quarta-feira, 10 de julho de 2013

Esgotado, esgotado

Acordei, bati uma punheta triste e gozei na cara da solidão.
Depois fiquei simplesmente deitado. Imóvel. Mais um dia pra enfrentar… é isso.
A porra fica rala e me escorre pelo braço; não me abalo. Permaneço ali, estático. É terrível quando já acordo assim, de uma certa forma amarrado à cama. Sem força, ânimo ou motivo.
Ninguém disse que seria fácil. E eu ainda tentando do jeito mais complicado. Pura ilusão. Sim, moro sozinho e pago meu próprio aluguel aos 21 anos. Grande merda. Se não consigo resolver isso aqui dentro, ainda não conquistei nada. “Ou quase nada.” Pego um pedaço de papel e anoto uma frase que me ocorreu. “Acordar é o pior dos pesadelos.”

É quase engraçado. Você vê que tá mesmo no fundo quando o suicídio parece a única opção positiva. Mas falta coragem. E disfarço a falta de coragem com uma suposta esperança na vida. Mas os ditos bons momentos são apenas… aceitáveis. Não maravilhosos. Viver realmente não vale a pena. A onda vital avança metros abaixo da linha zero. Sua amplitude é enorme mas emerge dessa linha apenas uns centímetros – ignorando qualquer lei da física –, como um anfíbio que coloca os olhinhos e o nariz pra fora da água.
Bem, eu poderia apenas não pensar, mas é impossível. “Preciso me mexer”. Levanto num pulo, cumpro meu papelzinho de ser humano (me visto, mijo, fecho uma porta, lavo a mão, tão comportado, tão inofensivo, calço a porra do tênis) e saio de casa sem ter ideia do que posso fazer.
Tranco a porta e ganho a rua. 
Não. Ganho não é a palavra certa. Simplesmente ando por aquela porra. Faço um esforço e me lembro: é domingo. Embora domingo seja um dia tão absolutamente característico. Os sons, a luz do sol, as ruas, a disposição das coisas – tudo isso é característico num dia de domingo. Não preciso mexer muito na memória. Menos ainda pra lembrar: não tenho um centavo. Meu pagamento cai em duas semanas. Até lá tenho um pouco de farinha de milho, acho que meia lata de óleo, talvez até um pouco de arroz, mas não tenho gás pra cozinhar. Nessas situações, a pior opção é se enfurnar em casa. Nos faz confrontar nossos demônios; nossa casa é como um enorme espelho: tudo ali são pedaços de nós. Provas do nosso caráter, da nossa incompetência. O melhor remédio pra esse estado de negro espírito é observar e absorver a grama do vizinho, que é sempre mais verde. Sim, isso quando você tem coragem pra sair de casa. Confesso que me sinto aliviado quando ainda guardo essa faísca no bolso.
Vago devagar, divagando, enquanto tento enxergar o maior número de casas, banhadas pelo sol dominical, tranquilas, tão receptivas. Sei que se morasse em qualquer uma delas teria ali meu inferno, mas evito esse pensamento. Forjo a plenitude. Chego na avenida de baixo e sigo até minha zona de conforto. Começo a sentir fome. Acabo de lembrar que ainda tenho um ticket promocional de café da manhã. Tenho quase certeza de que tá no bolso dessa calça. Vasculho e, sim, encontro. Quem diria! É verdade que esse ticket só dá direito a um patético pão na chapa e um copo de café, mas pra quem achava que passaria o dia em jejum…
Posso já prever o gosto. Primeiro uma mordida no pão, mastigo um pouco e dou um gole no café. O pão vai ficar bem macio dentro da minha boca e com um gostinho doce. Incrível! Praticamente me esqueço que estou na areia movediça. Passo pela porta sentindo aquele cheiro característico de óleo sujo e me dirijo ao caixa, vazio. Parece que minha sorte começa a mudar.

Oi, apresento meu ticket, queria o café da manhã da promoção.
Senhor, não tem mais o café da manhã.
Ué, por quê?
O café é só até as 11h, senhor.
E que horas são?
São 11:05h, senhor.
Por causa de cinco minutos você não vai me servir o café da manhã?
Desculpa, senhor, já foi tudo recolhido, algo mais em que posso ajudar?
Não.

