sábado, 25 de maio de 2013

Naufrágio

Metíamos num colchão no chão. Sem amor. Metíamos como quem castiga ou pratica exercício e eu só pensava em encerrar. Ambos fingíamos. 
Gozei.
Encenei algum afeto — emprestei amor aos meus olhos — e virei para o lado, na busca de algum tecido que limpasse a cena; dei de cara com seu absorvente sujo e ainda úmido. Não consegui desviar. Encarei aquilo por alguns segundos e o que me incomodou, afinal, não foi o sangue, mas o aspecto daquela fraldinha ridícula, tão humana, tão comportada, tão indefesa e patética. Covarde, com suas abas que nunca prendem direito, embora grandes demais.

— Ai, não olha! — ela disse, movendo-se bruscamente como quem se assusta.
— Não olha o quê? — dissimulei. — Só tava procurando alguma coisa pra te limpar! 

"Só tava procurando alguma coisa pra te limpar", repeti no pensamento. "Parece que eu falo com uma criança". 
Nisso, olhei de volta em seus olhos mas não consegui fixar. Fui repentinamente tomado por aquela tristeza que você, leitor, conhece tão bem — naufrágio num peito seco.
Finalmente ela se levantou, catou sua roupa e foi ao banheiro, contíguo ao quarto.
Deitado, vazio e mirando vagamente o teto, fingi não ouvir seu grito que dizia "Quer vir tomar banho comigo?".

Então fechei os olhos e vi um mosaico nascer.


sexta-feira, 24 de maio de 2013

Inventário


Olhos que já quase não enxergam
Dedos que não se movem mais
Um joelho operado; o outro, por pouco.
Sequelas dos anos que já...

A saudade da primeira sapatilha — tal como deveria ser
Fotografias em que surgem estranhos tão próximos
Almoços ainda não digeridos,
Encontros efêmeros cogitados na correria de uma esquina —
sequer atravessaram a rua.

Algumas cartas: já não é certo se fictícias ou não — costumava brincar de ser Elisa.
Velórios
Reencontros tardios
E a certeza de um reencontro que jamais...

Tantas tralhas.
Carteiras, medalhas inúteis, enxovais, conchas, terços, ingressos de cinema,
lembranças de momentos puros que teimam em permanecer vivos
ou abscessos de momentos rasos que fingem ter existido.

O futuro passou.

E o presente segue firme,
Implorando ao passado os cadernos repletos de rascunhos —
Esboços de uma vida atrofiada,
O saldo de uma vida inteira.


Um casal dócil



Eu já tive 16 anos.
Eu também já amei assim.
Dócil. De brincar como filhote mamífero.
Mas acaba. E não ouso avisá-los.
Observo, invejoso.

Ah, esse amor puro
de fresco hálito!
De pensamentos que não se perdem
com transliteração, por compartilharem idioma:
o mais sublime de todos.

Esse amor de alugar qualquer filme
à tarde, comédia, terror,
importa?

Quem vai dar o primeiro tiro,
não sei.
Ele, traição
Ela, desinteresse…

É penoso não conseguir
apenas admirar esse amor de namorados
sem ressalvas, sem alertas.
Mas já inevitável.
Eu não tenho mais 16 anos.
Já não consigo amar assim:
macio, liso, puro.

Guardo em mim
pouco de mim.
E tento salvar o que restou.

Dúvida, frigidez, ressalva...
Sexo: carne fria massacrando carne fria.
Sem vontade, encanto,
amor assim.

“Que na verdade ainda não é amor”,
é o que afirmamos,
numa tentativa vã de driblar nossa incapacidade
de amar plenamente.

Será o amor um dom reservado aos jovens?
Os jovens, que pouco sabem
e muito pensam que sabem.

Sabem amar apenas.
(Apenas?)
Esse amor cansado de adjetivos
que observo, capto, invejoso.


Mosaico

     "Devo ir ou não?" ela me dizia, referindo-se à faculdade. Respondi vagamente, contraindo a parte inferior da boca e erguendo os ombros "Cê que sabe... vai ter algo importante?", não tendo ainda percebido que ela gostaria de me ouvir falar "Não vai. Fica aqui comigo."
     Ela indo ou não, ainda tínhamos tempo. Eram quatro da tarde e fazia muito sol. Estávamos no seu quarto, esparramados sobre dois colchões no chão que se separavam facilmente, fazendo com que nossos corpos quentes tocassem o piso frio. Nos conhecíamos há três horas.
     "Sabe", eu disse, "eu me sinto bem. Sei que isso pode parecer banal, mas passei por momentos realmente terríveis recentemente. Sinto como se a vida finalmente tivesse me recompensando pelos testes sádicos". Ela sorriu e pareceu não ter entendido. Levantou as sobrancelhas, como de costume, e afundou sua cabecinha entre os ombros, como um brinquedinho de armar, e bastasse um toque para que sua cabeça pulasse. Peguei-a pela cintura e rolamos para a direita até que eu ficasse em cima dela, dominante.
     Me olhou, impassível. Novamente ergueu as sobrancelhas e não pareceu se importar com a condição de recessiva. Trajava um riso meio sarcástico, que mais suscita do que revela. Meus braços tremeram um pouco por apoiarem totalmente o peso do corpo. Lentamente, me deitei ao lado dela, de lado, o cotovelo esquerdo dobrado e o braço arqueado, sustentando-me a cabeça que estava leve. Com a mão direita acariciei seu umbigo, levantei sua blusa aos poucos – atalho que havia descoberto recentemente – e olhei dentro dos seus olhos. Ela desviou o olhar, tímida. "O jeito que você encara é muito estranho. Parece que você olha dentro da gente, roubando alguma coisa!".
     Já não era a primeira vez que eu ouvia isso. Aliás, ouvia isso com frequência.
     "Ai, Deus, vou ou não vou pra faculdade?", "Não vai. Pronto. Fica aqui comigo hoje!", então pareceu aliviada e disse, como já tivesse arquitetado há tempos "Tudo bem. Hoje eu fico aqui, aí amanhã eu saio mais cedo de casa e resolvo o que eu tenho que resolver, depois vou direto pra aula".
     Assenti silenciosamente, percebendo que ela já havia estabelecido que não iria à aula, esperando apenas o meu aval, dividindo a culpa da negligência.
     Silêncio. O ventilador nos soprava, brando. Fazia calor, um calor envolvente, tenro, com pequenas sugestões de ardor. Eu olhava para o céu através da janela entreaberta. Uma única nuvem de muito contraste e contornos ilustrava o centro da imagem. Era pequena. Muito acima, separadas pelo azul leve, um emaranhado de nuvens disformes, quase dissolvidas, que formavam então uma visão onírica; um tipo de passagem para algum lugar, coroando a imagem da pequena nuvem obstinada.
     "Você já reparou nessa janela?" ela perguntou, me cortando o pensamento. "Olha esse desenho que ela formou".
     A janela era revestida por um tipo de adesivo azul escuro, de certa forma translúcido, repleto de riscas. Riscas largas como rios num mapa, riscas estreitas como suas afluentes. O conjunto de riscas formava um mosaico medieval, como a estampa de um brasão ou o fundo de uma bandeira nobre. Muito bem pensado e trabalhado. "Foi o sol que fez isso com o adesivo. Não sei como, mas foi o sol. Esse adesivo era inteiro preto quando eu coloquei".
     Era difícil de acreditar, no entanto, ela falava a verdade. Falava num tom de inocência, como alguém que realmente não compreende algo mas não questiona, apenas admira. Eu me sentia bem. Constatei que a lembrança daquela tarde, com aquela garota recém-conhecida, naquele quarto arejado e claro, sobre os colchões no chão, em frente ao ventilador, logo depois de ímpares momentos a dois e observando o mosaico natural... constatei que aquela tarde me fixaria a memória eternamente.
     Pensei em lhe dizer isso, mas preferi apenas me deitar sobre ela e dizer o quão bonito era o seu sorriso.

