segunda-feira, 5 de novembro de 2012

quase lá



não é só isso, amigo.

é já ter compreendido o filósofo,
é saber destrinchar uma intenção
perfeitamente,
é não encontrar dificuldades em levar uma mulher à cama e
conseguir prever todas as palavras que sairão daquela boca vil
é estar vivo, com pernas que funcionam e dedos que apontam.
é ter rompido a placenta e ainda assim não compreender
nada
quando ela sai pela porta levando sua toalha e
todas as outras tralhas que me faziam companhia em
noites como essa.

sua bicicleta atravancando a cozinha já tinha até conquistado seu espaço
e parecia não mais atrapalhar,
aliás,
sua bicicleta já fazia parte da minha mobília precária.
sua vermelha toalha pendurada era como uma charmosa cortina de sublime tecido.
seus cabelos como água-viva espalhados por toda a casa…

bem, ainda tenho o filósofo, a cama, a boca
e palavras que me salvam em
noites como essa,
onde já sei tudo e conquistei tudo
mas pareço um leproso ao espelho.

nessas noites de vinte e quatro horas e cupins.
nessas noites de comprimidos.
noites de faca afiada, noites de martírio, de auto-piedade,
noites que se parecem em muito com noites.

noites de tuberculose.
aneurismas.

de culta incompreensão dos fatos,
de sábias palavras inúteis, de podres metáforas pedantes,
noites de úmido frio e insônia.

noites sem ela ali,
desfilando sua nudez a pedido meu,
enquanto me espalho pela cama sentindo esse breve amor
que uma toalha vermelha
é capaz de enxugar.

Aquarela


Não peço um conselho.
Busco ouvir uma segunda voz,
Não-impregnada com meu perigoso tendencialismo,
Não coberta de dogmas.

Poderia ser resposta,
Não é.
Não peço o gabarito,
Apenas outra cor de giz na lousa.

A palavra limita, mas define.
Reconheço o cabresto – sou animal.
Reconhecê-lo me torna superior?
(Por favor, sem metafísica agora.)

O véu é instável,
A luz que o atravessa chega mística.
Mas por favor, sem misticismo
agora.

Preciso de carvão. Preciso definir.
Sorria para o meu auto-cabresto
que me faz andar, seguir...

Não é pedir nova cor,
Mas um novo ângulo de luz
Que poderei facilmente bloquear
Ao julgar necessário.
Posso obstruir com o véu instável.

Mas chega de mágica, misticismo.
Sou cético, sou cérebro.

Chega de racionalismo. Sou fogo,
Faísca, coração, magia.

Chega de véu, sou cego.
Preciso seguir. Sem metafísica.

Preciso alinhar a voz e o véu.

Preciso                           preciso
                  
                        Preciso                                                                   preciso
    Preciso   preciso   preciso   preciso 
                                                              
                                                             É preciso ser preciso!

Sem preciosismo.
Preciso ser humano. Errar, seguir, corar.
Reconhecer mágica no giz,
Pedir conselho à lousa,
Ouvir o misticismo da luz,
Definir o que é mágica, o que é necessário. Limitar.
É preciso dar forma.

           Concreto?
Cimento?   -   Neo-concreto?
           Abstrato?
  Metafísica? Cafeína?                                                                        

Depende da atadura dada
  ao cabresto.
    Que limita, define, ilumina, bloqueia, atravessa, manifesta,

mas jamais explica.


tantas palavras...



então
é por isso que as pessoas regam plantas
                    e levam seus lixos pra fora
                       e recorrem a um Deus
                                e têm filhos…
e é por isso que os pais abandonam seus filhos
e os filhos procuram os pais por toda a vida
                                        em outros rostos          
                                           e identidades
e ao encontrarem se decepcionam e choram.

é exatamente por isso que alguns cometem
suicídio e fogem, enlouquecem, erguem prédios
e escrevem poemas se queixando disso
…
frequentam puteiros, enchem a cara de valium
ganham estradas, perdem o orgulho,
brocham.

