sábado, 30 de janeiro de 2016
três noites
a casa deles é do outro
e enquanto eu viver vai sempre ser minha também.
inevitavelmente.
posso deixar tudo que quiser lá.
posso voltar a qualquer momento
resgatar livros, rascunhos, mobília, instrumento.
a casa deles que é de outro é frequentada por todos,
a casa é um caminho no tempo —
pavimentado por fósseis de tudo.
.
.
(muda o tom)
tudo acontece ainda em outros mesmos lugares com outras mesmas palavras
em vão
eu vim.
vago
quinta-feira, 28 de janeiro de 2016
A hora mais triste
Contemplo o crepúsculo com olhos turvos de cerveja e astigmatismo.
O comércio baixa as portas.
Motos e carros transitam lentos entre-sinais.
Percebo que não posso ser livre.
Não posso sequer querer ser livre.
Se me liberto, corro numa só direção.
(Fugir é ser livre?)
Como bússola — farol de quem se desprende —,
que aponta sempre o Norte — Útero do universo.
Nem mesmo o útero é livre!
la vita è bella
a vida é uma estria amarela bem no meio da cara. que a gente espera esbranquiçar.
é o café de ontem bebido e cuspido pela manhã.
é a pia entulhada de louça.
é a estria amarela que escurece bem no meio da cara.
é o gato correndo assustado quando a porta se abre.
é a furadeira do vizinho pela manhã.
a mesa alta demais. é tendinite no coração.
um silêncio enfim conquistado. breve demais.
o almoço gasoso duas horas depois.
encher os bolsos de moedas. é limpar a porra no próprio cartão de visita.
a vida é o pé do porco na feijoada.
é o cachorro da rodoviária.
burocracia na biblioteca.
são as prostitutas audazes às três da tarde na avenida principal reconhecendo seus clientes de terno.
é o patrão sádico.
o empregado explorado. servindo cerveja gelada pros funcionários do banco.
happy hour.
é a testa suando abstinência.
vasculhar o bolso sem moedas. não ter um cartão de visita.
a vida é uma estria violenta no meio do peito
que a gente torce pra que exploda.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
VHS
o filme francês me comoveu
com toda sua melancolia
solidão e pílulas
então decidi escrever um poema comovente
que arrancasse do leitor
essa mesma melancolia que sinto agora.
tentei retratar o homem estrangeiro,
o suicida,
a moça catatônica na cama,
a jovem atriz que me remeteu ao passado esquecido...
o poema ia bem.
repleto de lirismo e uma estética VHS
mas quando notei
o estrangeiro em mim,
a solidão dessa noite morna,
meu passado incompleto
e as pílulas que ingeri para afastar pensamentos suicidas,
compreendi: o poema já estava escrito.
em mim.
na minha pele, meu trapézio
no meu estômago.
o poema era meu próprio corpo
catatônico
em minha cama impregnada
de suor
e letargia.
domingo, 22 de novembro de 2015
carta de despedida precoce encontrada num fundo de armário
São Paulo, 05/2010
sei que vai durar pouco mas não me importo
brindemos.
sei exatamente o que vou sentir quando isso acabar,
aliás, já começo a sentir e quase não me importo.
vou me arrepender de não ter sido pleno e me repudiar por ter caído em armadilhas tão simples.
vou te procurar por todos os cantos,
cidades e rostos
pra tentar a redenção.
não vou te encontrar.
sinceramente vou desejar o seu bem antes de dormir e lembrar — sem sono — dos nossos silêncios e olhares furtivos a uma distância segura.
tão certo quanto o seu caráter, vou te agradecer por ter me cedido lápis e matéria quando tudo o que eu tinha era lama num tubo de ensaio.
nossa historia terá sido triste e nostálgica.
nossa despedida será tão efêmera quanto imagino agora e apesar de sabermos disso tudo, choraremos.
nossas bocas só se tiveram por uma noite.
tudo para nós terá sido incompleto.
um para o outro seremos uma lacuna opaca onde o silêncio é auscultado.
sei que está para acabar e que será cruel.
sei que tenho medo.
só não entendo porque escrevo assim, tão triste, se você está agora
tão perto de mim.