a morte do amigo

era uma pessoa incomum o meu amigo.
se não choro sua morte – ainda – é porque sei que ele não choraria se a soubesse.
e sei também que ela veio a seu convite.

preciso ser breve.
sei que em instantes vou compreender sua morte. e desabarei.
então chorarei ininterruptamente.
chorarei por saber o que só eu poderia saber. chorarei porque fui sua última testemunha. chorarei porque vi seus olhos imprudentes e destrutivos
naquela noite.
chorarei por ter recebido a notícia cinco dias depois de consumada a sua morte.
chorarei porque era ele, e meu choro tem permissão para ir e vir.
chorarei lembrando do que só eu poderia lembrar.
nossas aventuras imaturas desbravando o país; chorarei nossos momentos de caos e ordem.
até os debates insuportáveis terão mais harmonia em meu pensamento triste.
chorarei por ter adivinhado sua morte, sendo o telefonema apenas a confirmação.
chorarei pensando que poderia ter impedido.
(sei que não poderia.)
e seria injusto porque era a sua vontade.
e sempre dói pra quem fica.
ainda dói sem lágrimas e sei que essa dor ainda não é dor.

poderia ter sido daquela outra vez, poderia ter sido na praia, poderia ter sido naquela casa absurda, naquela vila de pescadores,
do alto daquela cachoeira – aqui teria sido eu –, poderia ter sido soterrado, por tiros no meio do mato, overdose, suicídio… até que demorou.
nós a procurávamos juntos. incessantemente.
a morte.
ele a encontrou. e talvez volte para me dizer “olha, desencana, é a mesma merda, só que morto” e eu diga “ah, tudo bem, então vou ver se encontro algo pra fazer por aqui, forte abraço”.

respiro.
impeço que os olhos façam seu trabalho.
está quase na hora.
sua morte merecia o melhor dos poemas, mas a vida também não anda fácil.
bloqueio os olhos mais uma vez.
mas é inútil. as lágrimas virão. aliás, já estão aqui,
à espera do ponto final.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

A mulher mineira

Existe qualquer coisa de fantástico na mulher mineira.
Talvez o rostinho de formiga submissa
ou a apodítica ingenuidade.
Pernas fortes de subir ladeira,
o sotaquinho tão gracioso, ou esse próprio inho.

Existem também as desabrochadas —
tão minhas em minhas memórias.
Carregam essas no olhar algo inalcançável à mulher paulista.
Um tipo de riso sarcástico quase secreto por se saber acima.
Um desleixo espontâneo.

E então as jovens?
Exalam vida como orvalho!

É impossível caminhar por ruas mineiras e não amar.
Quase todas e cada uma delas.
Além disso, existe um certo traço grosseiro de inteiras palavras,
comum às mulheres de interior.
No entanto, têm classe.

Modigliani seria incapaz de pintar a mulher mineira.
(Eu garanto.)
Assim como creio ter sido incapaz de descrever o que essas amostras de Madalena
provocam em mim.

Montes Claros/MG, fevereiro de 2013                                                                         

maioridade

uma menina assustada
cheia de tiques, temores e traumas,
cheia de certezas e páginas cheias de certeza protetora.

uma menina sabida
que vai ao banco e se tranca,
que tem pudores, medo, fotografias na janela, tiques, traumas,
meias-páginas de incertezas e máximas.

uma menina 
flexível, pequena, pequeníssima!
assustada e retraída
com lentes que não vêem o mundo à volta,
o mundo à frente, o mundo que a justifica.

uma menina com lentes
que enxerga, que enxergam, 

que enxergarão páginas cheias de páginas,
mas, por pudores, evitarão as páginas

cheias de verdade.

sábado, 2 de março de 2013

Ciclo morto


Quis morrer no parto
Para encerrar um velho ciclo.
Sobreviveu.

Amaldiçoou a sorte,
Perdoou a filha —
Última de um velho ciclo.

Por doze anos ainda viveu submersa em si
E compreendeu:
Amar é querer ser absorvido inteiramente.


sexta-feira, 1 de março de 2013

Néia

Venho pensando em Néia.
(Néia é gentil apelido; seu nome é Geneilza.)
Mas Néia é apelido. Seu nome ela não revela.
Eu respeito. É nome que pesa em seus 32 anos
e rosto de anjo labutador, engrossado pelo sol nordestino e suas mazelas.
Néia é mulher.
Se fosse ovelha, seria negra.
Se fosse velha, morreria em mim.
(Estou rondando certo lirismo por não saber como dizer que Geneilza ejacula
e que seu gozo me inundou o sono essa noite.)

