um resfriado andando por aí.

E Emanuel, 46 anos, assentia, julgando ingenuamente aquilo como nobre preocupação materna. 

– Eu te amo tanto, mãezinha. No dia que a senhora se for, não sei nem o que vai ser de mim. – gemia, abraçando-a de modo dramático.

Até que certo domingo, dia de visita, a vital questão de Emanuel Filho foi posta à prova.
Juracir não atendeu a campainha (por sinal, sempre tocada com muito zelo, inofensivamente, quase imperceptível). E não atendeu porque enamorou-se e foi morar na casa de Dorival, parceiro de dança aos sábados, parceiro secreto de paixão operária há três anos.  
No portão humilde da casa (grande demais para uma só pessoa) era possível notar a placa formal: "ALUGA-SE", e o número da imobiliária. Do lado de fora, na calçada, alguns móveis velhos já castigados pela chuva, quadros sem moldura, um fogão... e o sofá – aquele; escolhido com tanto cuidado. 
Nenhum bilhete. Nenhum aviso. Nenhum sinal.


Emanuel Filho sentou-se no encosto do sofá abandonado, tentando compreender.


sexta-feira, 21 de março de 2014

buraco negro

sua buceta era um buraco negro
que sugava meu ego
meu pau, minha mente, minha alma
sugou meu silêncio, minha casa,
minhas roupas, sentidos
sugou minha vida e queria mais!

sua buceta era um monstro
enorme, roxo, peludo e malcheiroso
(incrível)
que me atormentou o sono, o dia, os anos
sugou meu ego, minha vida, meu corpo,
minha sanidade, meu pau já insuficiente
e queria mais! mais!

sua buceta engoliu a Terra inteira e agora pede trégua.





(arte: Katheriny Mendes)

quinta-feira, 20 de março de 2014

poema médio

tento seguir ileso, alheio à infinda infidelidade tropical.
fincado nessa vida (que é média), ando sem toque, meio medíocre,
entre parcelas – de dívida e arte – minguadas, sem risco.
vou pelo meio, vou reto, me esquivo pouco porque vou sem perigo.

(um copo que quebra,
o fio do interfone,
o aspirador de pó,
a ração dos gatos,
as aulas insuficientes,
a casa da sogra,
cupons de desconto,
pulgas,
fechar as janelas, cortar o açúcar,
forçar a poesia pra fugir da média, fazer média pra fugir da dívida,
praticar a mediação entre mim e os outros – tantos)

sigo assim, em repouso que sufoca,
tênue trilha que percorro, alheio ao lodo, sem saber onde vou dar –
mais parcelas, quem sabe, médias, miúdas; isentas de fogo ou coragem.

sigo sem saber ser essa pessoa que descrevo.

sem saber ser essa pessoa que descrevo,
sigo médio, catando migalhas, parcelando a culpa de querer ser o outro;
aquele (agora distante) num chão frio ou pensão.

nesse afluente raso,
sigo em ti e contigo, inofensiva vida.


sábado, 15 de março de 2014

Dor

Dói tanto lembrar de tantos momentos e saber: aquela não era você.

Seu desconforto era conflito entre múltiplas faces (ainda ocultas),
sua angústia era certa repulsa a mim, entregue inteiro e tanto.

Dói físico.
E dói metafísico rememorar seus olhos amarelos agitados diante de mim, tão falsos.
É absurdo que isso aconteça.
Absurdo.
E só não choro porque sequei.
Meu peito seco recebe inteiro o golpe,
Sem lágrimas antissépticas.

Me parece já impossível ser o mesmo. Sigo porque devo, coberto de cicatrizes
e feridas prestes a brotar.
Minha lepra será vagarosa e cruel.
Não há mais morfina.

A dor não coube no poema.

setembro, 2013                                                                                                           

quarta-feira, 12 de março de 2014

Cobre (t = 60bpm)

O céu físico, tão próximo e colossal, não é menos frágil do que eu.
Alheio ao acobreado tom da tarde e à inevitável melancolia, fragmenta-se, move-se,
dá pano a inúteis poesias.
Calo a música, atento aos carros lá fora.
Aguardo a campainha que enfim me despertará.
(Aguardo aflito.)
Encaro janelas, muros, construções em progresso, emancipadas e solitárias antenas que desconhecia...

Carros relincham no asfalto pluvial,
a tarde despenca. (Meu quarto incandescente torna-se a própria tarde de hoje.)
Os gatos vem até mim; não compreendem a melancolia – querem água.