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
sábado, 25 de julho de 2015
terça-feira, 7 de julho de 2015
sexta-feira, 17 de abril de 2015
Kuleshova (Canção)
Eu não lembro mais
Do seu rosto, aliás
Do seu gosto também não
É natural
sair assim de mim
E arrepender depois
Minas tá aí
Campinas tá aí
São Paulo é você
Por isso eu fugi
Sua projeção em toda esquina
Sua sombra cinza em toda
menina
E o talvez te esbarrar comprando pão
ou indo ao bar
Agora você é letra
Agora você é lenha
Agora você não é minha
Agora você é eco
Eco que insiste mas não me atinge
mais
Eco torcido e malcheiroso
eco
Agora você é canção
Eu não lembro mais
Do seu rosto, aliás
Do seu corpo também não
sexta-feira, 3 de abril de 2015
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
cinzas
desejo
é
fênix
(inflama fatal,
renasce) inflama
e renasce.
(inflama
e
renasce)
(inflama renasce)
(inflama renasce)
(inflama renasce)
(inflama
renasce)
inflama
e
morre.
e
morre.
(sobram cinzas)
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
sábado
é sábado.
faz sol lá fora.
(isso quer dizer: faz um belo dia
lá fora.)
crianças brincam, correm, gritam.
eu aqui dentro, em silêncio,
têxtil, táctil,
imóvel.
a histeria coletiva berra muda:
vai pra fora!, faz sol!, é sábado!
percebo:
todos os dias há sol, todos os dias são dias.
o que as crianças comemoram é a ausência de nuvens.
a ausência da aula,
a permissão pra brincar,
soltar gargalhada.
não me baseio na ausência de nuvens.
vivo quando consigo.
seja inverno, sábado,
feriado ou março.
hoje nada me obriga a sair de casa.
nem palestra, cerveja ou concerto;
tampouco ser sábado,
ou o sol
lá fora
(...)
domingo, 21 de setembro de 2014
poema-transe sobre obra de Agustín Barrios
I
o nylon me abraça
acalanta
entrelaça tango sol
Sudamérica
passeio ruas estreitas
paralelepípedo
pedra morna
não compreende
(pedra)
reverbera a intenção
vibrato
desliza
liso veludo
cheiro o mar
o sol de um ângulo novo
morno
vejo as rugas do sol
nas cordas do violão
II
a música me salva mais uma vez
me tira daqui
não existo
ainda
adormeço sentidos
todos
e sentado
sinto o éden
em mim
III
ouço a noite.
respiramos
meu estômago tenso só digere som
abraço a noite
que geme
não respiro.
meu estômago oleoso contrai
contrariado por um mi bemol meio-diminuto
que se resolve como truque de mágica a olhos curiosos (incrédulos, analíticos)
aplaudo a miragem noturna
(respira)
fecho os olhos
e vôo
IV
dança comigo
vem
seu vestido me roça
pego sua mão
deslizamos pelo salão amplo
( ( ( ( ( ( eco ) ) ) ) ) )
lustre
(lustrado
ilustre
etc.)
a melancolia é inevitável.
(uma porta bate e me desperta do transe)
(perco você, musa invisível
inviável)
a música brota do piso
mármore encerado
amor
encenado
em compasso três por quatro
é valsa, querida
dança comigo
vem
V
o querosene da memória queima
a goteira da realidade respinga
o milagre da música permanece imbatível
agudo
sombrio
lúbrico
esse
três-por-quatro me mexe
(todos nós)
em festas debutantes
casamento
o fim
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
Carta ao pai
Pai,
recentemente você demonstrou certa preocupação com minha saúde mental. Alegou que eu andava bebendo demais e gastava todo meu dinheiro com o álcool.
Engraçado, não lembro de ter conversado com você recentemente. (Será o efeito do álcool?)
Na verdade, as coisas que você anda falando sobre mim, ouvi de terceiros.
Pai,
eu sei que você tem medo. Que quer o melhor pra mim.
Eu sei que você teme pelo meu futuro.
E teme que eu me torne um homem fracassado e passe a vida sendo sustentado pelos outros.
Você teme, talvez, que eu faça vários filhos e não cuide de nenhum.