é por você que homens tacam fogo em seus próprios olhos
e transtornam avenidas, nus, e passam a noite em cana
e sustentam as têmporas com um gole de vinho
e enxergam afluentes nascendo da pele frágil
martirizada por canivetes cegos que foram úteis na estrada quando a única opção era manga verde do pé.

é por isso que homens marcam obras-primas.
e comemoram a taça ou festejam recordes

é por isso que as mulheres tomam anti-gases e compram revistas descartáveis
e alisam o cabelo descartável e disputam o amor descartável com uma faca sob a saia…

por isso existem tantos documentários tendenciosos
e por isso existe a depressão, incompreendida pelos que nunca sentiram isso, então seguem
regando plantas,
confortáveis, vivendo em consignação, à espera da extrema unção que redimirá
seus pecados secretos que sequer são interessantes.

é disso que as baratas se alimentam.
é por essa fresta que entram vagabundas com sorrisos injustos,
roubados de homens ensandecidos que não queriam o aborto
e que tiveram sua sorte abortada por mulheres aparentemente frágeis e
doces.

por isso as pontes são tão altas
e os esgotos tão escuros.

por isso tantos idiomas, tantas crenças, tantos mantras, tantos filmes, tantas palavras…
por isso a incompreensão absurda sobre um fato simples, o choro,
o aborto…
por isso os filhos seguem buscando seus pais por toda a vida;
em corpos, copos, cabelos loucos, olhos estranhos,
peles insípidas, putas que forjam em alemão,
rodoviárias, borracharias, bares,
músicas, quartos de hotel, o susto de um alce em meio à paz suspeita da floresta.

por isso estou aqui,
por isso tantas palavras…

para espantar isso
que insiste em chegar,
mesmo quando o equilíbrio acena como um velho camarada…
e foi justamente isso que estiou a tempestade de lágrimas
por tempo indeterminado.

bom.
sem lágrimas.
é mais fácil assim.

enfrentando isso com os olhos brutos e
prontos.

Um banho quente


Ah, um banho quente!
Suficiente pra afastar 
tudo o que me é mau.

Poeta,
pra lá com a sua dor!
Procure outra porta hoje!

Molho as costas,
os braços,
a virilha,
os pêlos,
a nuca.
Por fim o cabelo.

Sinto toda a água quente me proteger
e livrar de mágoas e incertezas.
Um delicioso e demorado banho quente
e que se dane o mundo e que se dane a conta!

Que sensação!

(...)

É verdade que não a sinto agora — 
Apenas rememoro —  afinal,
como poderia escrevê-la 
sob o chuveiro?

Além do quê, 
descrever é não sentir.

E eu sinto.
Ah, sim!


sim, o amor



tudo bem, amei.
agora vou falar do amor –
efêmero como um gás que alucina
e logo dispersa,
danificando.

amei e dói.
agora posso entrar pro clube –
clube dos que se lamentam
como frágeis cães em noite de
inverno.

sim, é bom.
e conheci a perfeita sinfonia –
gemidos em uníssono, tapas que marcam o tempo
violinos solando promessas quietas,
sustentados por contra-baixos de salário e porra, 
maravilhados com a suavidade
do discreto cello de cafunés e…
ah!
o sopro,
como dizer?

foi tão sublime!

como se chama mesmo aquilo?
digo, aqueles silêncios ofegantes, cheios de quase…
quase premeditados.
a selvageria de dentes que mordem escancarando o escárnio –
mais excitante que flerte proibido
de longe.

sim, o amor existe.
mas também se acaba.
sempre.
e é sempre assim.
dói.
sim, dói.
e é dor física. metafísica. metafórica. fantasmagórica. escura e densa.
dor que caminha como aquele estranho homem de um sonho antigo
que você projeta no espelho todos os dias.
até nos dias em que não enfrenta o espelho.

é, não é para qualquer um.
é preciso muita coragem,
sobretudo
na hora de assumir:
“bom, acabou.”
“é, parece que sim. então tchau.”
“tchau, se cuida.”
“você também.”