(Esboço um primeiro sorriso, cansado, não acendo luzes.)

A noite me invade e mostra através de turvos espelhos:
minha dor é média. É tom de cobre, é aguardar campainha, é estar fraco e calvo, é o fluxo lento intumescido de lâmpada
e chuva.

Elogio a sombra, acompanhado de escritores Velhos.
Céticos. Cansados.
Soslaio suas palavras, sem toque, e planto letras entre cifras de música...

Um zumbido elétrico me rasga inteiro.
É a campainha.
É ela.


terça-feira, 11 de março de 2014

Jaz

 
          O carro vai fluente pela avenida úmida. Ela dirige. Estão a caminho de um aniversário; amiga não muito próxima, mas o que se há de fazer?
Vão em silêncio. O relógio mostra 21:13 – a festa marcada pras 19:30h. É que se demoraram num sexo mal resolvido, ela perguntando “por que o teu pau ficou mole?”; “sei lá, perdi o tesão”, já vestindo a cueca, rumo ao banheiro.
Da cama, um resmungo – "perdeu o tesão por mim?" –, que ele responde negativamente, para si. Liga o chuveiro, fecha os olhos e deixa a água fluir pelas costas, sentindo aquilo. Em silêncio, logo ela surge e se ocupa do espaço vazio no box.
Agora vão quietos pela avenida. Choveu a tarde inteira, o asfalto úmido brilha. Dave Brubeck tenta preencher o oco do carro com seu jazz cinco-por-quatro, ele de ouvido atento, ao ponto de perceber que por trás desse jazz existe um pesado silêncio e por trás ainda desse silêncio, um berro muito agudo e aflito é ensaiado.
Sexta-feira. 14ºC. A chuva torna a cair; vem lentamente, em garoa, engrossa muito depressa e não há tempo dele evitar que a água invada o carro, encharcando boa parte do seu blazer de segunda mão. Ligeiro, procura a maçaneta. Não acha. É vidro elétrico, acionado direto do painel. Lembra disso, enfim, e mete o dedo comprido no tal botão, derrotado, os pingos grossos massacrando o jazz e o silêncio e o blazer e todo o resto.
Ela dá seta, olha o retrovisor e lentamente ganha a pista de alta velocidade. Estão atrasados. O silêncio torna a reinar – a chuva cessa num repente – e é possível que todos esses sons e silêncios e confusas conclusões sigilosas tenham passado despercebido por ela, talvez distraída ou concentrada demais. Ele não pergunta.
No lugar marcado, ninguém realmente anseia por suas presenças.



Regresso


Volto ao poema não como o filho pródigo;
Volto como o inquilino inadimplente, sem simpatia, distante e pálido.

Volto não porque preciso;
Volto ao poema porque não tenho outro Onde, abrigo, teto, ombro, rede...

Engulo seco o catarro artificial, enxugo seco as lágrimas de culpa.
Volto ao poema sem vergonha, sem orgulho, volto num tropeço, recaída –
                    
                                   Volto ao poema como o alcoólatra limpo que, num pestanejar,
                                   Agride a esposa com a mão do passado,
                                   Porque um alcoólatra é para sempre um alcoólatra e um poeta há de sempre retornar, cabeça baixa, peito estufado, punhos cerrados.

Volto desgarrado porque, a bem da verdade, contrato nunca rompi 
e daqui não pretendo fugir tão cedo.


segunda-feira, 10 de março de 2014

Sinfonia Nº 03 em D maior


I

Do dilema nasce essa massa
Azul e híbrida
Solar, brisa leve
Ao som daquela sinfonia.

Essa massa, inútil poesia,
Dilema entre o que escreve
E o que abre portas

Crianças brincam
  leves
Nuvens passeiam leves
Levadas em ciranda pelo vento brando, ao som daquela sinfonia híbrida

(Pizzicato solar interrompido
Pela porta que bate lá fora.)

Flagro o teto, o sábado, o céu
Inerte, num antigo dilema
Meio vazio de Mim,
 um tanto cheio de si...

Levanto a cabeça pendente,
O pescoço massacrado
Os ombros tesos
O tronco torto
Abro uma porta, vou até minha esposa, dou um beijo em sua testa, sorrio e volto ao quarto azul, 
onde a sinfonia me aguarda, é sábado, nuvens são nuvens, brancas, azuis...
E ignoram meu dilema – aquele velho dilema marrom
                                                                                 unilateral.