Você teme que eu me entregue às drogas e talvez num domingo de sol leve meu filho mais novo morro acima pra comprar crack comigo,
e teme também que eu suma um dia antes do aniversário dele e reapareça vários dias depois, sem presente, sem explicação, sem coragem de olhar no olho.
(Você teme que eu seja um covarde.)
Eu sei: você não quer que eu me torne um velho amargo,
que nunca fez nada útil com a própria vida;
que se considera um gênio, mas na verdade é um racista conservador e preguiçoso que passa o dia em frente à televisão remoendo ilusões.
Que parou no tempo e vive do mesmo repertório.
As mesmas piadas, os mesmos temas e argumentos...
Eu sei. Você teme.
Você quer o melhor pra mim.
Mas,
Pai,
fica tranquilo.
Eu jamais me tornarei essa pessoa.
Sabe, eu aprendi muito com você.
E você se tornou um exemplo pra mim:
Um exemplo do que não ser.
Um exemplo do que não ser.
Um exemplo do que não ser.
Um exemplo do que não ser.
Um exemplo do que não ser.
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
três tiros na barriga
saio sem saco do serviço. os dois sacos. o que segura minhas bolas e o metafórico. saio esmagado e assim que piso a rua me assusto com uma moto que vem pra cima e com o brilho meio opaco da pistola que o garupa tira do bolso do casaco e me mete três tiros na barriga.
três tiros na barriga. o som meio abafado, mas a arma não é de brinquedo. não entendo. quem era? e por quê?
será a mando do velho do bar que ofendi ante-ontem na presença de duas belas damas por estar bêbado demais e não lembrar a senha do cartão na hora de pagar e o velho achar que eu tava tentando dar calote?
ou talvez aquele brutamontes que quase me matou porque eu ousei jogar uma sacola de lixo na sua lixeira.
ou a garota atormentada que acolhi em casa e tento curar mesmo sabendo que na verdade o que eu quero é ser destruído por ela.
então por isso aquele cara tossiu bem na hora que passou por mim naquele dia que eu fui até o orelhão telefonar pra minha amante cancelar o encontro porque minha mulher apareceu de repente em casa. e eu achando que ela ia pra Sergipe. sim. ele tossiu bem quando eu passei e uns metros depois tinha um homem parado fingindo mexer no celular.
foram eles.
a mando de quem?
dos estudantes que tiveram suas roupas e produtos de limpeza roubados por mim no dia em que resolvi me matar tomando 12 comprimidos com maconha e conhaque?
não. os estudantes são frouxos demais.
ou o namorado daquela bióloga que gostava de me mostrar fotos de cobras acasalando antes de começar a foda. a bióloga que tinha um mamilo na costela. problema hormonal. nada sério. deve ter sido ele. com certeza não engoliu aquele gemido que ela soltou enquanto fingia pra ele no telefone que tava estudando na casa da amiga. meu dedo mede dez centímetros. é claro que ela gemeu. fiz de propósito. meti bem devagar, aveludado, e quando notei que havia aceitado meu dedo dentro, arqueei os nervos e falanges dentro dela, que gemeu alto e riu e me deu um tapa e depois disse "você me paga!"
não sinto nada. minha barriga doeu e parou. agora ouço um zumbido. os carros passam sem som. ninguém me viu cair, caralho?
eu queria ter cometido suicídio, não morrer assassinado como alguém que deve.
que morte de merda.
não vou aguentar.
não quero.
aceito a dúvida.
talvez tenham matado o homem errado.
aceito me deitar no chão dessa avenida movimentada às nove da noite enquanto um cachorro meio torto vem me lamber a boca.
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
geometria
numa roda de três garotas ele chega. aborda a do meio.
meio? roda não tem meio.
roda é círculo, cacete.
triângulo. aborda o vértice.
(tá mais pra vórtice.)
veste-se de modo colegial
a garota.
"escuta, eu posso falar com você?
eu não vou te fazer mal.
eu só quero falar com você."
ela gira os olhos em espiral.
esbarra nas colegas,
catetos.
sendo ela hipotenusa.