Mas Néia vive.
Por sua fibra de baiana maltratada e sonho incubado.
Por sua fibra de mãe solteira e ex-marido obsessivo.
Néia me levou além das outras.
(Leia-se: Néia trepava melhor que todas.)
Seu rubor me aqueceu uns dias de fome;
Seu néctar (seu gozo) me adoçou umas noites de insônia,
quando as noites se mostravam duras demais.

Mas nosso último encontro foi frígido —
justamente por isso foi o último —
e Néia fugiu furtiva, pra nunca mais me extasiar.
(Leia-se: e Néia fugiu furtiva, pra nunca mais me extasiar.)


                              Montes Claros/MG, 19 de janeiro de 2013


Poema escrito enquanto eu olhava para baixo


Terá o abstêmio alcançado a plenitude
      Precocemente?

Amigo, posso lhe dizer
Que tenho 3 paixões:
a música
o cinema
a literatura

              E ainda me sobra tempo para pensar em suicídio!
 Então o sujeito sóbrio chega e me diz que a vida é curta demais!

Assumo minha inveja.
Eu gostaria de ser um abstêmio. Traçar o escopo de uma vida,
Seguir o cronograma
                Disciplinado
                                 Lúcido
                                              São
Sério.

Mas o que posso fazer? Nasci apaixonado.
                Triplamente apaixonado –
Se minha essência não é monogâmica, como posso prometer isso às mulheres?

                O abstêmio nunca será um apaixonado.

Por isso se ocupa em manchar a imagem do boêmio –
                         Como se o boêmio já não denegrisse suficientemente a própria imagem!

Ora, abstêmio
Nosso único acordo é: nossas condições rimam entre si!
Fora isso, ocupe-se em me vigiar
                                               Que eu me ocupo de buscar o equilíbrio entre

   Arte                                                   e                                                    tédio

                                                                                               .

o desamor


é quando a barriga esquenta
e as pálpebras já não vibram mais.

quando o esforço se faz evidente
ou é apenas esforço.
é quando viramos xerox de nós mesmos
ou quando não existe mais o esforço.

não é a ausência do sexo, mas o sexo por costume ou cordialidade
e não é necessariamente a presença da mentira
mas a verdade dura dita desnecessariamente.

o problema não é quando as máscaras caem, mas quando começam a surgir.

é quando outros idiomas passam a camuflar as palavras,
todas as suas frequências se anulam
e seu orgulho míngua.

o desamor se dá quando olhamos para o outro e enxergamos um ser individual, 
não mais uma extensão de nós mesmos.


o diálogo entre nossas mãos

minha mão. sua.
aproximação fugaz e inevitável.

minha mão: sua.
a ti me entrego, nua e inesgotável
e te cravo as unhas.

minha mão sua.

Você



Você
que já me viu seduzir a noite
e beber sangue de vagina desvirginada,
ou você que acreditou nisso…
você não é capaz de me imaginar sob o chuveiro
encolhido
abraçando meu próprio corpo
com as luzes apagadas.

Isso você não pondera.
Você me apunhala porque não percebe que
também sou carne e sangue.

Você que me viu com tantas mulheres
e acredita que meu coração é um pênis
não pensa que
se ando sumido
é porque talvez não tenha mais forças
(meu suicídio afetaria sua vida apenas duas semanas depois de consumado).

Você
que pensa
que sou um garanhão,
um homem sem piedade ou alma
se engana.

(A culpa foi minha?)

Você torna a me apunhalar, cuspir,
você pinta minha caricatura com guache
e expõe ao público –
não me manda o convite da exposição.
Sua obra-prima me passa desapercebida.

Você não vê meu reflexo no espelho clamar calado por socorro.
Na verdade você já não costuma pensar em mim.

Por isso estou sozinho.
Por isso eu fugi.


O sangue virgem secou, amigo.
Agora só recebo carne usada
e mal sei usá-la.
Esqueci o sentido do corte,
cansei de armazená-la.


Vai, purifica sua lembrança sobre mim.
Tira o punhal da minha garganta.
Esquece aquele sangue virgem.
Eu não sou assim.
Ouve meu choro abafado.
Me dá um abraço.
Me perdoa.


findo mundo



findo mundo:
finjo quieto,
falo mudo.

fim do mundo:
homens fingindo orgasmo.

vil,
findo mundos –
finjo muito,
calo mudo.

áspero.
ou liso.

findo muito.

somos cruéis, absurdos.
finjo imundo,
forjo mudo
o fim do mundo.

nosso mundo (meu e seu).
sem dedicatórias,
sorrisos assim,
flerte.

findo tudo, não mais precisaremos fingir.

findo o mundo, nasceremos.
com piedade que dói em nós
piedade gratuita, terrível.

(todos os pensamentos me levam a você,
  o que fez você hoje?)

forjo um poema;
sai frígido e frágil.
o relógio me avisa:
01:58
01:59
nenhuma palavra será necessária às 02:00.
então calarei.
mudo.
tudo.

fingimos juntos, em total harmonia
às duas horas
da manhã.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

meio soneto do amor confuso

não confunda amor com saudade
não confunda amor com carência
não confunda amor com vontade
não confie em amor de vidência

não estrague o amor com cinismo
o que chamam de paixão é o verdadeiro amor
e o que sobra é o comodismo

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

poema sincero



este será um poema sincero.

e se o escrevo hoje
(cinco dias após o fato que o motivou)
é porque não havia encontrado ainda a sinceridade
necessária.

este poema é para uma prostituta.
uma prostituta que não tem orgulho
mas também não vergonha 
da profissão.

se escrevo pensando nela é porque captei algo extra
naquela mulher,
e não estou falando sobre sexo ou corpo ou carne ou abate.
ela foi sinceramente gentil
e mesmo quando avisei que não transaria naquela noite
ela disse “tudo bem, posso ficar aqui com você?”

sim.

conversamos francamente e eu disse que a admirava porque
ela tinha de ser tudo:
escrava, cadela, objeto, amiga, psicóloga,
e até mãe
de alguns homens que as frequentavam.

e tinham ainda aqueles cruéis
que revidavam nessas profissionalmente-desalmadas
a sua frustração:
empregos massacrantes, falta de talento ou sorte, 
a derrota do time,
parcelas do IPVA, 
um casamento fracassado, quatro filhos…

por fim ela se cansou e foi faturar.
mas não sem antes tentar se desculpar comigo.
“é o seu trabalho”, eu disse
e fiquei com o whisky.


este poema foi um expurgo.
este poema não teve rimas e nem deveria mesmo ter.

este poema é o esperma que não jorrou
aquela noite.


domingo, 24 de fevereiro de 2013

Casamento

Meu amigo vai se casar!
(Logo ele!)
Comemoraremos.