“qualquer coisa liga.” e termina aqui.

sim, ninguém ligará.

sim, nos resta o poema.
e só.

um dos últimos


lhe mostrei um dos últimos poemas e
ela ironizou
uau, profundo hein...
bom, não é profundo, mas é preciso.

           “às vezes você fala demais.”

decidi encerrar.

ficamos num silêncio leve até que
eu me vesti e nos
despedimos.


Vi, vi


Vi vinte e cinco elas,
mas nenhum elo que me ligasse a eles.
Vi todos eles.

Vi faces de amendoim, cabelos de assunto,
vi Fortunato, o poeta Ariano, vi infortúnio.
Vi trinta e cinco elas.

Saí cedo demais, não trágico: doloroso apenas.
Na viela improvisada não vi ela.
Vi tratores – objeto do meu prazer –
asfalto removido, uma lâmpada, jaquetas.

Vi bela donzela.
(Seu cabelo me roçou o braço)
Vi cadernetas em branco,
sorrisos brancos em brancos rostos de amendoim,
ai de mim, encontrá-los!

Vi sobretudo a prostituição da poesia.
Assistida por sorrisos nervosos de perfeita barba,
estudantes “sim” e seu ininterrupto aplauso.
Na palestra do poeta vi setenta e cinco elas,
mas não a encontrei por lá.

sempre quase


é como o incenso que tem melhor cheiro quando lacrado
ou
a igreja que por foto é mais atraente.
é como aquilo, aquilo, aquilo, ou aquilo e isso e
aquilo outro.
é como uma trilha já desbravada que o guia-turístico ilustra
inseguramente.
é subir até o monumento do Cristo com a caravana;
expectativa
suor
fome
ansiedade,
crendo calado e egoistamente num milagre iminente
e ao chegar lá ouvir alguém dizer
“bom, vamos descer, pessoal?”
e o milagre não aconteceu, e o monumento do Cristo é só uma estátua
e você foi logrado e além de tudo roubaram sua câmera fotográfica
com fotos óbvias de sorrisos de papel e fraternidade plástica.

é como andar pela estrada imaginando o próximo destino.
é chegar numa nova rodoviária e enxergar as mesmas pessoas,
nas mesmas situações e semblantes e sonhos
e até os cães que rondam por ali têm alguma esperança.
é como retornar à sua cidade natal com uma inquietação ímpar;
rever amigos, rever lugares, rever a praia e
os amigos estão no mesmo lugar, contando as mesmas piadas e
os prédios não mudaram, a praia ainda é feita de areia e mar,
os semáforos seguem orientando um trânsito brocha e
você enfim se lembra da última vez em que esteve aqui e prometeu
não voltar tão cedo
justamente por isso;
por tudo estar sempre igual, por tudo ser sempre frustrante e falso e insuficiente
e sempre quase.
é como fazer faculdade para ter um diploma e perceber que algo está errado.
é como fazer terapia e não entender nada.
é tentar suicídio semanalmente e fracassar semanalmente.
é como um circo. é como um apático show de fantoches.
é como a morte.

é a vida…

o preço



“a cada vez que eu te vejo fico mais preocupada”, me dizem.

não se preocupem, eu digo.
é verdade que ando sofrendo de insônia, crises de paranóia,
as lutas têm me deixado rastros e ando mal alimentado, sem dinheiro –
                                                                    gastei excessos com álcool e sexo –
minhas mãos andam trêmulas, o pau já foi bem melhor, tentei suicídio,
minha porta está arrombada (eu mesmo o fiz), fundas olheiras, magro demais,
estou carente e frágil – sei disso –, querem meu pescoço, clonaram meu cartão,
enxergo o que não está ali, meu gás acabou, minhas roupas estão apodrecendo
                                                                                                                   [na umidade,
minha casa está imunda, ando estressado, ansioso, mal humorado, sem créditos na praça, odiado…
meu cerco está realmente se fechando,
e sei que estou me tornando um clichê.
é inevitável.
eu escolhi ser sozinho.
eu escolhi não estar sóbrio.
eu escolhi pensar até a exaustão mental e física.
eu decidi abdicar da tradicional felicidade – estúpida – para ter argumentos.
eu decidi colocar meu corpo à prova para conhecer meus limites – nunca os encontrei.

estou onde decidi estar, agora pago o preço.
                              