(musa.)
muda, sorri vermelha e dá um passo.
linha reta
na direção dele,
que diz:
"eu trabalho na biblioteca.
eu sempre te vejo aqui esperando o ônibus.
eu chego mais cedo só pra poder te ver.
eu não vou te fazer mal.
eu só quero falar com você."
querendo sair pela tangente,
ela não diz nada.
sorri, meio encabulada.
na calçada cheia
de gente que passa,
indiferente.
ele não vai fazer mal.
ele só quer falar pra ela.
então pronto.
falou, tá falado.
agora se sente culpado.
não por ser casado,
mas por saber que seu amor
se tornou
quadrado.
terça-feira, 9 de setembro de 2014
elogio
— de todos os caras que eu já fiquei, você foi o único que me fez chorar.
— pô, te peço desculpa...
— não, isso foi um elogio.
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
equilíbrio
há
quem
ande
sempre
sobre
a
l
i
n
h
a
_____________________
meu equilíbrio
é
um acúmulo
de
EXTREMOS
terça-feira, 2 de setembro de 2014
poema pra fora
me sinto meio-nada, meio bicho-arisco
e arrisco dizer:
prefiro passar fome a comer o pão que o diabo amassou!
mas existem os gatos e existe Ela,
que faz questão da sua manteiga
e porções diárias de carne.
então engulo com nojo e pressa a comida que me resta
e saio da toca, atento
e sou obrigado a encarar cadáveres
perambulando por inércia,
ouvir suas preocupações,
sentir o cheiro,
confrontar suas carrancas assombrosas.
minha metade bicho-arisco se eriça,
expõe as garrinhas,
evita contato visual.
minha metade-nada vaga também como cadáver
e leciona,
sorri,
mascara a própria carranca.
sem opção
(me falta um amigo)
volto pra minha toca no subúrbio.
é sempre assim.
mas hoje saí mais cedo
e toquei a textura fria
da manhã
hoje encarei com bons olhos alguns simpáticos cadáveres
e me acalantei na voz metálica que ecoa no silêncio sereno do ônibus.
testemunhei sem pressa rotinas medíocres –
mas leves.
sorrisos até humanos.
ofereci meu lugar a um velho,
rejeitou.
aceitei.
percebi que a vida – rara e rarefeita – desperta às vezes.
percebi que dum inesperado encontro matinal entre velhas senhoras brota o sol.
mas é claro, não constará nas enciclopédias.
por isso agora recrio.
esse encontro anônimo, essa manhã rara, rarefeita
que me conduziu por fim a um boteco sujo onde comi lixo engordurado e lembrei ao que pertenço.
volto à toca.
no subúrbio.
vomito o engodo otimista e
me torno bicho-arisco
outra vez,
inevitavelmente.
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
Ode ao ódio
Eu
tenho ódio.
Muito
ódio em mim.
E
sinto esse ódio no estômago,
Nos
ombros, trapézio
Dentes
Dentes
Omoplatas
Na
glândula timo
Sinto
ódio se uma pena cai
Ou um corpo morto me esbarra
Sinto
ódio se me enrolo num fio
Ou
percebo covardia no outro
Sinto o ódio na garganta e no rosto,
No
estômago e extremidades
No topo da minha cabeça calva –
No topo da minha cabeça calva –
Sobretudo
no estômago.
Transbordo ódio quando encho a cara
Me sinto ameaçado.
Eu
sofro disso.
Eu sinto
ódio todos os dias.
Um
ódio descomunal.
No
entanto,
Descrever
o ódio não é legítimo,
Sequer
terapêutico.
O momento do ódio é breve e devastador.
Todo
o resto é abscesso.
Eu
tenho muito ódio em mim.
E
me sinto esmagado
Então
revido
Rompo o silêncio
Tremo
Ranjo
Berro.
Fecho
os olhos
Formigando
Tonto
Respiro
Quente
E me torno quieto outra vez
Como
se muito pouco tivesse acontecido.
Eu
sinto ódio.
Muito
ódio
Dentro de mim.
Dentro de mim.
terça-feira, 12 de agosto de 2014
Neblina
Mais um dia que se ensaia
No negrume da manhã
Motores e pássaros bocejam
Despertando janelas fechadas
Café é bebido em caneca
Pois solidão não exige xícara.