Velhos amigos se reencontram e mentem.
Seu casamento é um ritual absurdo!
(Todos são, mas apenas esse é o casamento do meu amigo.)
E no altar, já não parece o meu amigo.
Quando vou cumprimentá-lo, me trata com certa indiferença.
(Meu amigo agora é um homem e parece me desprezar.)
Está casando, grande merda!
Sustenta esse fato com nobreza. (De fato, não parece o meu amigo.)

Decido ficar totalmente bêbado.

Whisky, vinho e cerveja.
(Tendo no corpo a reminiscência de ansiolíticos.)
Talvez eu arme um pequeno show.
Tudo bem.
Muitos aqui já estão acostumados,
mas acredito que a burguesia ficará chocada.
Não quero estragar o casamento,
mas gostaria de ter meu amigo novamente.

Ele aperta mãos. Muitas mãos.
E sorri e fala baixo e parece atuar, maquiado.

Meu amigo está casado.
Logo ele!
Grande merda.

Qualquer um pode se casar
E dizer absurdos no altar, com centenas de testemunhas complacentes.
Todos sabem: ele está mentindo.
Até a noiva sabe. Mas se não for com ele, com quem será?
O mercado anda competitivo, é melhor garantir.
Além do mais, papai está tão contente. Até bancou essa festa caríssima!

Na festa gritam meu nome.
Sou Deus. Sou o centro.

Posso tudo.
Tento tudo e sou retirado pelos pés.

Me jogam na rua, alucinado e sozinho.
Falam algo sobre polícia.

Meu amigo está casado,
e eu não tenho ideia de
onde estou.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

álcool

os bêbados não consideram o dia
que sempre chega
e continuará chegando,
para a felicidade ou não
do bêbado.

é no dia que ele se redime,
se envergonha, se cala,
acerta ou não
suas dívidas recentes,
telefona, lava o rosto,
sente fome, raiva…
sobretudo vergonha.

é durante o dia que o bêbado
(de ressaca)
se pergunta,
que diabos aconteceu ontem?
tenta juntar algumas peças
já sabendo que será impossível.

lembra da garota sem cabelo
e de seu namorado sem cabelo
uma jukebox
uma boca
cabelos
álcool
dança
(a dança é memória afetada)
e passos que levam embora
para o dia.

se soubesse o dia
o bêbado se manteria sóbrio
mas a ideia do dia é algo distante
porque o bêbado não deseja o dia
(jamais deseja o dia.)
o bêbado deseja que a noite se prolongue
(mas não também.)
o bêbado deseja encontrar cicuta
em seu copo.
e assim como não sabe o dia
o bêbado não compreende esses rostos
à sua frente.

todos
os
bêbados
num
pacto
quieto
improvável
se…

mas não.
logo em seguida o bêbado acorda em casa e se pergunta
eles só querem se esconder.
talvez no copo.
minúsculo
frágil
estúpido.

o bêbado troca de copo
mas não de veneno
aliás, acrescenta um mais forte.
sugestão da garota
que se senta ao seu lado,
o corpo dizendo “me fode”,
totalmente entregue ao bêbado
(ela também vai alta)
mas o bêbado não se importa.
se cansou.
está farto do jogo.
sabe que é melhor assim
e sente até um orgulho em ignorá-la.
bem, não totalmente, porque eles conversam
riem
beijam
dançam
(a dança é memória afetada)
pedem mais uma,
a garota com seu corpo dizendo
“me fode a noite inteira”
e nada foge – ainda – aos olhos do bêbado
e ele permanece seco
apoiado no balcão
de frente para a garrafa
e os copos
e a possibilidade de se embriagar até o fim.

a garota
segue tentando.

o bêbado sorri,
triste.
a garota pergunta “o que foi?”
e o bêbado diz
(ainda rindo)
que se lembrou
de um negócio absurdo.
a garota duvida,
errônea,
em vão...

a conta vai alta.
ele não tem dinheiro
e a garota sabe disso
e pergunta
“outra?”
os vermes alcoólatras se agitam dentro do bêbado,
que não esconde o sorriso quando diz “por mim…”
e a garota, com aval
pede mais uma ao garçom
que respeita o bêbado
e se lembra
(mas não fala)
da vez em que o bêbado esteve lá
e se envolveu numa briga homérica
onde voaram cadeiras, mesas,
garrafas vazias
e
o garçom bem que tentou cobrar os reparos
mas o bêbado
linchado
questionou e disse
“só vou pagar pelo que eu bebi.”
e pediu a calculadora
e somou
e pagou.

mas agora existe essa garota.
matéria-prima
obra-prima
que o bêbado – bêbado –
meio que despreza
e
em algum momento surgem os amigos dela
de surpresa
então dividem a mesa, espantados com a sede do bêbado
que tem sede de morte
e escancara isso pra fazer graça.

que diabos aconteceu ontem?


tenta juntar algumas peças,
já sabendo que será impossível...


Tanto


Tanto dejeto de mim: sangue, cera, merda
                                  poemas, saliva, pus
           Tanto que cristalizou.
           Tanto que cicatrizou.
Tanto desejo em mim: sangue, poemas, saliva
                         tratores que causem tremores
                              em tudo o que cristalizou
   .
         Tanto de você ainda em mim.


Sobre sobrancelhas e répteis

Suas sobrancelhas quicaram até mim e
Seus olhos me temiam.
Me temiam, frágeis
No entanto vieram.
Talvez confirmar que minha pele é cera
E que
Por trás da barba vive um
Bagre
Liso e frio.

Seus olhos vieram dizer
“vou embora”
E eu pergunto até quando
“talvez na segunda”, você diz.
Tentamos um cumprimento desajeitado – erramos a mira.
Disfarçamos.