Saio dali. Continuo andando. Totalmente vazio. “Se pelo menos eu tivesse meu bilhete de ônibus e metrô…” Essa região é horrível pra caminhar. Rodeada de grandes avenidas, marginais, pistas automotivas. É uma área bem desumana. Além do quê, quanto mais desgaste, mais fome.
Que situação, economizando energia como um urso polar no inverno mais rigoroso. Pelo menos se estivesse frio… mas não. Um calor desgraçado e eu cheio de casaco. “Como poderia adivinhar? Na minha casa o frio era forte.” Então faço o que, no fundo, sabia que faria: sento num ponto de ônibus. A melhor opção pra quando se está assim, vazio, sem perspectiva ou sorte. Você não fica em evidência, suspeito, marginal; pode descansar, fingindo que espera o ônibus e ainda passa por cidadão comum. Ótimo lugar pra se sentar e ficar só observando, e eu acabo de observar uma loira deliciosa do outro lado da rua. Também num ponto de ônibus. "Será que ela sabe o quanto é gostosa?" Provavelmente. Mas não sabe que nesse momento tem um pau endurecendo por sua causa. Cruzo a perna, bem fechado, como mulher, e fico balançando a perna pra estimular o pau. Fica realmente obsceno. Cubro com os braços, sigo mexendo a perna. A loira tá de pé, de costas pra cá, conversando com duas mulheres que sentem inveja dela, dando passinhos daqui pra lá, de lá pra cá, se abaixando pra rir, se curvando pra ver se o ônibus se aproxima. Veste uma calça preta, dessas de ginástica, e a essa distancia a calça parece meio transparente, ainda mais pela ajuda do sol forte. Percebo que não sou discreto. Nem um pouco, aliás. Pareço um obcecado. Um voyeur. Mas de repente sua bunda me parece meio patética; a sombra formada pela calcinha e o próprio formato da bunda desenham uma espécie de âncora ali. A calcinha é o corpo da âncora e a borda da bunda mais o espaço entre as pernas formam a parte de baixo da âncora. Pode ser um sorriso também. Fico variando. Meu pau amolece aos poucos; daquela bunda sai merda. Merda. MERDA. Cocô. Fezes, peido, cheiro de cu, suor, pêlos. É só uma parte do corpo humano. Todo mundo tem isso, até eu tenho. Você tem, sua mãe tem, Nelson Mandela tem!
Preferia quando a bunda era um refúgio e tento esquecer tudo isso e a âncora, mas não consigo. A bunda continua patética e ela acena pro ônibus que para, encobre sua imagem e segue. Busco outras distrações. Caço outras pessoas por ali, olho pro meu lado esquerdo e noto um casal dividindo uma bicicleta, mas o curioso é que a garota é quem pedala e guia, o imbecil vem sentado atrás, naquele apoio que algumas bicicletas têm. A coitada parece fazer muita força, tá sem equilíbrio, tadinha! Como um cara desses tem coragem de mostrar a cara em público? Quando estão já bem próximos dou uma encarada severa entre as pernas dela. Pra buceta mesmo. Está de saia. Longa, é verdade, daquelas meio hippies (a moda hippie voltou), mas é suficiente pra fazer meu queixo tremer. O cara percebe que eu olhei, nubla a expressão e me encara. Retribuo com frieza no olhar. Eles passam por mim e o garoto vira pra trás – como um homem que se vira pra olhar a bunda da mulher que passa ao seu lado na rua – tentando me intimidar. Já não tenho vontade de olhar pra eles, mas não desgrudo o olhar pra que não pareça que ele venceu. Por fim desiste, posso já olhar pro outro lado.
Meu estômago se manifesta. Ronca alto. Meu humor despenca. O sol parece ainda mais quente e claro. Quase desértico. Avisto dois garotos aparentemente retardados que se aproximam com uma bandeja de frango assado. Cada um carrega uma. Cristo, por quê? Eu pensava ser o escolhido, o novo messias, e o senhor faz isso comigo? É um teste? VAI TE FODER, ENTÃO! VAI TESTAR O CARALHO! Esses dois imbecis merecem devorar um suculento frango assado nessa manhã patética de domingo E EU NÃO?! Estão a menos de cinco metros de mim. Cinco metros agora, cinco minutos lá atrás. Sempre quase. Cobiço as bandejas de frango, invejo suas sortes, tudo parece muito silencioso enquanto devoro o frango com os olhos, os carros passando na avenida não emitem som, as bocas estúpidas das pessoas se movem mudas, até o sorriso satisfeito e maldito desses dois comedores de frango sai silencioso, mas não depois que passam por mim e um deles joga NO LIXO um pedaço enorme de frango e logo depois, quando passam pelo portão da concessionária, o outro arremessa um pedaço pros cachorros. Não pode ser verdade. Não é possível. Fico indignado com essa situação e faço o que nunca pensei que pudesse fazer. Me levanto e vou até o lixo. Hesito. Olho pros dois lados; muita gente me conhece por aqui. Moro aqui e trabalho aqui. Ficaria feio se me flagrassem enfiando o braço no lixo atrás de comida. Mas aparentemente nenhum conhecido por perto. Procuro o pedaço de frango no lixo e fico de certa forma aliviado quando percebo que é apenas carcaça. Osso. Sem carne. É o tórax do bicho.