Pequenos humanos cumprem pequenos rituais
Em pequenos apartamentos
(Soando discretos ruídos)
Algumas luzes
apenas ainda
Flertam discretas
Vizinhos cogitam:
"Talvez hoje"
E de soslaio buscam o Sol,
Que já vem surgindo
Pra dar fim às possibilidades
alimentadas
no bocejo da manhã
(Neblina)
Esse breve instante que aos olhos morre,
Lento e logo.
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
Rasa
Uma mulher sem alma
Tão rasa que nada absorve —
Transborda:
Transborda:
Palavras dementes, recortes de Nada
Sua voz pastosa embrulha versos.
Seus olhos opacos bêbados querem seduzir —
Convidam pro sexo medíocre, funcionário.
Não cedo.
Enfim se cansa da minha caretice
(Ela pensa que abrir as pernas é abrir a mente)
e vai com alguém que passa na calçada
fazendo um sinal com os dedos.
Emborco meu último copo e procuro meu rumo.
Ainda há um longo caminho,
Presumo
com os olhos marejados de cerveja
e astigmatismo.
quinta-feira, 31 de julho de 2014
domingo, 13 de julho de 2014
sábado, 5 de julho de 2014
joelhada nas costas
definitivamente,
esse é tempo de partida.
tempo de vértebras partidas.
é tempo de partidas
entre bandeiras
(de partidos, países.)
e o povo
deve optar.
tomar partido enquanto há tempo.
(não há tempo.)
parte desse povo
patriota
(que não se vê povo)
preenche
os assentos do espetáculo.
o povo operário
(em contrapartida)
preenche
com seus corpos partidos
as fendas do estádio mal assentado.
definitivamente,
esse é tempo de partidas,
bandeiras.
definitivamente,
esse é tempo de vértebras e viadutos
partidos.
segunda-feira, 26 de maio de 2014
A cidade como um ser
Retorno como turista à cidade que conquistei
e me divido entre ela e você.
Busco recuperar entre-prédios sensações antigas que me façam ficar
mas — sem desejo — te encontro na antítese de todas essas mulheres.
Aqui, à tua ausência física,
percebo que em mim você é também uma cidade.
(Cidade como um ser que pulsa.)
E as ruas se bifurcam, me secam as palavras.
Confundem-se as cidades,
no entanto não se fundem.
Avenidas e anúncios sobrepostos em postes nos distanciam.
Impostos contabilizados em via pública não me valem nada.
Bibliotecas surdas não me informam.
Negligencio trêmulo o semáforo pensando em nós,
esfrego os olhos para que você suma da pálpebra e flagro nos dedos a aliança que nos iniciou
nessa cidade onde agora você está,
e é.
Eu fugi,
fraco.
(Profetas embriagados em praças imundas preconizam ou ignoram meu dilema
tão carnal e urbano.)
Percorri quilômetros até aqui e parece que também aqui você sempre esteve.
Esbarro em dores herdadas do seu passado;
carrego prédios no pulmão, torres no tórax, fantasmas no estômago sôfrego.
Carrego sua sombra, seu peso no trapézio.
Aqui, à distância, te venero e desejo ainda mais — bairrista.
Não ouso parar de andar.
Me norteio no sol das cinco e, com olhos quentes secos
fatigados, te almejo outra vez,
obcecado.
O deus que tanto renegas parece agora me testar.
Sádico, me mete em labirintos de concreto fedendo a mijo onde ando em círculo, a esmo.
Gasto sola, sinto sede, tremo inteiro e cedo.
Decido voltar.
Porque essa cidade — impassível — é longa e eterna; esperará.
Já você — meu norte, minha nova cidade —, pereceria sem meus impostos,
e isso não posso permitir.
Vago vermelho ainda oscilante como sombra de vela por ruas escurecidas — o Sol já cansado.
Atravesso o viaduto, encontro rumo.
E no dilema entre essas cidades,
te elejo meu lar.
domingo, 25 de maio de 2014
Encontrinho (Micro-conto tragicômico)
Entediado, sentei num ponto de ônibus e fingi esperar. Notei um
homem sentado no extremo oposto do ponto, mas não olhei diretamente. Uma
terceira pessoa estava ali; senhora oriental sem bunda, trajando calça de
helanca. Logo esticou o bracinho curto e seguiu seu rumo.