                               é alto,
                mas enquanto o poema e a música seguirem dispostos
                e elas seguirem entrando e saindo por aquela porta,
                estará tudo bem
                comigo.

mas agradeço a preocupação.


Homicídio


Sim, é verdade que a matei.
E falo do modo mais franco.
É como se não tivesse acontecido,
foi ontem
mas parece já uma lembrança apagada…

Comecei pelo pescoço.
Ela era forte e foi difícil.
Tive que soltar seu pescoço.
Esmurrei seu colo,
esmurrei a garganta

não lembro se ela gritava
ou o que dizia
enquanto eu espremia sua traquéia
dizendo “fala a verdade!”
por fim
ela desmaiou.
Peguei uma pedra e amassei seu crânio
e ela morreu sem dizer a verdade
que eu tanto cavei.

Ela está morta agora
e eu já não tenho tanta certeza de minhas suspeitas.
O que sei é que a matei, que ela morreu, que está morta.
(Seu velório terá o caixão fechado.)
Eu a matei
e as crianças brincando na rua sequer imaginam,
sequer reparam no assassino que passa
e as nuvens não deporão contra mim
ou a mulher que corta as unhas na calçada
muito à vontade – é domingo.
Por qual motivo a matei?
Parece que não aconteceu
não sinto culpa.
Sou culpado.

Ela morta, o que mais dói –
só o que dói –
é não ter certeza se fui justo,
digo, não sei se aquilo tudo realmente acontecia
ou era só insegurança, impressão, paranóia
culpa.
Penso que a matei para enterrar a dúvida:
“está morta, pronto.”

O que farei agora?
O vazio acabará, eu sei.
Hora ou outra
acabarei me punindo
e a lei chegará
e nada ofuscará a possível certeza que terei
ao perceber que sua morte brutal
de nada adiantou.

a segunda pessoa


não és bela
nem és doce.
(não és flor,
não és doce.)
és grosseira
és obtusa
és rameira
és medusa
(medusa cacheada)

és ingrata,
das malditas
“és Gabriela”,
digo, e te irritas.
não compreendes:
tens cor de amêndoa
apenas isso.

tu nas camas
és enguia
sei, não me amas
(teu mel me guia)

teu mel amargo
me enxarca os dedos
lambo-os.
e em seguida te sugo.
pra dentro do estômago
pra dentro do âmago

teu mel amargo
me corrói os dentes.
encontro teu útero
finges que sentes

feito o teatro
finges que sonhas
sonho. (finjo que sonho)
vou trabalhar,
tu me abandonas.

então sou obrigado a recorrer
à segunda pessoa.
que singular!

Ver


Você que vê
pode observar esse objeto.

“É amarelo”, dirá.
Em seguida compreenderá:
“É retangular.”

Force os olhos.
“Bem, é um livro.”
Sim…?
“Um livro grosso. Tigres no espelho.”

Já o cego dirá “É liso, frio e emborrachado.”

Doutos dirão:
“Uma janela mágica. Passaporte celeste.
Pedaço de alma. Milagre encadernado.”

Uns outros: “Apenas palavras. Opiniões.”

Mas só aqueles que trazem um holofote na alma poderão compreender:
"É absolutamente nada.”


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

versos pedantes


farinha frita
com colher verde
dada
dadaísmo
dívida

ressaca
me perguntando o que aconteceu
ontem

arroz
poemas
põe mas
espera em
casa
quieto
entre uma colherada e outra

                                          outra
                                        outra
                                    outra
                               outra
                                  essa.

uma flor que nasce do cimento
como esse poema,
que nasce da farinha frita que
como de colher verde
dada
emprestada
esquecida
absurda como o céu
foda-se.

preciso ir pra rua
vou.

minha cabeça completa
de sangue pensa
versos pedantes
e diz
tchau.

domingo, 28 de outubro de 2012

A catraca


A catraca impede o ímpeto.