É quarta-feira e a luz da sua casa
Continua apagada, mas as baratas estarão lá,
Prontas.
Os empecilhos seguem nos assombrando
E foi cruel demais que vocês duas trabalhassem juntas.
Répteis.

E vocês duas são como serpentes na cama.
Envolventes e precisas. Meio loucas.
Me envolvem sem quebrar os ossos,
São cobras mansas.
Sobrancelhas e corpos diferentes,
Cuidam de mim como podem, ainda que as sobrancelhas duvidem de tudo.

Já é quinta-feira e você não voltou.
Tudo bem.
Tenho o teto branco e minha TV permanece sem som.
Te ouvirei chegar
                        se...


Eu, o mundo

O mundo não se importa com o meu sofrimento.
De que interessa se estou de luzes apagadas?
De que importa ao mundo que eu esteja aqui trancado?
De que vale saber que estou com o nariz impregnado desse mau cheiro?

O mundo não se importa com isso.
O mundo é tão maior que isso…

Meu sofrimento não comove o mundo,
porque agora mesmo alguém festeja.
Agora mesmo namorados se protegem.
Nesse exato momento alguém sofre mais que eu.

De que importa ao mundo o meu sofrimento?

Não iremos longe.
Meus vizinhos também sofrem no escuro.
O escuro também sofre com a luz dessa tela estúpida.
E a luz, que sofre por nascer e não ter onde refletir,
falecendo?

Não quero escrever meu drama.
Definitivamente não quero escrever meu drama.
A escrita é doença.
É a doença da esperança.
E a esperança é a doença dos covardes.
Não quero escrever meu drama.

De que importa se sofro?
De nada importa.

Rimbaud foi perfeito.
(A velha idolatria a Rimbaud.)
Soube escrever a plenitude
e foi além
quando desistiu da escrita.
Rimbaud deixou de escrever seu drama.

De que adianta?
De que importa?!

O mundo é tão maior que o ego ferido do poeta…
Ao mundo, definitivamente não importa que eu esteja no escuro.
Se importasse, o mundo acenderia minha luz, curaria minha dor, me escreveria esse poema.
Mas tudo isso depende de mim.
E hoje eu sou tão maior que o mundo.


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

esse (leia devagar)

a morfina do cafuné
amor finalmente são.
são tolos os que medem
são tolos os qu'exigem
paisagem ou contravenção
qu'evitam a ampla metáfora
duma representação banal
sobre o que foi reeleito
e sempre será.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Praça (Trilogia abrupta, 2/3)

     Na praça Matriz, um homem poderia facilmente despertar olhares curiosos por preferir a mureta ao banco, mas talvez esteja ali imóvel há tanto tempo, a modo de ter mesclado-se à visão geral da praça. O sol massacra. O grande sino da igreja central bateu por doze vezes ainda há pouco. Apenas um alguém percebe esse homem que parece estar recebendo a energia do sol, como faria o lagarto. É alguém de fora. Talvez por isso não tenha fundido o homem à praça — porque agora mesmo esboça suas primeiras impressões à memória.
     O estranho homem tem o olhar fixo, mas o forasteiro não distingue o foco. Dez minutos, o forasteiro finalmente se levanta e some dali. O homem segue fixo.
     Uma garota exalando o frescor da juventude despede-se dos amigos e ruma para as ruas históricas. Almeja encontrar os pais no mercado municipal, três quadras abaixo. A garotinha em seu jeans leve e fone nos ouvidos não detecta seu perseguidor, que a agarra e a leva para uma estreita rua sem saída e arranca seu jeans e esmurra sua nuca até que ela desmaia tendo emitido apenas um abafado e ingênuo gemido e então o estranho homem consegue com facilidade penetrar seu fétido pau duro e roxo na vagininha virgem da garota que sequer reage às estocadas violentas que tocam e ferem seu colo do útero e seu ego pro resto da vida. O homem goza rapidamente. Dentro. Ergue a calça, mal fecha o zíper e ruma eufórico e vazio para longe dali.
     Nenhum pensamento lhe ocorre.

Padaria (Trilogia abrupta, 1/3)

Um homem entra numa padaria sem despertar grandes interesses. De olhar fixo, caminha até o balcão, apóia a parte inferior da palma direita e batuca inconscientemente um ritmo indefinido. O funcionário da padaria lavando a louça o ignora. O homem, ainda de pé, quebra o silêncio:

— Você me arranjaria um copo d'água pra eu tomar meu remédio?

O atendente levanta os olhos e estende um copo de 300ml, cheio até a boca.
Sem dizer palavra, o homem tira do bolso um frasco. Rompe o lacre, abre a tampa e despeja todos os comprimidos na palma da mão direita. Sempre calmo, leva todos os comprimidos à boca e os engole com ajuda da água e certa dificuldade. O atendente observa tudo isso com espanto. A padaria está cheia.
O suicida finalmente senta-se num tamborete e, sempre calmo, morre ali mesmo, diante de todos.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

nocivo


repentinamente me tornei sujo,
nocivo,
algo a ser evitado
uma ameaça
vírus,
            de que se foge e não se comenta.

repentinamente me permiti sonhar
e por sonhar demais,
por vezes não vivi.

repentinamente,
(sobretudo) me condenei à vida
e por viver demais,
repentinamente me tornei nocivo
uma ameaça,
                       vírus


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O manuscrito

     No quarto do suspeito não foi encontrado nada relevante, com exceção desse manuscrito aparentemente incompleto. Não pretendo influenciar suas opiniões. Pouco vou dizer. Usem o bom discernimento que lhes foi dado para julgar esse delicado caso.
     Sem mais, o manuscrito:

