terça-feira, 29 de novembro de 2016

Poema escrito enquanto eu dormia



O silêncio sibila sincero através do meu ouvido míope
Gotas de alho atravessam meu tato inodoro
The heavyweight George Foreman defends his title against Ken Norton
Teço esculturas através do escuro silêncio sólido na edícula pastoral
Meus ancestrais bípedes plantam bananeiras sobre aquarelas
Minha bola esquerda se contrai nefasta num processo de evangelização

Muhammad Ali, the dancing master with tremendous hand speed

Licenciatura estéril
Herpes
Santo Agostinho catequizando putas no Pará
Consciência mole, inconsciente ativo
Lacunas no discurso elástico de Lacan




terça-feira, 22 de novembro de 2016

morte



seguir vivo — tarefa impossível.
não pertenço
nunca sei pra onde ir
e se pareço livre é porque tô sempre fugindo


viver é uma obrigação.


nem arte, nem ofício
só a morte liberta.
mas ao suicídio me falta coragem
(talvez pretensão de ser eterno)

então sigo
não pertencendo
sempre fugindo
trêmulo
obrigatoriamente

e noites cruéis hão de chegar
posição fetal
uma luz acesa
imóvel, estático
nulo
escrevendo poesia inútil
enquanto arquiteto a melhor forma de acabar com isso



Ex



Expulso da sala de estar
cidadão do mundo
Me adapto num banco de padaria


Meu passado encaixotado
meu lar
             encaixotado, bagunça

Meu reflexo no balcão de frios
expulso do passado
ex-marido
Malparido, parado
       esperando o relógio me expulsar
em transe, delírio
   
      ex



  etc



banco de rodoviária



tenho tudo que sempre quis agora:
folha em branco
tempo
um banco de rodoviária
passagem no bolso
lápis
e a tela pálida do amanhã.

no entanto sigo tonto
tenso e

triste.



estrada-canção



indo embora
sempre
daqui

me vi rio
me vi mar
montanha

estar, estado de ser
   passageiro   estrangeiro   turista

me vi frio
me vi bar
calçada

indo embora
sempre
daqui


estrada



mitridatismo



do silêncio nasce a dúvida
diluída, mitridática

da folha arrancada o poema
manuscrito, apressado
em dúvida.

do fim de um ciclo, teu sorriso
teu rosto
teus cachos
teu pescoço

da longa espera nasce o sonho, tédio.
da longa espera uma esfera opaca
diluída,
murcha
mapas viários, continentes.

da próxima linha, a insatisfação com a poesia
que agora nasce:

                            fim.




parede de vidro




parado pareço estranho
pintando poema em tela-caderno

no metrô meço meu passo
lento

lendo poesia
faço

respiro água
com gás

me banho na clareira
parede de vidro

parado no tempo

me torno estátua




carta de despedida precoce encontrada num fundo de armário


São Paulo, 05/2010                                  


sei que vai durar pouco mas não me importo
brindemos.
sei exatamente o que vou sentir quando isso acabar,
aliás, já começo a sentir e quase não me importo.

vou me arrepender de não ter sido pleno e me repudiar por ter caído em armadilhas tão simples.
vou te procurar por todos os cantos,
cidades e rostos
pra tentar a redenção.

não vou te encontrar.

sinceramente vou desejar o seu bem antes de dormir e lembrar — sem sono — dos nossos silêncios e olhares furtivos a uma distância segura.
tão certo quanto o seu caráter, vou te agradecer por ter me cedido lápis e matéria quando tudo o que eu tinha era lama num tubo de ensaio.
nossa historia terá sido triste e nostálgica.
nossa despedida será tão efêmera quanto imagino agora e apesar de sabermos disso tudo, choraremos.

nossas bocas só se tiveram por uma noite.
tudo para nós terá sido incompleto.
um para o outro seremos uma lacuna opaca onde o silêncio é auscultado.
sei que está para acabar e que será cruel.
sei que tenho medo.
só não entendo porque escrevo assim, tão triste, se você está agora
tão perto de mim.