Minutos correram, pessoas chegavam e iam. Apressadas, distraídas,
cansadas, produzidas, corretas, com ou sem mochila nas costas... Mas o homem do
início da história seguia ali, podia vê-lo pela visão periférica. Fingi então
acompanhar um carro que cruzava a avenida à nossa frente, pretexto para olhar
na direção do meu companheiro misterioso.
Dei uma encarada rápida e logo desviei o olhar. Acho que não
notou. Era um homem esguio, a pele meio escura e, assim como eu, de aspecto
maltrapilho.
Olhei de novo, dessa vez sem pudor, e nossos olhos se cruzaram.
Quebrei o silêncio.
— Tá esperando há muito tempo? — perguntei,
tentando segurar o riso.
— Há muito tempo — respondeu,
tentando segurar o riso.
— Ah, sim, e tá esperando qual
ônibus? — perguntei, quase gargalhando.
— To esperando o… Pinheiros! — ele
disse, quase gargalhando.
— O mesmo Pinheiros que já
passou umas cinco vezes? — eu já não segurava a
risada.
— Esse mesmo! — disse
meu mais novo amigo, gargalhando.
— Prazer, Ulisses — menti.
— Prazer, Gustavo — mentiu.
A despeito disso, nosso aperto de mãos foi firme e sincero, mas
logo em seguida surgiu um breve constrangimento mútuo. Tornei a olhar para o
nada, meu amigo certamente olhava para o lado oposto.
— É foda… — tentei
consertar o triste mas inevitável clima fúnebre.
— É… — disse
ele, percebendo.
— Tá fugindo do quê? — perguntei,
mas soou falso.
— Oi?
Meu amigo pareceu realmente não entender o sentido da pergunta, e
seu sincero espanto ao dizer “Oi?” me deixou ainda mais
desconcertado.
— Ah, você sabe, nós dois aqui,
sentados, sem perspectivas, esperando o fim do dia, fingindo esperar o ônibus,
vendo o tempo passar… — acrescentei, como se a
situação ainda pudesse piorar.
— Não, cara, eu não sei do que
você tá falando, não... — terminou a frase já de
pé, tentando enxergar o ônibus que se aproximava.
Eu, não exatamente querendo criar um laço fraterno, apenas
tentando dissolver tal teatro tragicômico, levantei também e, sem perceber, me
aproximei muito do meu amigo, tão assustado.
— Relaxa, cara, eu não sou
desses que ficam caçando assunto na rua, pode acreditar, só quero esclarecer
esse mal entendido.
Estávamos realmente muito próximos.
Dando alguns passos para trás, quase caindo da calçada, meu amigo
tentou se esquivar:
— Tá bom, cara, sem problemas,
mas eu vou indo agora, meu ônibus chegou. — E estendeu
seu comprido braço para o ônibus Jardim Miriam.
Nunca mais vi esse homem.
Tanto ainda
Ainda há tanto a ser dito!
Tanto ainda a ser explorado,
compreendido;
tantos primeiros cheiros ainda secretos,
nuances sem descrição
ou tela;
tantas esquinas do acaso a dobrar!
No entanto,
me flagro cheirando a boca do gato para entender que estou vivo,
enquanto
meus cem olhos opacos assistem à lenta-mas-implacável decomposição do corpo, fadado ao fracasso
como tudo,
aliás, até mesmo aquilo que jamais conhecerei.
janeiro, 2014
biografia não-autorizada de um herói nacional
nasci
senti tédio durante a maior parte da vida
enfrentei algumas dificuldades
escrevi algumas mentiras em meio a isso
e fui considerado um gênio intocável.
adoeci
morri velho e sozinho,
então me tornei herói nacional.
senti tédio durante a maior parte da vida
enfrentei algumas dificuldades
escrevi algumas mentiras em meio a isso
e fui considerado um gênio intocável.
adoeci
morri velho e sozinho,
então me tornei herói nacional.
sábado, 26 de abril de 2014
Industrial
Querendo fugir desse apartamento
que me confina,
olho pela janela e não vejo vida.
Compreendo: a vida é anti, mas também sua ausência.