Sentar novamente no ponto de ônibus me parece uma ideia absurda. Fujo dali envergonhado e faminto. Caio na marginal.
Opto por um caminho inédito. Passo por distintos prédios residenciais, cobertos por cercas e muros e portões. Ironicamente, passo pela porta de um restaurante que começa agora a servir o almoço. Devo aparentar a fome que sinto porque o segurança do restaurante me encara, me bloqueia o sonho de um delicioso e fumegante prato. Sinto uma contração no estômago, fico tonto, muito calor, muito claro, muitos  carros transitando. Tão potentes, velozes, sem fome. Não notam a minha existência, são superiores. Entro numa região desconhecida com grama, árvores, ladeiras, carros, carros, carros caros, casas caras. Finjo que é tudo um delírio e quase acredito nisso porque a claridade excessiva, o calor excessivo, a exaustão e a fome me turvam a visão e também a compreensão e interpretação do mundo todo. Viro à esquerda, atravesso a rua, desço uma ladeira e chego a outra avenida, então reconheço o território. “Se eu seguir essa avenida vou dar na ponte. Se continuar firme, chego na Paulista.” Sigo. Passo por uma pracinha agradabilíssima e decido me sentar, parece o Éden, mas por algum motivo não paro, sigo em frente, triste, e quase sou atropelado. O cara enfia a mão na buzina, mesmo já tendo passado por mim. Isso me deixa profundamente irritado e mostro a porra do dedo do meio tremendo de ódio. Sigo. Tenho que decidir logo se subo ou não a ponte. Subo. Passo aqui a pé pela primeira vez. Até então, só de ônibus. O corredor reservado ao pedestre é aconchegante. Separado da pista por um muro de concreto com aproximadamente um metro de altura. Finalmente paro. Encosto na grade de proteção, de costas pros carros que passam me olhando, sinto. Abaixo de mim passa um rio. Ao lado, uma ciclovia, paralela aos trilhos de trem da estação. É domingo. Eles têm permissão pra pedalar. Quer dizer, a ciclovia é aberta todos os dias, mas domingo é o dia que lhes é reservado a se dar esse prazer, afinal são pessoas maduras, sérias. Durante a semana é trabalho. Onde já se viu… Andar de bicicleta durante a semana! Ninguém aqui é vagabundo! Mas hoje é domingo. Hoje pode. E daqui posso olhar sem pudor pro meio das pernas das ciclistas. “Nossa, sou uma criança pervertida” e um cara passa por ali me olhando, curioso e preocupado: Nossa, será que ele vai se jogar? Caramba! Que doidão, parado ali no meio da ponte! Aí percebo uma fila de lixo correndo devagar pelo rio. É curioso, o lixo parece muito organizado, correndo ali no espacinho que lhe é permitido, como os ciclistas pedalando dentro dos limites da ciclovia, os carros transitando entre as faixas e muros de proteção, os trens que transportam passageiros ininterruptamente pelos trilhos. Tudo em movimento. Seguindo o fluxo. Dentro dos limites estabelecidos. Eu parado ali pareço errado, quase obsceno, vulgar, perigoso. Sou como um câncer, um abscesso, algo que deve ser olhado e examinado com curiosidade e grande atenção. Posso ser um suicida, posso ser um bandido, um vagabundo. No entanto, só estou parado, quietinho, sentindo certo prazer depois de muito tempo de espera. Recebo do sol – totalmente desimpedido por nuvens – sensação idêntica à da infância, na praia de Santos. O chiado do mar (aqui é rio), o burburinho dos banhistas e bolinhas de frescobol (aqui é trânsito), o excesso de luz e calor que é idêntico em ambas situações. Viro e olho um pouco pros carros que passam ali na ponte; pareço estar na estrada outra vez. Vejo os motoristas pelo mesmo ângulo que via quando praticamente implorava por carona no sul do país, e a indiferença com que me tratam agora é exatamente igual. Me vêem aqui, mas tentam evitar que eu perceba, afinal, posso ser uma ameaça. Seguem suas vidas, eu sigo a minha.
Sigo.