Incentivada, a catraca permite a passagem –
sensorial, digital, brusca – a catraca de mais um dia pode ser uma
conquista.

Pudemos notar isso da última vez em que nos vimos.
Nesse dia, nenhum dos dois cruzou a catraca.


um haikai


poemas poemar
avante!
pomar de satisfações.


Jogo

Fazíamos um tipo de jogo.
Uma sessão triangular de terapia psicanalista
onde éramos totalmente sinceros
ao expor a face escolhida para a noite.

Em algum momento ele me disse “cara,
para de projetar em mim o fato de você ser ruim de cama.”
Pensei em explicar que o ponto não era bem esse,
as mulheres fingem porque precisam fingir,
não era bem uma questão de ser ruim de cama,
mas ligeira ela lhe respondeu “ele não é ruim de cama.”
e meu amigo – que desconhecia o fato de já termos ido pra cama – se constrangeu.

Senti um certo orgulho quieto.
Mas podia isso também ser um fingimento –
uma tentativa de soar liberal…
Ponderei.
E quando o assunto sobre a infância virou em
mais uma via movimentada, meu amigo contou que, certa vez
ao fugir de casa, levou consigo apenas um dicionário, então
respondi, em tom profético:

O dicionário vai te dizer a mais desinteressante das verdades:
o significado das palavras

poemas



minha cabeça exaurida
vagueia entre um
e outro poema.
no caminho tropeça em mais um
(esse)

essa minha cabeça fraca
tonta
seca
que sorri com escárnio de superioridade quieta
trabalha
sim.

hoje o corpo não trabalha
folga

a cabeça então
está livre
bem, talvez não livre
mas quase.
e esse quase só me basta porque é o máximo que podemos conquistar
ante a liberdade

aliás, pouco me importa a liberdade.
liberdade é palavra.

minha cabeça que rosna
vagueia entre formigas e
mosquitos cômicos

tende a ser beat
e quando a propulsão a arremessa para o lado oposto
a mão bate teclas

não beats.
foi-se o tempo
foice o tempo.

tempo?
é palavra.

2x4


te abro a porta
te cedo teto
e cobertor
te poupo o sono
até mais tarde
te aqueço os pés
te entrego a chave
com tudo dentro
(levo comigo apenas o último que escrevi sobre você)
e quando volto
você não está
não deu notícia
(apenas um bilhete seco na maçaneta)
deixou a chave
a porta aberta
a louça suja
tudo desfeito
deixou papel
de mijo no chão
e avisou –
não volta hoje –
naquele bilhete
tom de telegrama
“a lanterna tá em cima da geladeira.
não lavei a louça.
até amanhã.”

e no amanhã você também não estava...

ali


ela estava ali pra ser qualquer uma
qualquer uma que eu quisesse que ela fosse
                ali

qualquer uma que não fosse ela mesma
ela estava ali para ser
                                 vir
  ando a esquina
                 não a encontro mais.


luto



o estilo enfim chega para aquele que está inseguro demais para ficar parado
mas a falta de estilo pode ser um estilo
e ficar parado também
de modo que é muito difícil reconhecer um farsante
– não para mim –
e os verdadeiros seguem comendo farinha de milho
e bebendo água turva
sem pilhas no relógio
ou
companhia
essa noite.
mas tudo bem,
porque eles podem aguentar isso
e muito mais
apenas não percebem.

é difícil recordar dos bons momentos.
aqueles realmente incríveis em que dizemos a nós mesmos
“é por isso que eu vivo! não se esqueça dessa sensação, ela sempre volta!”