Um alvorecer vermelho áspero industrial revela o inevitável:
carros
que esperam vazios seus dependentes
(alguns já enfrentam mais um dia),
trilhos prontos pra carga humana,
altos prédios em blocos-cinza,
Muros
construções embargadas, guaritas vazias,
bancos vazios na estação...
Em qual lugar,
em qual refúgio terreno esconde-se a vida?
Sob qual luz,
sob qual luz que não seja essa –
opaca e leitosa –
revela-se o milagre?
,meu peito vazio
se contorce
sem luz.
Meu peito sem leite pulsa e não ecoa.
Pelas minhas veias corre o ferro
o chumbo
metais pesados e leves
presentes nessa paisagem industrial que me brinda em todas as manhãs que encaro o dia.
Compreendo: também a ausência é vida.
Também o ferro moldado é vida.
Também o vazio é vida.
Compreendo: mesmo a espera é vida.
Querendo fugir desse apartamento
triste que me confina,
olho pela janela outra vez e compreendo:
viver dói.
(Vida essa amputada e nunca plena.)
E mesmo o amar não é pleno –
exige vigília e na vigília torna-se câncer.
Vem comigo...
Ao menos na minha fantasia, sejamos plenos.
Ainda que nas promessas, sejamos plenos.
Ainda que nos poemas, sejamos plenos.
Porque a vida não basta.
Tento outra vez, falho
e volto.
Volto e me refugio nesse poema interrompido
e impotente.
São Paulo, outubro de 2013
terça-feira, 22 de abril de 2014
Discurso sobre as camadas do silêncio
As duas
batidas secas e ágeis na porta interromperam
o ritual diário de Poliedo. Estirado no escuro, colchão no chão, numa
espécie de transe induzido, Poliedo recebeu aquelas batidas como um aviso
aflito e pesaroso; semelhante ao pai que nutre grande amor pelo filho, mas, num ultimato, anuncia que não
medirá esforços para afastá-lo do vício em drogas.
Era
sua esposa – Poliedo sabia – do outro lado da porta do quarto,
usado como biblioteca e refúgio.
– Pode entrar.
Como
alguém que se arrepende, a esposa de Poliedo abriu a porta cautelosamente e,
enxergando apenas as pernas do marido – iluminadas pelo feixe de luz que acabara
de entrar –, ainda do lado de fora ela perguntou:
– Não vem comer? Já esfriou tudo. Seus
bifes eu ia fritar na hora, senão fica duro.
– Pode deixar que eu me viro depois,
não to com fome agora –
respondeu estático, tendo apenas tensionado involuntariamente a coxa esquerda,
ainda de olhos fechados.
A
esposa ainda manteve a porta aberta por alguns segundos – Poliedo se percebia
observado –,
então o silêncio e a penumbra tornaram a reinar no quarto.
Ele não
sabia, sequer tinha interesse, mas os relógios já passavam das 18h; exceto o da
cozinha, sem pilha, parado às 11:45 – e justamente nisso pairava seu pensamento
desconcentrado e nômade.
Lá
fora o trânsito se intensificava, era possível perceber pelo som urbano dos
motores, pneus no asfalto da avenida e, sobretudo, pela suspensão parcial do
silêncio.
“Eu
deveria escrever sobre o silêncio...”, pensava então, “sobre as múltiplas
camadas do silêncio... As diversas naturezas do silêncio, talvez até me trancar
numa sala anecóica pra compreender de fato o que é o silêncio, porque
certamente isso não é. O que agora trato como silêncio é
simplesmente o isolamento; o abismo entre eu e o resto do mundo. Silêncio é o
que preenche essa bolha onde agora eu estou; esse espaço em branco, vazio,
escuro. Pela janela, além do trânsito, me invadem inúmeros ruídos: o canto insistente de
uma cigarra, talheres tilintando, algum pássaro muito distante, a voz abafada
de uma criança e outras dezenas que percebo mas não decifro, que impedem um
certo tipo de vácuo, que dão textura a esse espaço que me abraça,
possibilitando o próprio isolamento. O silêncio cotidiano nunca é pleno. E eu
sou muito grato a isso...”