terça-feira, 9 de julho de 2013

sábado, 25 de maio de 2013

Naufrágio

Metíamos num colchão no chão. Sem amor. Metíamos como quem castiga ou pratica exercício e eu só pensava em encerrar. Ambos fingíamos. 
Gozei.
Encenei algum afeto — emprestei amor aos meus olhos — e virei para o lado, na busca de algum tecido que limpasse a cena; dei de cara com seu absorvente sujo e ainda úmido. Não consegui desviar. Encarei aquilo por alguns segundos e o que me incomodou, afinal, não foi o sangue, mas o aspecto daquela fraldinha ridícula, tão humana, tão comportada, tão indefesa e patética. Covarde, com suas abas que nunca prendem direito, embora grandes demais.

— Ai, não olha! — ela disse, movendo-se bruscamente como quem se assusta.
— Não olha o quê? — dissimulei. — Só tava procurando alguma coisa pra te limpar! 

"Só tava procurando alguma coisa pra te limpar", repeti no pensamento. "Parece que eu falo com uma criança". 
Nisso, olhei de volta em seus olhos mas não consegui fixar. Fui repentinamente tomado por aquela tristeza que você, leitor, conhece tão bem — naufrágio num peito seco.
Finalmente ela se levantou, catou sua roupa e foi ao banheiro, contíguo ao quarto.
Deitado, vazio e mirando vagamente o teto, fingi não ouvir seu grito que dizia "Quer vir tomar banho comigo?".

Então fechei os olhos e vi um mosaico nascer.


sexta-feira, 24 de maio de 2013

Inventário


Olhos que já quase não enxergam
Dedos que não se movem mais
Um joelho operado; o outro, por pouco.
Sequelas dos anos que já...

A saudade da primeira sapatilha — tal como deveria ser
Fotografias em que surgem estranhos tão próximos
Almoços ainda não digeridos,
Encontros efêmeros cogitados na correria de uma esquina —
sequer atravessaram a rua.

Algumas cartas: já não é certo se fictícias ou não — costumava brincar de ser Elisa.
Velórios
Reencontros tardios
E a certeza de um reencontro que jamais...

Tantas tralhas.
Carteiras, medalhas inúteis, enxovais, conchas, terços, ingressos de cinema,
lembranças de momentos puros que teimam em permanecer vivos
ou abscessos de momentos rasos que fingem ter existido.

O futuro passou.

E o presente segue firme,
Implorando ao passado os cadernos repletos de rascunhos —
Esboços de uma vida atrofiada,
O saldo de uma vida inteira.


Um casal dócil



Eu já tive 16 anos.
Eu também já amei assim.
Dócil. De brincar como filhote mamífero.
Mas acaba. E não ouso avisá-los.
Observo, invejoso.

Ah, esse amor puro
de fresco hálito!
De pensamentos que não se perdem
com transliteração, por compartilharem idioma:
o mais sublime de todos.

Esse amor de alugar qualquer filme
à tarde, comédia, terror,
importa?

Quem vai dar o primeiro tiro,
não sei.
Ele, traição
Ela, desinteresse…

É penoso não conseguir
apenas admirar esse amor de namorados
sem ressalvas, sem alertas.
Mas já inevitável.
Eu não tenho mais 16 anos.
Já não consigo amar assim:
macio, liso, puro.

Guardo em mim
pouco de mim.
E tento salvar o que restou.

Dúvida, frigidez, ressalva...
Sexo: carne fria massacrando carne fria.
Sem vontade, encanto,
amor assim.

“Que na verdade ainda não é amor”,
é o que afirmamos,
numa tentativa vã de driblar nossa incapacidade
de amar plenamente.

Será o amor um dom reservado aos jovens?
Os jovens, que pouco sabem
e muito pensam que sabem.

Sabem amar apenas.
(Apenas?)
Esse amor cansado de adjetivos
que observo, capto, invejoso.


Mosaico

     "Devo ir ou não?" ela me dizia, referindo-se à faculdade. Respondi vagamente, contraindo a parte inferior da boca e erguendo os ombros "Cê que sabe... vai ter algo importante?", não tendo ainda percebido que ela gostaria de me ouvir falar "Não vai. Fica aqui comigo."
     Ela indo ou não, ainda tínhamos tempo. Eram quatro da tarde e fazia muito sol. Estávamos no seu quarto, esparramados sobre dois colchões no chão que se separavam facilmente, fazendo com que nossos corpos quentes tocassem o piso frio. Nos conhecíamos há três horas.
     "Sabe", eu disse, "eu me sinto bem. Sei que isso pode parecer banal, mas passei por momentos realmente terríveis recentemente. Sinto como se a vida finalmente tivesse me recompensando pelos testes sádicos". Ela sorriu e pareceu não ter entendido. Levantou as sobrancelhas, como de costume, e afundou sua cabecinha entre os ombros, como um brinquedinho de armar, e bastasse um toque para que sua cabeça pulasse. Peguei-a pela cintura e rolamos para a direita até que eu ficasse em cima dela, dominante.
     Me olhou, impassível. Novamente ergueu as sobrancelhas e não pareceu se importar com a condição de recessiva. Trajava um riso meio sarcástico, que mais suscita do que revela. Meus braços tremeram um pouco por apoiarem totalmente o peso do corpo. Lentamente, me deitei ao lado dela, de lado, o cotovelo esquerdo dobrado e o braço arqueado, sustentando-me a cabeça que estava leve. Com a mão direita acariciei seu umbigo, levantei sua blusa aos poucos – atalho que havia descoberto recentemente – e olhei dentro dos seus olhos. Ela desviou o olhar, tímida. "O jeito que você encara é muito estranho. Parece que você olha dentro da gente, roubando alguma coisa!".
     Já não era a primeira vez que eu ouvia isso. Aliás, ouvia isso com frequência.
     "Ai, Deus, vou ou não vou pra faculdade?", "Não vai. Pronto. Fica aqui comigo hoje!", então pareceu aliviada e disse, como já tivesse arquitetado há tempos "Tudo bem. Hoje eu fico aqui, aí amanhã eu saio mais cedo de casa e resolvo o que eu tenho que resolver, depois vou direto pra aula".
     Assenti silenciosamente, percebendo que ela já havia estabelecido que não iria à aula, esperando apenas o meu aval, dividindo a culpa da negligência.
     Silêncio. O ventilador nos soprava, brando. Fazia calor, um calor envolvente, tenro, com pequenas sugestões de ardor. Eu olhava para o céu através da janela entreaberta. Uma única nuvem de muito contraste e contornos ilustrava o centro da imagem. Era pequena. Muito acima, separadas pelo azul leve, um emaranhado de nuvens disformes, quase dissolvidas, que formavam então uma visão onírica; um tipo de passagem para algum lugar, coroando a imagem da pequena nuvem obstinada.
     "Você já reparou nessa janela?" ela perguntou, me cortando o pensamento. "Olha esse desenho que ela formou".
     A janela era revestida por um tipo de adesivo azul escuro, de certa forma translúcido, repleto de riscas. Riscas largas como rios num mapa, riscas estreitas como suas afluentes. O conjunto de riscas formava um mosaico medieval, como a estampa de um brasão ou o fundo de uma bandeira nobre. Muito bem pensado e trabalhado. "Foi o sol que fez isso com o adesivo. Não sei como, mas foi o sol. Esse adesivo era inteiro preto quando eu coloquei".
     Era difícil de acreditar, no entanto, ela falava a verdade. Falava num tom de inocência, como alguém que realmente não compreende algo mas não questiona, apenas admira. Eu me sentia bem. Constatei que a lembrança daquela tarde, com aquela garota recém-conhecida, naquele quarto arejado e claro, sobre os colchões no chão, em frente ao ventilador, logo depois de ímpares momentos a dois e observando o mosaico natural... constatei que aquela tarde me fixaria a memória eternamente.
     Pensei em lhe dizer isso, mas preferi apenas me deitar sobre ela e dizer o quão bonito era o seu sorriso.