é bem difícil.
sobretudo quando o telefone toca
e são eles

Kafka foi preciso quando disse que a família age 
como um agiota
emprestando a juros altíssimos
e –
acrescento –
são agiotas à moda antiga
capazes de quebrar membros e
fazê-lo engolir vidro moído
e toda essa coisa
brutal.

estou no terceiro round
e não sinto cheiro de vitória

meu adversário não me derrubará.
a questão é
contra quem eu luto?

um fato


o que determinou foi o tempo do seu sorriso.

ela só riu depois que passou,
ou seja:
riu de mim
não para mim.

bom,
era fato.
havia mesmo acabado.




sábado, 4 de junho de 2011

Tar



“a Tar es imposible llegar”


I


buscando a plenitude onde ninguém jamais esteve,
carrego-te com sufoco. sei que teu pranto pesa
e também teu corpo sobre essas rodas que empurro.
não te aturdas com o concerto ante os rochedos. ouça o sax,
o contra-baixo, o tilintar das taças e também o piano em chamas.
não te aturdas com o assédio. sabes que isso me faz falta e
sabes também que já não podes me proporcionar.
aguarde.
faço isso, mas te amo e venero, sabes, pois.
escute o piano. também as risadas e o bumbo ecoando na estrutura de pedras polidas.
sabes que apenas me iludo. dia após dia. sabes que não sou capaz de me satisfazer.
às vezes penso que tua deficiência é uma bênção. pois imagine todo seu desejo não podendo ser sanado.
perceba o piano. suas cordas e teclas já em brasa. o banco vazio. perceba o fascínio daquela que o destrói.
ouça sua gargalhada. veja a destruição...
o show está acabado.

sigamos. estou pronto.
carrego-te com pesar. sei que teu sufoco pesa,
mas também teu corpo sobre esse entulho onde deitas.
ouço o velho mago no caminho.
chegamos ao lamaçal, onde te deixo e tu choras como uma criança faminta.
choras porque és covarde e fraca. choras porque és demente!
recolho-te, débil criança, e sigo carregando-te.
buscando a plenitude onde ninguém jamais esteve.
veja as flores! sinta o aroma!
"mas não há flores", me dizes.
VEJA AS FLORES! ADMIRE-AS!
"mas não há flores, meu amor".
covarde! só o que fazes é choramingar!
estou farto da tua auto-piedade. faço tudo por ti e o que recebo em troca é este insuportável pranto!
que teu corpo paralítico e atrofiado se esfole nas malditas pedras polidas e apodreça ao sol! - que nunca se põe, é verdade.
e quando o gigantesco coração pulsar, prepara-te para as criaturas obscenas que do lodo emergem! prepara essa carne frágil e morta!
subo a montanha enquanto clama por mim, inválida. impotente.

percebo o quão corrompido foi esse éden! corpos semi-vivos, copos com pêssegos.
a sorte é lançada e o premio é uma chance de rejuvenescer, mesmo que por instantes.
as derrotadas ficam abandonadas com os pêssegos, que me são oferecidos quando apareço, mas recuso.
sabes que uma mulher rejeitada produz mais veneno que uma Taipan. e é esse veneno que voa em minhas vestes, enquanto fujo,
impotente.
deparo-me com deformadas ninfas sedentas e digo que não posso. tento fugir mas sou capturado por sua rainha, que me pune
ao som de vespas.
derrubam e humilham-me. sou guiado até a cova de meu pai, que se ergue e me enterra.
que se ergue e segue as ninfas, que seguem sua majestade fazendo ciranda.
"papai, papai!", clamo em vão. e me estendo em sua cova.
                                              
II


ouço-te gritando meu nome, incansavelmente.
volto, sem orgulho, sem troféu, desnorteado
e me norteio em ti.
volto.
volto e espero que termines de tocar teu corpo desproporcional, sobre poças de crânios.
a égua dá a luz e quem faz o parto é um homem sedento, que fura o ventre da cria - de onde saem cobras - para satisfazer sua própria vontade.
em seguida mastiga a placenta e chafurda nas fezes e coágulos negros.
volto de quatro.
volto prometendo amar-te eternamente e curar tuas dores, quando chegarmos lá.
lambo teus dedos sujos de sangue e restos de sêmen de outrem.