É sábado.
As crianças em ciranda azul
Ignoram meu dilema, meu poema, a sinfonia, minha esposa, a porta que bate...

*

Enfim me diluo
E extraio beleza
Dum pingo de chuva;

O céu anuncia: Já vem tempestade!

                        E a cortina
                                        dança
para o vento-mensagem.


II

    ..

(      )
.
 .. .
.  . ..
(                )
.
 ..
.  . .. 
  . .  ... .  .. 
   . ..   . ..  
(                        )

           .

                    . ..

    ..
         .

                     .


III

Plural sonoro –
Sol
Sopro
A risada das crianças,
Seus pisos no asfalto.

Coletivo de cheiros –
Ar azul
Amaciante
O hálito fresco das crianças,
Seus pés no asfalto

Confusão de vozes
Sonoras
Nasais
Azuis
As crianças brincando



Sinfonia de vida –

       Eu.

E todo o resto
lá fora.


( .   .        .      
               .     :        
                         .  
                               .)



Patético poema palestra

Te desejo na falta
Me alegro à presença
Sacrifício cometo se necessário.

Amo você aos três modos do homem
e também ao modo do poeta.

Você, pequena, me inunda.
Você, líquida e sólida, corre e pulsa em mim –
o coração de punho fechado estremece
e meu corpo de metro e noventa já é pouco pra tanto você.

Eu te amo
e transbordo
poesia


Camas

Meu endereço não é meu lar.
Tenho pensado em todas as camas onde dormi,
cidades que flagrei,
quilômetros...

Certa vez em MG contei 16 camas em vinte dias.
Foi o marco zero dessa estrada movediça,
repleta de linhas tênues onde tropeço.

Meu casamento está marcado.
Meu próximo endereço será meu lar.
Questiono: cama, será a última?


outubro, 2013

Sensível demais

A súplica se multiplica.
De olhos atentos – fatigados –, busco mentira nas tuas células e respiração.
Encolho.
Busco abrigo no teu peito e choro, quieto.
(Você dorme.)

Sensível demais...
A ideia do suicídio conforta mais que teu colo –
nasce e morre em mim, leal, e não esbarra em você.

Cedo ao sono,
Sonho mal.
E quando acordo percebo que não era do descanso que precisava, mas de ter sido humilhado no sonho que você interrompe, de onde saio vingado e viril e te fodo bem forte, te chamo de puta suja
e gozo um gozo sublime.

Foda-se o poema.
Finalmente nos abraçamos e nos tornamos um só.


setembro, 2013

O milagre

Hoje, sábado
recosto e espero.

Daqui vejo a cidade brilhar
e ser cidade grande.

Respiro.
Na tarde de hoje (já é noite)
fui única testemunha do delito de deus:
magníficas fendas vermelhas como estrias num preguiçoso céu outonal,
às seis.

Só para mim abriram essas fendas.
Humilde, compreendi:
existe o Milagre e existe o Amanhã.
(Como existe o porém...)

Agora, já em casa
recosto,
esperando
o amanhã.


outubro, 2013

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

calvo

meu coração calvo de tanta espera
compreende tu e o tempo.

brusca fisgada por ser do lar,                   

    vazio                           
                              nos quartos

tua roupa no tanque. 
e no palanque de mim:
não-eu
     
          (ainda)

não mobiliamos o espírito.

teatro popular sem decoração:
casamento não rima com poesia.


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Poema Rimbaudiano



Quero fundir meu corpo ao caos!
Que a minha existência seja o sinônimo do absurdo!
Vou devorar estradas e vinhos, carne e Deus.

Enfiei o punho na existência,
tem cheiro de vômito.

Desmascararei os filósofos e — sobretudo
os monges com seu silêncio pedante.

Andarei pelo pântano e direi:
"Onde estão vocês, almas condenadas?! Vamos festejar!"

Surgirão mendigos, alcoólatras, loucos, mulheres como Zelda Fitzgerald,
homens como Rimbaud e começaremos a celebração!
Sem limites, sem pudor, sem consciência linear.
Atuaremos para Buñuel. Ou Arrabal.

Seremos a corja, os habitantes do inferno.
Um riso escancarado e interminável narrara a noite.
Seremos santos no entanto.
Purificaremos a alma com o elixir da luxúria
e estaremos prontos.
Sim.


São Paulo, 2012                                                       

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Puro enfim


De tanto tropeçar em linhas tênues,
manchei de barro minha honra.

De tanto andar a esmo sob o sol,
tornou-se o barro pesada armadura.