a morte do amigo

era uma pessoa incomum o meu amigo.
se não choro sua morte – ainda – é porque sei que ele não choraria se a soubesse.
e sei também que ela veio a seu convite.

preciso ser breve.
sei que em instantes vou compreender sua morte. e desabarei.
então chorarei ininterruptamente.
chorarei por saber o que só eu poderia saber. chorarei porque fui sua última testemunha. chorarei porque vi seus olhos imprudentes e destrutivos
naquela noite.
chorarei por ter recebido a notícia cinco dias depois de consumada a sua morte.
chorarei porque era ele, e meu choro tem permissão para ir e vir.
chorarei lembrando do que só eu poderia lembrar.
nossas aventuras imaturas desbravando o país; chorarei nossos momentos de caos e ordem.
até os debates insuportáveis terão mais harmonia em meu pensamento triste.
chorarei por ter adivinhado sua morte, sendo o telefonema apenas a confirmação.
chorarei pensando que poderia ter impedido.
(sei que não poderia.)
e seria injusto porque era a sua vontade.
e sempre dói pra quem fica.
ainda dói sem lágrimas e sei que essa dor ainda não é dor.

poderia ter sido daquela outra vez, poderia ter sido na praia, poderia ter sido naquela casa absurda, naquela vila de pescadores,
do alto daquela cachoeira – aqui teria sido eu –, poderia ter sido soterrado, por tiros no meio do mato, overdose, suicídio… até que demorou.
nós a procurávamos juntos. incessantemente.
a morte.
ele a encontrou. e talvez volte para me dizer “olha, desencana, é a mesma merda, só que morto” e eu diga “ah, tudo bem, então vou ver se encontro algo pra fazer por aqui, forte abraço”.

respiro.
impeço que os olhos façam seu trabalho.
está quase na hora.
sua morte merecia o melhor dos poemas, mas a vida também não anda fácil.
bloqueio os olhos mais uma vez.
mas é inútil. as lágrimas virão. aliás, já estão aqui,
à espera do ponto final.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

A mulher mineira

Existe qualquer coisa de fantástico na mulher mineira.
Talvez o rostinho de formiga submissa
ou a apodítica ingenuidade.
Pernas fortes de subir ladeira,
o sotaquinho tão gracioso, ou esse próprio inho.

Existem também as desabrochadas —
tão minhas em minhas memórias.
Carregam essas no olhar algo inalcançável à mulher paulista.
Um tipo de riso sarcástico quase secreto por se saber acima.
Um desleixo espontâneo.

E então as jovens?
Exalam vida como orvalho!

É impossível caminhar por ruas mineiras e não amar.
Quase todas e cada uma delas.
Além disso, existe um certo traço grosseiro de inteiras palavras,
comum às mulheres de interior.
No entanto, têm classe.

Modigliani seria incapaz de pintar a mulher mineira.
(Eu garanto.)
Assim como creio ter sido incapaz de descrever o que essas amostras de Madalena
provocam em mim.