seguimos esperançosos.
pintamos nossos nomes nas pedras e no céu.
pinto meu nome em teu corpo. te cubro de mim.
teu sangue é extraído para alimentar o cego pedinte, porém é bebido pelo abutre que o acompanha. o cego reclama a taça e recebe o resto.
lambe a taça e o resto de sangue, já pútrido. se revigora e segue em frente, acompanhado por seu tutor, que recomeça a implorar:
"um pouco de sangue, pelo amor de deus!".
o gigantesco coração pulsa. forte.
caminho a esmo, fazendo melodia no tambor que furtamos do concerto.
somos surpreendidos pela prova da ineficiência de deus – embora tu já o sejas.
sigo o animal com diamantes na vagina enquanto ficas a mastigar pêssegos rejeitados.
os diamantes refletem minha mãe, moribunda.
aceito quando ela me oferece doces e lembro-me de seu ensinamento, “nunca aceite comida de estranhos.”
ora, o que a difere de um transeunte qualquer? dirás para mim que de teu ventre eu saí, é verdade, mas sequer me lembro deste fato!
então percebo que durante a infância ingeri alimentos cedidos por uma estranha e talvez aí se enraíze meu déficit.
cuspo o doce.

lembro-me de teu primeiro velório, mamãe, quando eu era apenas um menino e tu já eras como Josefina, a dos ratos.
a rainha dos detentos, das loucas, dos lazarentos...
lembro-me nitidamente do que fizeste com papai, apenas porque ele não mais te satisfazia.
você o humilhou. repudiou. ameaçou e cumpriu, tirando-lhe o pássaro do peito.
e eu fugia por entre corredores de gargalhadas estúpidas.
seus súditos. as moscas que rodeavam sua luz.
agora pedes que eu te mate e minha vontade não é outra.
sinto as mãos de deus livrando minha respiração, ao passo que te sufoco em tuas mechas fúteis de cabelo
arranco teus cílios postiços
e te beijo a boca.
conduzo-te até a cova onde outrora estive e digo para que tenhas cuidado.
sinto tua mão roçando minhas costas e teu peso cedendo abruptamente.
despejo areia em teu cadáver, enquanto me agradeces. paro para que me entregues um novo pássaro.
despejo areia em teu cadáver até que não mais sejas tocada pelo sol - que aqui é eterno.
teu coração não pulsa mais.
o gigantesco coração não pulsa mais.
                                              
III

o pássaro levanta vôo e se perde na imensidão azul.

vamos, meu amor. podemos seguir viagem.
tornamo-nos um só corpo.
sinos e banjos preenchem o ambiente enquanto te beijo
e... tu me renegas!
de sua vagina nascem sete porcos!
acorrento-te e espreito os três abutres que nos rodeiam:
o mensageiro, o mímico e também o conselheiro.
ofereço teu corpo, faço alarde, te beijo e aconselho que façam o mesmo.
anuncio-te como um animal de circo.
digo que beijem suas mãos, suas pernas e seus dedos.
os três borbulham excitação mas logo fogem quando digo que és minha noiva.
imprestável!

julgo ouvir a caravana que ruma para lá. disparo como um tiro e não tenho força para escalar os rochedos.
perco o som dos passos e a culpa é tua e de teu corpo lento, paralítico e corrompido!
arranho as pedras, amaldiçôo os deuses!
vago como um bêbado e acabo me apoiando em ti.
coloco-te cuidadosamente no chão.
conto sobre o padre que extraiu da minha nuca a pedra da loucura.
vejo abacaxis, maçãs, carpas, harpas, amputados e chaleiras.
mas principalmente abacaxis. abacaxis enormes.
carpas e fetos
harpas e tetos
raspas e netos
um funil e mais abacaxis.
pés. fios de ovos. o mar.
um estranho homem sem rosto.
(ruídos me ensurdecem.)
pássaros atropelados, rãs, homens com um funil na cabeça
harpas num balde, ovos de um animal, gordura podre,
frutas e pães numa mesa farta.
a santa ceia dos boçais dos dementes dos fracassados e dos paralíticos.