     "Meu deus, que noite! Finalmente o sol está acordando, para meu alívio e conforto. Amigo, talvez você pense que sou um louco ou — na pior das hipóteses — que tomo seu tempo para contar uma mentira, mas lhe garanto: tudo o que vou (tentar) descrever agora acaba de me acontecer, nessa noite que se encerra com esses primeiros raios de sol e que já me parece tão distante — graças!
     Bem, estou hospedado numa humilde pensão. Bastante receptiva, agradável e, principalmente, barata. Realmente barata! Pago a quantia de R$200 por mês, com direito a quarto individual, café da manhã, sala de TV (que não frequento) e um maravilhoso quintal com uma goiabeira que nunca deixa de exalar seu forte perfume acre-podre.
     Mas essa pensão tem algo de curioso. Não existe forro! As paredes sobem — muito altas —, então há um espaço vazio e só mais acima está o telhado, com suas telhas e vigas de sustentação. A sensação é boa. Costumava me deitar e fitar esse teto longínquo, como se eu fosse uma pequena barata debaixo da cama e as vigas de sustentação fossem o estrado da cama e as telhas fossem a própria cama de algum ser muito maior que eu. Era agradável pensar que eu também era um inseto desimportante; me tirava do ombro todo esse peso que jogam(os) em nós.
     Tudo bem, tive momentos prazerosos graças à falta de forro sobre as paredes, mas nessa noite que acaba de passar, isso me trouxe consequências atrozes. Como de costume, deitei cedo. (Costume recente, é verdade.) Apaguei a luz — seu fio pende desde uma das vigas de sustentação até o meio do quarto — e me acomodei sem sono na estreita cama. Cruzei os braços, levando as mãos ao peito, como defunto, mas não em tom fúnebre; realmente me apetece essa posição. Dobrei a perna direita, erguendo uma montanha na sombra do quarto. Uma pequena fresta de luz invadia o quarto através de um furo na janela, então logo percebi  — através da dilatação das pupilas — que a montanha era apenas a minha perna dobrada e me decepcionei, como se não soubesse tal fato. O sono não vinha. Questionei a atitude de ter deitado cedo, pensei que poderia estar caminhando pelas ruas, mergulhado na fascinante surpresa de estar numa cidade de mulheres incríveis; pensei que poderia estar lendo ou escrevendo; pensei que poderia estar celebrando, bêbado... até que isso aconteceu.
     (Chego a um momento decisivo desse relato. Até agora creio que você não tenha levantado suspeitas acerca do que relatei. E creio nem ter dado motivos. Mas o que vou contar agora vai dividir opiniões. Os que acreditarem, me julgarão louco ou criminoso; outros me considerarão um farsante. Mas preciso transmitir esse peso a alguém e sei que não aguentaria fazer como os fortes — guardar o fato por toda uma vida e, então, na velhice retratá-lo.)
     Não passava de meia-noite. O sono não vinha, então passei a imaginar coisas. Sim, coisas. Coisas desimportantes, aleatórias, infantis, pervertidas... coisas. Eis que, no mesmo instante em que pensava coisas, sem sequer ter bocejado ou fechado os olhos por mais de dois segundos, comecei a levitar. Pois é. Levitar. Estava sóbrio há vários dias e com a certeza de que aquilo não era um sonho... Não era um sonho! Mas comecei a levitar, levitar, pude ouvir a cama estalar sob meu corpo flutuante, senti que meu corpo estava menor, como se comprimido por uma pressão diferente. Senti um certo arrepio pelo corpo todo, mas não frio ou pânico; aquele arrepio de expectativa, como se nossos poros estivessem abertos demais; arrepio que afeta, sobretudo, a região do cóxis. Me entende?
     Levitei até ultrapassar o limite invisível do forro e cheguei perto do telhado. Não tentei — poderia facilmente dizer que tentei —, mas sei que poderia ter tocado as telhas. Lá de cima, meio sem equilíbrio, meio sem entender nada, enxerguei toda a pensão. Toda a parte interna, naturalmente. Enxerguei dentro dos quartos e enxerguei o corredor que dava para a sala de TV e o corredor entre os quartos e a própria sala de TV. A garrafa térmica ainda estava sobre a mesa de café. Então reparei no quarto 2 (o meu era o 6). O quarto 2 estava ao lado esquerdo do corredor, como o meu, e entre nós estava o quarto 4. A luz estava acesa. Do quarto 2, digo. Notei que lá estava uma mulher e que a mulher estava nua da cintura para cima. Eu via facilmente seus seios. Sem esforço aparente e não sei de que modo, voei até o quarto 2. 
     A mulher estava sentada numa cadeira, de frente para a janela, de costas para a porta e o corredor, em frente à sua cama que estava abarrotada de bolsas, roupas, brincos, cremes e produtos de beleza. A mulher de firmes seios à mostra passava, lentamente e com a ponta dos dedos, um creme nas costas. Estava de cabelos molhados, acabara de sair do banho. (Aqui na pensão o banho é frio.) Passava o creme com uma suavidade incomum, como se soubesse que estava sendo observada e pretendesse seduzir seu observador. Despejou mais creme na mão direita e espalhou o creme no ombro esquerdo e no resto das costas. Trazia ainda aquela suavidade. Eu observava tudo lá do alto. Ainda me sentia pequeno, mas ciente da parte física do meu corpo. Meu sangue fervia e circulava, meu coração estava acelerado e eu estava tomado por um fervor cego e burro. Não por estar levitando, mas por estar espionando essa incrível cena! A mulher não era bonita... Não era bonita, tinha cara de empregada doméstica ninfomaníaca. Ou melhor... sem conceitos, sem nomes... Apenas uma mulher que precisa de sexo para sobreviver, como os outros que precisam de água e teto. Então os humanos são hidromaníacos ou tetomaníacos? A mulher exalava sexo. Tinha aparência grosseira, por isso mesmo disse que sua suavidade ao passar o creme me era estranha.
     Desviei o foco e notei um envelope pardo, tamanho A3, sobre a mesinha de canto. A curiosidade que me acometeu transpassava infinitamente a excitação pelo ritual do creme e pela sensação de voar. Era como se pressentisse que naquele envelope estava guardado...
     Sem escolha, fui levado de volta ao meu quarto, passando antes por sobre o quarto 4 — onde dormia um alcoólatra. Deitei novamente, não mais na posição de defunto. Sorri espontaneamente. Um riso audível mas discreto. Não questionei a natureza do fato, não pensava no mistério da levitação, estava apenas sexualmente excitado pela imagem da mulher. Me masturbei imaginando aquela cena fresca, adicionando algumas predileções e taras.
     Me levantei para limpar a mão. Tirei o armário da frente da porta — sim, adotei essa medida de segurança, a porta não tranca por dentro — e fui até o banheiro coletivo. Limpei a mão, lavei o rosto, bebi um copo d'água e conferi se ainda tinha café na garrafa térmica. Não tinha. Voltei para o quarto e, ao chegar à porta, estanquei. Olhei na direção do quarto 2 e notei, pela claridade de certa área do teto, que a luz estava acesa. Fiquei novamente excitado, cego e burro. O coração me rasgando o peito e o corpo arrepiado como se em alta expectativa. Você me entende?
     Fiz o que qualquer um faria, garanto. Com muito cuidado para não provocar ruídos com as solas dos pés, fui até o quarto 2, ao fim do corredor. Ela estava lá. A porta tinha um pequeno buraco e eu olhei. Eu lhe garanto, amigo leitor, garanto como garanto que nasci no Brasil, ando sobre duas pernas, enxergo com dois olhos e amo como amam os abutres. Eu lhe juro, a mulher estava nua da cintura para cima, de costas para a porta, passava creme no ombro direito, usando a mão esquerda, e fazia isso no mesmo ritmo delicado e sensual. Não acreditei quando vi. Tirei os olhos do buraco da porta, ajeitei o cabelo por algum motivo, mexi as pernas e, estupidamente, provoquei um ruído altíssimo. Altíssimo para o silêncio do horário. Congelei. Em seguida senti meu corpo ferver, o calor subiu às têmporas e senti que não tinha cérebro, senti que era feito de algodão. Quis voltar para o quarto antes que fosse tarde, mas só o que consegui fazer foi olhar novamente pelo buraco da porta e nesse momento a mulher usava a mão direita para passar o creme de modo sensual no seu ombro esquerdo. 