Montes Claros/MG, fevereiro de 2013                                                                         

maioridade

uma menina assustada
cheia de tiques, temores e traumas,
cheia de certezas e páginas cheias de certeza protetora.

uma menina sabida
que vai ao banco e se tranca,
que tem pudores, medo, fotografias na janela, tiques, traumas,
meias-páginas de incertezas e máximas.

uma menina 
flexível, pequena, pequeníssima!
assustada e retraída
com lentes que não vêem o mundo à volta,
o mundo à frente, o mundo que a justifica.

uma menina com lentes
que enxerga, que enxergam, 

que enxergarão páginas cheias de páginas,
mas, por pudores, evitarão as páginas

cheias de verdade.

sábado, 2 de março de 2013

Ciclo morto


Quis morrer no parto
Para encerrar um velho ciclo.
Sobreviveu.

Amaldiçoou a sorte,
Perdoou a filha —
Última de um velho ciclo.

Por doze anos ainda viveu submersa em si
E compreendeu:
Amar é querer ser absorvido inteiramente.


sexta-feira, 1 de março de 2013

Néia

Venho pensando em Néia.
(Néia é gentil apelido; seu nome é Geneilza.)
Mas Néia é apelido. Seu nome ela não revela.
Eu respeito. É nome que pesa em seus 32 anos
e rosto de anjo labutador, engrossado pelo sol nordestino e suas mazelas.
Néia é mulher.
Se fosse ovelha, seria negra.
Se fosse velha, morreria em mim.
(Estou rondando certo lirismo por não saber como dizer que Geneilza ejacula
e que seu gozo me inundou o sono essa noite.)

Mas Néia vive.
Por sua fibra de baiana maltratada e sonho incubado.
Por sua fibra de mãe solteira e ex-marido obsessivo.
Néia me levou além das outras.
(Leia-se: Néia trepava melhor que todas.)
Seu rubor me aqueceu uns dias de fome;
Seu néctar (seu gozo) me adoçou umas noites de insônia,
quando as noites se mostravam duras demais.

Mas nosso último encontro foi frígido —
justamente por isso foi o último —
e Néia fugiu furtiva, pra nunca mais me extasiar.
(Leia-se: e Néia fugiu furtiva, pra nunca mais me extasiar.)


                              Montes Claros/MG, 19 de janeiro de 2013


Poema escrito enquanto eu olhava para baixo


Terá o abstêmio alcançado a plenitude
      Precocemente?

Amigo, posso lhe dizer
Que tenho 3 paixões:
a música
o cinema
a literatura

              E ainda me sobra tempo para pensar em suicídio!
 Então o sujeito sóbrio chega e me diz que a vida é curta demais!

Assumo minha inveja.
Eu gostaria de ser um abstêmio. Traçar o escopo de uma vida,
Seguir o cronograma
                Disciplinado
                                 Lúcido
                                              São
Sério.

Mas o que posso fazer? Nasci apaixonado.
                Triplamente apaixonado –
Se minha essência não é monogâmica, como posso prometer isso às mulheres?

                O abstêmio nunca será um apaixonado.

Por isso se ocupa em manchar a imagem do boêmio –
                         Como se o boêmio já não denegrisse suficientemente a própria imagem!

Ora, abstêmio
Nosso único acordo é: nossas condições rimam entre si!
Fora isso, ocupe-se em me vigiar
                                               Que eu me ocupo de buscar o equilíbrio entre

   Arte                                                   e                                                    tédio

                                                                                               .

o desamor


é quando a barriga esquenta
e as pálpebras já não vibram mais.

quando o esforço se faz evidente
ou é apenas esforço.
é quando viramos xerox de nós mesmos
ou quando não existe mais o esforço.

não é a ausência do sexo, mas o sexo por costume ou cordialidade
e não é necessariamente a presença da mentira
mas a verdade dura dita desnecessariamente.

o problema não é quando as máscaras caem, mas quando começam a surgir.

é quando outros idiomas passam a camuflar as palavras,
todas as suas frequências se anulam
e seu orgulho míngua.

o desamor se dá quando olhamos para o outro e enxergamos um ser individual, 
não mais uma extensão de nós mesmos.


o diálogo entre nossas mãos

minha mão. sua.
aproximação fugaz e inevitável.

minha mão: sua.
a ti me entrego, nua e inesgotável
e te cravo as unhas.

minha mão sua.

Você



Você
que já me viu seduzir a noite
e beber sangue de vagina desvirginada,
ou você que acreditou nisso…
você não é capaz de me imaginar sob o chuveiro
encolhido
abraçando meu próprio corpo
com as luzes apagadas.

Isso você não pondera.
Você me apunhala porque não percebe que
também sou carne e sangue.

Você que me viu com tantas mulheres
e acredita que meu coração é um pênis
não pensa que
se ando sumido
é porque talvez não tenha mais forças
(meu suicídio afetaria sua vida apenas duas semanas depois de consumado).