dizes que sentes fraqueza.
toco meu tambor para ti. a tua música.
tu pedes para que eu a toque quando chegarmos lá.
para que eu a toque todo o tempo.
eu te amo.
essas algemas são para a sua segurança,
confie em mim.
rastejar só vai prolongar sua dor.
venha aqui, estúpida! não te machucarei!
quero apenas te colocar essas algemas!

anjos choram e tu partes para cima do meu tambor
e rasga sua pele e destrói sua estrutura
e o arremessa longe e merece cada chute que recebe
e cada pedrada que aceita de mim e
aceita até o momento em que não tem mais opção
e morre.

sei que tuas bonecas choram, longe de ti e sem esperanças
e engasgam por não estarem presentes de corpo no teu velório
a céu aberto.
e a multidão vem prestar-lhe homenagens. os pobres famintos,
os mensageiros, mímicos, mas não os conselheiros.
os fiéis clamam por ti e veneram-te e rasgam tua pele e alimentam-se de ti.

ergo teu corpo, beijo a carniça, arrependido
e os anjos se perdem em prantos.
coloco-te nas costas e sigo em frente, ouvindo os passos fiéis da multidão.

ando por meses com teu cadáver em minhas costas, sem olhar por onde.
o sol jamais se pôs e
os urubus jamais ousaram chegar perto do teu sangue arenoso e
teu corpo agora está completamente morto e
eu sei que teu estômago nunca digeriu a rosa que te dei naquela tarde
e os passos fiéis não mais nos acompanham
e eu finalmente me canso e fraquejo,
desmoronando entre os arbustos.
teu corpo repousa sobre o meu, enquanto as folhas secas nos cobrem e
nos protegem do sol e dos abutres e dos conselheiros e dos famintos e apagam nosso nome da história
e nós nunca chegamos lá
onde, aliás, ninguém jamais esteve
ou estará.

terça-feira, 31 de maio de 2011

a noite em que nos entorpecemos com o demônio


nosso norte era o sul,
mas aceitamos o leste.
chegamos a uma praia vazia
com um astral estranho
e um vento noroeste.

a paranóia como um gato manso,
a mente cedendo
um arrepio do espírito
e uma fuga vã, sentido norte - que era nosso sul.
uma armadilha confortável
desencadeando a decadência

perigo sutil do ócio,
a mente abalada.
not to touch the earth e a descida ao inferno.
um encontro,
cancelamento.
a loucura abrupta,

        a
b
   
        i 
      
             s
      
           
                   m

     
  O


um mar negro.
família na re
                        de
peixes alucinados

caminho plástico.
pés autônomos
uma quarta pessoa
o desespero cresce
os sentidos alucinados
minha mente na rede
família de peixes
pés autônomos

meus pêsames

palavras absurdas
risadas de uva.
um símbolo na areia

passospassospassopassopassospass
ospassosopassopasso
spassos

              astral
inferno    mental
                  sensorial

se o leste é o norte, o sul é o oeste e o vento noroeste sopra sudeste,
o banheiro é logo ali,
à esquerda, no corredor vermelho
com sombras magras
                    na cama que não existe
                       com pessoas que não existem
                       num quarto que não está ali
                      um velho que já morreu
                             e um cachorro branco que ficou na areia
com os peixes, ao sul - que era nosso norte
e o quarto verde abrigava um ménage-à-trois.

problemas com padrões repetidos,
paralelas
em paredes vermelhas.
de volta

e as palavras do I Ching não se formavam...

  (quarto verde?)

uma barata enorme subiu nas minhas costas e me tirou do transe.
eu precisava deitar

- perdemos o ônibus de volta?
- há muito tempo.
- e que lugar é esse?
- não tenho a menor ideia.