Poliedo
levantou num pulo, ofegante, tomado por um formigamento cego, acendeu a luz e
se pôs a procurar papel e caneta, afim de transcrever seus pensamentos acerca
do silêncio, mas – como sempre – fatores externos arruinaram seus planos.
Encontrou papel, mas não caneta. Teve ódio ao ver as palavras se perderem; ao
ver que, sob a luz, era apenas um homem comum inserido num enredo tragicômico,
encenado de si para si.
Abriu
a porta do quarto e ao fazer isso sentiu uma lufada de ar leve e límpido – quase
pôde notar claridade no corpo do ar. A esposa estava na sala, entretida em
alguma atividade.
– A carne tá num pote, na
geladeira, já temperei, é só fritar.
– Você viu a caneta?
– Que caneta?
– Aquela que eu uso pra preparar as
aulas. Pode ser qualquer uma, na verdade...
– Não sei, não sou eu que uso...
deve estar nas suas coisas de música.
– Não tá, já procurei – retrucou
com certa agressividade.
– Eu não sou obrigada a saber onde
você guarda suas coisas. E não começa a gritar comigo, eu não fiz nada!
– Não to gritando, caralho!, mas é
sempre assim, quando eu finalmente consigo sair do marasmo, tudo acontece pra
me atrapalhar e eu não consigo produzir!
– Oh, tadinho! – disse num tom irônico
que irritou Poliedo ainda mais – Como o mundo é cruel com você, né?
– Vai se foder! Só te pedi uma
caneta, porra, não uma opinião.
– Pra quê falar assim, meu? Não
joga a culpa em mim; se você não consegue mais escrever, não é me culpando que isso vai ser resolvido. E talvez se você se preocupasse um pouco
mais com outras coisas, não se frustraria tanto quando uma coisinha assim desse
errado...
– Como assim “outras coisas”? O que
você sabe sobre isso?! Eu só te pedi a porra de uma caneta, não um sermão! –
interrompeu, já se dirigindo ao quarto.
– É sempre assim – a esposa
insistia –, você passa o dia inteiro em casa fazendo nada, fora do mundo real
e, quando não consegue escrever, me agride, me rebaixa...
Poliedo
mal havia fechado a porta, abriu-a de novo, com brutalidade, e foi na direção
da esposa; pegou-a pelo braço com rispidez e olhou-a de modo opressor, de cima
para baixo.
– “Fazendo nada”?! Eu não tenho
culpa se você escolheu se atarefar ao ponto de não conseguir mais pensar...
– Ah, eu escolhi?!
– ...Eu me dou o direito de ficar
parado e não vejo mal nisso! Ou você acha que suas aulinhas e seu trabalhinho
num balcão são mais reais que meus textos? Você acha que as visitinhas que você
é obrigada a fazer à sua mãe são mais reais e mais importantes que minhas
meditações?! Você se acha mais humana por conviver no meio das pessoas, mas na
verdade você não sabe nada sobre elas! Eu vivo desse jeito, em silêncio e no
escuro, porque me condenei a isso. É meu dever! E eu cumpro ele! E sou bom
nele! Agora me dá a porra da caneta e pode voltar pros seus afazeres reais e
ridículos!
Poliedo
saiu de cena com orgulho, sem caneta e sem resposta. Sabia que havia exagerado,
que não devia ter rebaixado a esposa e que no fim ela estava certa. Precisava
arranjar um emprego se quisesse seguir com aquela vida comum, matrimonial.
Pensou em pedir desculpas, mas sabia que amanhã tudo estaria bem outra vez.
Sentiu
falta dos seus dias de estrada e da parcial liberdade que isso proporcionava.
Então, sem mais nem menos, achou a caneta. Voltou ao quarto, mas a atmosfera densa e repovoada condenou
suas últimas palavras ao ostracismo. O discurso sobre as camadas do silêncio
teria de esperar.
Poliedo
catou uma toalha limpa e se dirigiu ao chuveiro, desejando um demorado
banho, no escuro. “Mais tarde, revigorado, eu posso finalmente escrever”,
pensou.
***
O
que se seguiu não foi exatamente assim. Depois de um longo e lento banho no
escuro, Poliedo fritou os dois bifes e sentou-se no sofá, diante da TV
desligada, decidido a encontrar um emprego no dia seguinte.
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