Você
que pensa
que sou um garanhão,
um homem sem piedade ou alma
se engana.

(A culpa foi minha?)

Você torna a me apunhalar, cuspir,
você pinta minha caricatura com guache
e expõe ao público –
não me manda o convite da exposição.
Sua obra-prima me passa desapercebida.

Você não vê meu reflexo no espelho clamar calado por socorro.
Na verdade você já não costuma pensar em mim.

Por isso estou sozinho.
Por isso eu fugi.


O sangue virgem secou, amigo.
Agora só recebo carne usada
e mal sei usá-la.
Esqueci o sentido do corte,
cansei de armazená-la.


Vai, purifica sua lembrança sobre mim.
Tira o punhal da minha garganta.
Esquece aquele sangue virgem.
Eu não sou assim.
Ouve meu choro abafado.
Me dá um abraço.
Me perdoa.


findo mundo



findo mundo:
finjo quieto,
falo mudo.

fim do mundo:
homens fingindo orgasmo.

vil,
findo mundos –
finjo muito,
calo mudo.

áspero.
ou liso.

findo muito.

somos cruéis, absurdos.
finjo imundo,
forjo mudo
o fim do mundo.

nosso mundo (meu e seu).
sem dedicatórias,
sorrisos assim,
flerte.

findo tudo, não mais precisaremos fingir.

findo o mundo, nasceremos.
com piedade que dói em nós
piedade gratuita, terrível.

(todos os pensamentos me levam a você,
  o que fez você hoje?)

forjo um poema;
sai frígido e frágil.
o relógio me avisa:
01:58
01:59
nenhuma palavra será necessária às 02:00.
então calarei.
mudo.
tudo.

fingimos juntos, em total harmonia
às duas horas
da manhã.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

meio soneto do amor confuso

não confunda amor com saudade
não confunda amor com carência
não confunda amor com vontade
não confie em amor de vidência

não estrague o amor com cinismo
o que chamam de paixão é o verdadeiro amor
e o que sobra é o comodismo

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

poema sincero



este será um poema sincero.

e se o escrevo hoje
(cinco dias após o fato que o motivou)
é porque não havia encontrado ainda a sinceridade
necessária.

este poema é para uma prostituta.
uma prostituta que não tem orgulho
mas também não vergonha 
da profissão.

se escrevo pensando nela é porque captei algo extra
naquela mulher,
e não estou falando sobre sexo ou corpo ou carne ou abate.
ela foi sinceramente gentil
e mesmo quando avisei que não transaria naquela noite
ela disse “tudo bem, posso ficar aqui com você?”

sim.

conversamos francamente e eu disse que a admirava porque
ela tinha de ser tudo:
escrava, cadela, objeto, amiga, psicóloga,
e até mãe
de alguns homens que as frequentavam.

e tinham ainda aqueles cruéis
que revidavam nessas profissionalmente-desalmadas
a sua frustração:
empregos massacrantes, falta de talento ou sorte, 
a derrota do time,
parcelas do IPVA, 
um casamento fracassado, quatro filhos…

por fim ela se cansou e foi faturar.
mas não sem antes tentar se desculpar comigo.
“é o seu trabalho”, eu disse
e fiquei com o whisky.


este poema foi um expurgo.
este poema não teve rimas e nem deveria mesmo ter.

este poema é o esperma que não jorrou
aquela noite.


domingo, 24 de fevereiro de 2013

Casamento

Meu amigo vai se casar!
(Logo ele!)
Comemoraremos.

Velhos amigos se reencontram e mentem.
Seu casamento é um ritual absurdo!
(Todos são, mas apenas esse é o casamento do meu amigo.)
E no altar, já não parece o meu amigo.
Quando vou cumprimentá-lo, me trata com certa indiferença.
(Meu amigo agora é um homem e parece me desprezar.)
Está casando, grande merda!
Sustenta esse fato com nobreza. (De fato, não parece o meu amigo.)

Decido ficar totalmente bêbado.

Whisky, vinho e cerveja.
(Tendo no corpo a reminiscência de ansiolíticos.)
Talvez eu arme um pequeno show.
Tudo bem.
Muitos aqui já estão acostumados,
mas acredito que a burguesia ficará chocada.
Não quero estragar o casamento,
mas gostaria de ter meu amigo novamente.

Ele aperta mãos. Muitas mãos.
E sorri e fala baixo e parece atuar, maquiado.

Meu amigo está casado.
Logo ele!
Grande merda.

Qualquer um pode se casar
E dizer absurdos no altar, com centenas de testemunhas complacentes.
Todos sabem: ele está mentindo.
Até a noiva sabe. Mas se não for com ele, com quem será?
O mercado anda competitivo, é melhor garantir.
Além do mais, papai está tão contente. Até bancou essa festa caríssima!

Na festa gritam meu nome.
Sou Deus. Sou o centro.

Posso tudo.
Tento tudo e sou retirado pelos pés.