Fechado em mim
sujo e famélico,
construí pequeno império de certezas amargas.

Tive orgulho.
(Arrogante e ingênuo orgulho.)
Escrevi amores, asfalto,
terras novas...

Nunca fui feliz.

Atravessei invernos cruéis
verões cruéis
primaveras murchas
outonos sem cor
e cheguei a você.

Descartei a armadura.
Me banhei na água pura que nasce de ti.
Conheci o mais sublime cheiro de vida.
Abdiquei do meu império,
larguei terras velhas,
enterrei amores...

Tenho orgulho e devo anunciar:
Nunca fui tão feliz.


segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Chama

Entrego a vida à tua chama rubra.
Peço: me incinera.
Me destrói e cuida.

Prepara a mobília,
                   logo eu chego.

Mais como quem vem fugido;
chego como quem busca redenção, colo
e lar.


domingo, 3 de novembro de 2013

mais um que é dela

você, leoa
me transfere a função:
vou de predador a presa
e preso sob suas garras e juba solar,
transcendo
e morro.


terça-feira, 22 de outubro de 2013

Rainha ruiva

Nesta tarde onde o tempo é sólido e rasteja
recebo surras de lembrança e máculas.
É outono.
A despeito disso o Sol arde e ofusca e projeta nas mulheres uma luz rubra que é só sua, minha Leoa.
Iludo-me apesar da certeza da distância.
Fantasio sexos expostos ao sol e me frustro,
não quero outra.
Só você é capaz daquilo que só nós sabemos (e agora exponho):

É você quem me transforma em bicho selvagem e me faz rastejar (como o tempo na tarde de hoje)
em busca monumental e mística.
É por você que me curvo e me entrego e me dôo
e dôo
e peco, peço mais
e peço punição
e gozo um gozo jamais visto
e me visto da sua pele branca
vermelha
e me torno o feto que não se consolidará em você
e encolho e semeio o seu colo
e então você me escolhe, me colhe
e me engole de colher,
Leoa arisca.

Seu corpo é minha Via Crucis,
meu caminho de Compostela,
minha nova estrada,
minha poça de lama
e água límpida.

Ah, minha rainha ruiva,
você jamais caberá nesse poema...


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

voo, ou uma ausência sólida

"(...) passarinho de metrópole é papel que voa na imensidão."
Natame Diniz


menina-pássaro foi-se embora.
de tanta ausência, foice em mim

ação do vento:
ausência evapora.
de tanto vagar, outro ninho compus

menina-pássaro avoa agora abstrata,
sua ausência me é leve, sua imagem me é paz.

nosso ninho desfeito me é sólido na ausência,
menina-pássaro quiçá pousará
no meu jardim outra vez.


(...)

O que falo ainda não compreendi —
sou tudo aquilo que calo.


terça-feira, 27 de agosto de 2013

No princípio era o verbo

Na manhã de hoje, Deus (que é todas as coisas) me foi
e me fez soar por ruas da memória e cheiros,
mas me amputou a caneta.

Enviou-me espelhos sem olhos
e me cobriu de olhos sem punho.
Fui espectador e protagonista.

Inserido e ausente em mim, senti farpa na sola —
                                          percepção terrena.

Presenciei tratores que tanto me atraem,
não pude sequer querer interferir.
Compreendi
(como compreendi a carne suculenta diante de mim)
que o equilíbrio é balança e não deve ser tocado.

Na manhã de hoje, Deus me aboliu a rima
e me deu boa memória.
Vestiu-me de higiene mas borrou-me as mãos.
Compreendi;
não anunciei.

Na manhã de hoje, Deus me enviou um novo verbo.
Na manhã de hoje eu apenas sive.


quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Jorge Luis Borges

Degusto em silêncio-penumbra as letras do velho que serenou em vida.
Aprendo que sou o outro e hoje é ontem.
Às oito da noite é penoso querer não ser o outro,
Há gente demais no mundo, destinos se chocam.

Evoco os grandes; não me desce o medíocre.
Brado de modo pouco sereno (sou chuva).
Permito ser irritado pela formiga que me acaricia o braço, talvez invasiva.
Como posso exigir exclusivo espaço no mundo?
Há gente demais, digo a verdade.
Evito neologismos —
Percebo que a boa escrita vem de um homem que está cansado,
                                                      não aceita trapaças ou glacê.

Almejo tecer a teia do Tempo, sentir a existência (isenta de toque) de outros que sofrem
em quartos, em silêncio, em penumbra...
                                                         (Percebo que sofrer é egoísmo.)