     Não me ouviu. Logo, pegou um espelho portátil e passou a espalhar um creme pelo rosto. Num relance vi seus olhos pelo espelho e parece que me olhava. Nossos olhos certamente se cruzaram, mas não sei se ela me notou através do pequeno buraco da porta. É provável que não. Mas olhou como se olha para algo específico e logo voltou os olhos ao rosto refletido. Repousou o espelho na cama, largou os cremes e pegou um folheto. Provavelmente um catálogo de novos cremes e cosméticos. Segurava o folheto com a mão direita e com a esquerda mexia lentamente no cabelo, naquele mesmo ritmo instigante. Então tive uma ideia brilhante! Pensei algo que me tiraria a breve dúvida sobre a levitação; agora que estava sobre minhas duas pernas — uma das poucas certezas que tenho — e certamente lúcido, busquei através da fresta o tal envelope pardo que havia me chamado a atenção. Foi difícil. A fresta era muito pequena, não me revelava um grande campo, mas para minha surpresa, estranha surpresa, o envelope estava lá! Exatamente no mesmo lugar que estava anteriormente. Surpreso, senti medo. Como se até agora eu estivesse encarando o episódio da levitação como um incomum sonho lúcido, mas ao perceber que o envelope realmente estava lá, isso caía por terra. Mas na verdade, como já devo ter dito, era impossível encarar como um sonho, porque eu estava acordado, então percebi que ainda não tinha realmente pensado sobre isso.
     Eu estava ali, diante daquela porta. Diante daquela mulher diante do espelho. Diante de uma dúvida absurda e de um corpo semi-nu. Agi por impulso e empurrei a porta. Cedeu facilmente. A mulher seguia ali de costas, lendo o folheto e mexendo no cabelo. Encostei a porta que, mesmo tendo emitido aquele ruído comum a portas, não despertou a atenção da mulher. Dei dois passos curtos e estava quase roçando suas costas nuas, quando ela me notou pelo espelho que estava na cama. Deu um pulo, literalmente um pulo, e se virou. Foi da cadeira à cama, tendo quase derrubado a cadeira. Eu impedi que a cadeira caísse provocando um estrondo que acordaria os hóspedes. Olhei para ela, que me olhava não sem demonstrar medo. Estava inclinada, os braços paralelos para trás, sustentando o peso do corpo. Então seu semblante mudou. Me olhava como um animal. Inclinou mais ainda seu corpo, quase deitando, e me olhou de modo ainda mais desafiador. Queria sexo. E queria ali mesmo, naquele momento. 
     É verdade que eu havia acabado de me masturbar e gozar pensando nela, mas me senti excitado outra vez. Estranhamente, hesitei. Não fui em sua direção. Tive medo. Medo que ela gritasse, medo de passar por estuprador, medo de cair em alguma cilada da minha mente...
     Ela se sentou na cama e logo desabotoou o shorts que vestia, no ritmo que você já conhece. Deixou o shorts cair no chão e, só de calcinha, me olhou novamente, agora sem ameaça, mas uma nítida vontade de ser castigada — não o castigo do criminoso, mas o castigo da criança que passou um trote e foi descoberta. E apesar de excitadíssimo, não consegui avançar. Ela percebeu minha recusa e, nublando a expressão, se vestiu rapidamente, quebrando todo o encanto. Vestiu o shorts e, pela primeira vez, uma blusa larga e velha. Finalmente pareci despertar do transe do medo e disse 'não... eu quero agora.' com uma voz que saiu baixa e fina demais. Me senti um adolescente na puberdade e ela gargalhou, jogando a cabeça para trás. Veio na minha direção e, como se faz com um cachorro sarnento, me enxotou. Eu vi pena em seu movimento. Vi pena em seus olhos que não mais me encaravam e tentavam esconder o riso.
     Não cedi. Agarrei em seus braços e a joguei na cama. Arriei o shorts que uso para dormir e avancei em sua direção, como um alasão que irrompe num vasto campo aberto e o rasga em dois. Ela relutou, fez cara de raiva e me empurrou, exalando um grunhido entre-dentes. Tive medo que ela gritasse, então disse: 'Tá, eu saio, mas antes me diz uma coisa. O que tem naquele envelope?' e antes que ela respondesse, vi tudo duplicado. Vi dois quartos, duas dela, duas camas, dois envelopes, dois espelhos... Sobrepostos e em tons diferentes. Senti tontura e creio ter desmaiado.
     Acordei no meu quarto, o armário barrando a porta por dentro, do jeito que havia deixado, de shorts e com sede. Senti raiva. Ainda parecia preso à mesma realidade, com os mesmos pensamentos, a mesma temperatura ambiente, a mesma fresta de luz invadindo meu quarto, o mesmo teto sem forro... Não tinha sido um sonho. No entanto, acordei já tantas vezes e não consegui me livrar disso. 
     Tirei o armário da frente da porta, saí do quarto e, sem me preocupar com o barulho, andei até o quarto dela e espiei pela fresta. E ela estava lá, passando creme nas costas com a mesma suavidade! Empurrei a porta sem delicadeza e ela gritou. Gritou alto, altíssimo. Um berro gutural que deve ter acordado metade do quarteirão. Vi pavor nos seus olhos, então me fingi de bêbado e disse 'desculpa, eu errei o quarto! também durmo aqui na pensão'. Encostei a porta e voltei ao meu quarto. Acendi a luz e me deitei, coberto. Estava em pânico. Enxergava tudo claro demais. Eu poderia ser denunciado e ninguém acreditaria no meu relato! Mesmo porque, muito se parece com uma peça de mau gosto. Um velho clichê. Sequer é criativo, mas, no entanto, é verídico... Então percebi uma verdade humana. Não importa que você fale a verdade, você deve falar o que é mediano, o que é comum. Você deve falar apenas o que uma mente comum é capaz de compreender. Ou melhor, deve falar o que uma mente comum já ouviu alguém falar. Não se pode surpreender. Ainda mais nesse caso. 'HOMEM INVADE QUARTO DE MULHER EM PENSÃO'.
     Preparei meus ouvidos para que percebessem qualquer mínimo ruído. Fiquei muito tempo imóvel. Realmente imóvel, meus nervos pareciam travados. Mas nada ouvi. Fui relaxando aos poucos, ignorando a sede e, assim, caí no sono.
     Quando acordei, ainda era noite. Uma poça de suor estava sob as minhas costas; o colchão — sem lençol — parecia querer me expulsar dali. Não foi com surpresa que lembrei dos fatos que me atormentavam já há algumas horas. Ainda estava tudo fresco na minha memória e a sensação era a mesma: implacável, cansativa e incômoda. Senti vontade de chorar. Não de tristeza, mas desespero. A despeito disso, um silêncio leve pairava. Eu já não parecia mais agir por conta própria, simplesmente tirei o armário da frente da porta e saí do quarto. Parado, olhei na direção do quarto dela. A luz estava acesa. Decidi, antes de tudo, beber água. Fui até a sala de TV (a mesma do café) e enchi um copo com água gelada. Bebi de uma vez.
     Voltei lentamente para o corredor dos quartos, talvez querendo adiar o dilema, talvez esperando que ela tivesse apagado a luz nesse ínterim. Mas não. Quando cheguei lá a luz ainda estava acesa e era possível ouvir um barulho advindo do quarto 2. E essa certeza era plena, porque o 2 era o único quarto com a luz acesa.
     (Os leitores mais atentos poderão perceber que nada impede um cidadão de emitir ruídos no escuro e que minha fixação óbvia pelo quarto 2 foi quem estabeleceu a plenitude dessa certeza.)"