Me jogam na rua, alucinado e sozinho.
Falam algo sobre polícia.

Meu amigo está casado,
e eu não tenho ideia de
onde estou.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

álcool

os bêbados não consideram o dia
que sempre chega
e continuará chegando,
para a felicidade ou não
do bêbado.

é no dia que ele se redime,
se envergonha, se cala,
acerta ou não
suas dívidas recentes,
telefona, lava o rosto,
sente fome, raiva…
sobretudo vergonha.

é durante o dia que o bêbado
(de ressaca)
se pergunta,
que diabos aconteceu ontem?
tenta juntar algumas peças
já sabendo que será impossível.

lembra da garota sem cabelo
e de seu namorado sem cabelo
uma jukebox
uma boca
cabelos
álcool
dança
(a dança é memória afetada)
e passos que levam embora
para o dia.

se soubesse o dia
o bêbado se manteria sóbrio
mas a ideia do dia é algo distante
porque o bêbado não deseja o dia
(jamais deseja o dia.)
o bêbado deseja que a noite se prolongue
(mas não também.)
o bêbado deseja encontrar cicuta
em seu copo.
e assim como não sabe o dia
o bêbado não compreende esses rostos
à sua frente.

todos
os
bêbados
num
pacto
quieto
improvável
se…

mas não.
logo em seguida o bêbado acorda em casa e se pergunta
eles só querem se esconder.
talvez no copo.
minúsculo
frágil
estúpido.

o bêbado troca de copo
mas não de veneno
aliás, acrescenta um mais forte.
sugestão da garota
que se senta ao seu lado,
o corpo dizendo “me fode”,
totalmente entregue ao bêbado
(ela também vai alta)
mas o bêbado não se importa.
se cansou.
está farto do jogo.
sabe que é melhor assim
e sente até um orgulho em ignorá-la.
bem, não totalmente, porque eles conversam
riem
beijam
dançam
(a dança é memória afetada)
pedem mais uma,
a garota com seu corpo dizendo
“me fode a noite inteira”
e nada foge – ainda – aos olhos do bêbado
e ele permanece seco
apoiado no balcão
de frente para a garrafa
e os copos
e a possibilidade de se embriagar até o fim.

a garota
segue tentando.

o bêbado sorri,
triste.
a garota pergunta “o que foi?”
e o bêbado diz
(ainda rindo)
que se lembrou
de um negócio absurdo.
a garota duvida,
errônea,
em vão...

a conta vai alta.
ele não tem dinheiro
e a garota sabe disso
e pergunta
“outra?”
os vermes alcoólatras se agitam dentro do bêbado,
que não esconde o sorriso quando diz “por mim…”
e a garota, com aval
pede mais uma ao garçom
que respeita o bêbado
e se lembra
(mas não fala)
da vez em que o bêbado esteve lá
e se envolveu numa briga homérica
onde voaram cadeiras, mesas,
garrafas vazias
e
o garçom bem que tentou cobrar os reparos
mas o bêbado
linchado
questionou e disse
“só vou pagar pelo que eu bebi.”
e pediu a calculadora
e somou
e pagou.

mas agora existe essa garota.
matéria-prima
obra-prima
que o bêbado – bêbado –
meio que despreza
e
em algum momento surgem os amigos dela
de surpresa
então dividem a mesa, espantados com a sede do bêbado
que tem sede de morte
e escancara isso pra fazer graça.

que diabos aconteceu ontem?


tenta juntar algumas peças,
já sabendo que será impossível...


Tanto


Tanto dejeto de mim: sangue, cera, merda
                                  poemas, saliva, pus
           Tanto que cristalizou.
           Tanto que cicatrizou.
Tanto desejo em mim: sangue, poemas, saliva
                         tratores que causem tremores
                              em tudo o que cristalizou
   .
         Tanto de você ainda em mim.


Sobre sobrancelhas e répteis

Suas sobrancelhas quicaram até mim e
Seus olhos me temiam.
Me temiam, frágeis
No entanto vieram.
Talvez confirmar que minha pele é cera
E que
Por trás da barba vive um
Bagre
Liso e frio.

Seus olhos vieram dizer
“vou embora”
E eu pergunto até quando
“talvez na segunda”, você diz.
Tentamos um cumprimento desajeitado – erramos a mira.
Disfarçamos.

É quarta-feira e a luz da sua casa
Continua apagada, mas as baratas estarão lá,
Prontas.
Os empecilhos seguem nos assombrando
E foi cruel demais que vocês duas trabalhassem juntas.
Répteis.

E vocês duas são como serpentes na cama.
Envolventes e precisas. Meio loucas.
Me envolvem sem quebrar os ossos,
São cobras mansas.
Sobrancelhas e corpos diferentes,
Cuidam de mim como podem, ainda que as sobrancelhas duvidem de tudo.

Já é quinta-feira e você não voltou.
Tudo bem.
Tenho o teto branco e minha TV permanece sem som.
Te ouvirei chegar
                        se...