Consulto novamente o cego oráculo, por acaso argentino,
universal por mérito,
sereno por consequência de vida confinada em
frustrados amores,
escuras bibliotecas, frias e mofadas bibliotecas,
surdas universidades,
abafados cafés,
infinita e flexível memória têxtil...

Jorge Luis Borges,
hoje escrevo sobre mim
buscando te ressuscitar
afinal,
hoje sou você.


Sonho

Desperto de uma noite vivida e eternizada no vasto porão da memória,
calço chinelos para poupar a sola.
Ando devagar e me surpreendo. A alma, apressada, tropeça e cai de cara.

Rememoro a noite eterna.
Bem longe daqui,
naquela cidade onde nunca mais estive
acolhido naquela casa que volto vez ou outra
(em sonho)
na presença leve e quente da garota-cacto.

Noite de mesma textura de tantas passadas,
de olhar pela janela e perceber um céu alto e impessoal.
De perceber que o mundo é vasto
e que somos insuficientes,
ainda que plenos em momentos como esse.
Plenos em nossa pequenez que jamais deve ser questionada, porque absoluta.

Abro a porta, devaneios desfeitos,
textura escorrida, presença extinta,
sonho encerrado.

Porta aberta, a vida massacra
                            plenamente.


Ranço

Do último dia restou um ranço.
A certeza de ser insuficiente,
A culpa por ter te usado de forma humana,
Ter te visto tão pequena...

Ranço esse que é inédito a nós,
                               namorados.
Nossa primeira mancha, tingida para esse poema,
Já não sei se humana ou metáfora.

Da última tarde restaram manchas.
Sangue,
Suas roupas no meu chão,
Meu chão sem tuas cores,
Ter te visto tão bonita.

Do último olhar restou uma dúvida:
quando outra vez?


terça-feira, 20 de agosto de 2013

Eu

Palidamente cansado, menos anuncio que lamento:
Homens são ocos.
Agitam-se ao menor estímulo e fazem estardalhaço demais.
Ocos, preenchem-se de qualquer substância insossa.
Não digerem, vomitam.
Seus vômitos insossos e ruidosos inundam praças, palanques,
corredores, teatros, arquibancadas, velórios e bares.

Algumas certezas estão mal fixadas nesse mecanismo:
Que o ontem é áureo,
O amanhã é incerto
E o hoje, decadente.
Certezas equivocadas que se fixam como parasita no estômago (o órgão da alma).

Palidamente cansado, certamente anuncio:
O tempo não é.

Ao tempo não se permite verbo — percepção humana.
Não há contagem.
O universo é um instante.


Panteísmo

Magma
Matéria-bruta de mim
Saber-me inútil
Queimar tanto

Sinto a expansão do meu corpo que quase rompe.
Pouco falta para que seja fluído corrente

A morte me espera. 
Antes disso, a sólida e crudelíssima solidão 
desejo de morte
a cegueira
acúmulo de perdas
a melancolia (composta por átomos de todo o resto),
também um aperto de mãos ou caminhar...

Não caibo em mim porque sou dois.
Não infinitos; dois apenas.
E cada qual com infinidades de texturas e intenções, compostos por átomos de todo o resto.

Nessa inédita manhã que se repetirá, compreendi Deus,
que é todas as grandes coisas e também
                                um grão.


ALMA

Hienas sentadas em sofás de peido e veludo
engolem carniça enquanto cacarejam (sem dentes) sobre a minha ocupação.
O que canto (música) sai sem som a seus ouvidos IMUNDOS
Todas as hienas na clausura de suas vidas amputadas vomitam escárnio e pensam pensar:

                       "pobre criança sem futuro"

Colérico, ranjo dentes.
Penso em esfaquear esses corpos natimortos recheados de preconceito e bosta.
Esses cadáveres marrons derretidos que se arrastam por aí com pérolas de ostra,
reunidos com o propósito de celebrar a falta de propósito de suas vidas-carteira-assinada.

Hienas dementes constipadas e cínicas.
Hienas FALSAS TINGIDAS E EXPOSTAS NA MAIS PATÉTICA PRATELEIRA.
Alto preço, sem apreço ou valor.

                                   Tremo tremo tremo tremo tremo de ódio

Engulo. Empunho minha harpa e dedilho verdades que me tornam veludo outra vez —
                       sou salvo.

Transformo a carniça em adubo
                          e me glorifico,
                                pleno.