  
     Nota: nessa parte do manuscrito há uma rasura. O rapaz tentou apagar esse trecho: 'Meu deus, às vezes a minha inteligência me excita mais do que qualquer moça passando creme nas costas ou se masturbando em público!'
     E mais algumas rasuras que realmente deletam do manuscrito cerca de duas linhas de palavras.
     O manuscrito segue:

     "Decido abdicar desse embate. Resisto à tentação de checar outra vez a hóspede do quarto 2. Penso que será melhor tentar enterrar esse assunto. Quando me tranco novamente em meu quarto, de luz acesa e sentado na cama com um exemplar de Pais e Filhos, sinto uma paz quase inédita. Percebo cada detalhe do quarto. A lâmpada que pende lá do alto, os pregos enferrujados nas paredes, algumas roupas pelo chão, a mesinha de canto... tudo calmo e no seu devido lugar. Pareceu que o tormento havia acabado, mas quando abri aleatoriamente em alguma página, senti como um choque no cérebro. Como se um novo sentido brotasse em mim, além dos cinco conhecidos. Senti uma afluente que de súbito nasceu e me arrombou o cérebro, me deixando tonto e desesperado. Dói. Largo o livro e pressiono as têmporas com muita força; elas parecem duras e inchadas. Pressiono meus olhos com a palma das mãos, torno a pressionar as têmporas, nada adianta.
     No negrume infinito dos olhos fechados, vislumbro borrões e flashes que logo adquirem forma: animais, lâmpadas, correntes, cachoeiras, bolas de ferro, borrachas escolares... Abro os olhos e tudo parece normal. A dor simplesmente não está mais lá. Estou sentado na minha cama, suado e improvável. Parado, mexo apenas os globos oculares. Confiro os redores, testo meus cinco sentidos. Tudo parece seguro, mas agora enxergo com certa nitidez e parece que todos os meus conceitos aprendidos e inventados levam a uma simples pergunta: Me tornei lúcido ou assumi a outra face?
     Essa dúvida cruel; a linha que separa loucos e sãos, o paradigma dos psiquiatras, a pergunta que meu tio esquizofrênico não faz mais a si, porque teria como resposta a segunda opção. É impossível saber. De tudo isso, o que foi real? O que é O Real, senão um aglomerado de percepções brutas, moldadas por pré-conceitos, filtradas por cinco sentidos limitadíssimos, resumidas por palavras — códigos inventados não há tanto tempo assim — que só cabem em um dos cinco e limitados sentidos, graças à necessária estupidez de Galileu, que só nos faz enxergar por comparações. 
     Crer n'O Real como aquilo que se percebe é tão estúpido quanto crer na supremacia do ser humano. Esse mesmo ser humano que em centenas de milhares de anos ainda não conseguiu escapar dessa bolinha de gude que é a Terra (o recôndito dos estúpidos), que é um átomo de uma outra bolinha de gude, que..."

     E assim se encerra o manuscrito.
     As buscas já estão sendo realizadas. Ele não deve estar muito longe daqui.
     O que os senhores acham? O rapaz merece a cadeia? É louco? Deixou esse extenso manuscrito com a única finalidade de despistar as buscas? É culpado pelo crime que cometeu e não chegou a relatar?
     Não sei quanto aos senhores, mas enxergo um bocado de verdade nessas palavras...
     Façam o seu julgamento.