sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O Silêncio — Romance em capítulos (Segunda parte)



I



Mal havia amanhecido, o interfone não precisou de cerimônia para soar seu alarme já esquecido e agudo demais aos ouvidos dele. Talvez pelo ambiente opaco do apartamento quitinete, todo fechado, iluminado apenas pela fresta de luz morna que entra através do buraco na grossa cortina vermelha. A poeira parece dançar tango durante a luz. Ele, deitado num colchão no chão, na extremidade oposta do apartamento, acordado há sabe-se lá quantas horas, cinco dias sem sair de casa, olha estático para o feixe de luz como quem não tem escolha. Costuma imaginar que somente dentro do feixe há poeira; que o resto do apartamento está limpo. Sabe que não, e apesar disso gosta de estar ali, refugiado naquela cidade. Sozinho. Outra vez. Mas não consegue dançar tango na própria fantasia porque agora mesmo o interfone inicia a segunda rodada.
O interfone está ao lado da janela. De seu colchão não consegue enxergar o aparelho que sequer cogita atender. Olha fixo pro teto. Repara numa pequena rachadura na tinta branca. O interfone insiste. Calcula que seja terça ou quarta-feira, algo em torno de 7:00am. Faz esforço para se virar de lado e alcançar um bocado de papel que usou pra esboçar alguns poemas recentemente. Vasculha as páginas, ignora os poemas e só sossega quando encontra o desenho de uma mulher sendo currada por um homem de mandíbula muito projetada pra frente. Ele quem desenhou. Segura a folha em frente ao rosto com a mão esquerda, com a direita pega no pau e começa a bater. O interfone segue. Tenta se concentrar e imaginar que ela sente prazer. Projeta nessa mulher uma dúzia de mulheres que conheceu ao longo da vida e a cada mulher que se lembra, lembra também dos pesares, dos abismos, da maneira cruel com que todas as relações terminam, inevitavelmente. Pensa em Lígia. O pau vai amolecendo, fecha os olhos com força, estica muito a pele do pau, bate com esmero, percebe que não vai gozar e desiste. Joga o desenho longe e torna a olhar para o teto. Demora pra encontrar a rachadura. O ar ali dentro é quase sólido, fede a virilha e peido. A hipótese de cruzar aquela porta lhe parece distante e terrível. Apenas dois metros separam-no do mundo lá fora, no entanto, parecem árduos quilômetros. Tem do mundo o suficiente: a luz límpida e fresca que entra discreta por baixo da porta, os sons saudáveis do dia, os passos cordiais de seus vizinhos.
Não sabe ao certo quantos apartamentos se distribuem pelos andares, mas supõe doze.
"15 andares vezes 12 apartamentos = 180 apartamentos no prédio, vezes 8 blocos = 944 apartamentos, menos esse = 943 apartamentos ao redor. Média de três pessoas por apartamento... 2829 pessoas ao redor e ninguém capaz de me salvar."

O elevador se faz evidente — seu motor grave ecoa pelas paredes —, a porta se abre e alguém caminha pelo corredor. Ele se encolhe na cama, prende a respiração e se atenta ao menor ruído. Os passos se aproximam. Seus músculos paralisam. Evita mexer até mesmo o pescoço, com medo que o intruso ouça e invada o apartamento através desse som, como faz a poeira através da luz. Involuntariamente, sua boca emite um estalido muito alto. O coração se assusta e bombeia sangue demais. O corpo esquenta. Sua cabeça parece elétrica e vazia. Ele treme. O interfone torna a tocar, seu alarme faz com que Hermes desperte do transe, levante da cama num pulo, jogue a coberta pro lado e, de joelhos, vá até o interfone. Vai engatinhando e mal percebe o carpete rude que esfola seus joelhos. Não sente nada, só calor e esperança. Levanta-se do chão e ao fazer isso a coluna estrala, também os pés e joelhos que agora sangram. Hermes num repente escancara a janela, as cortinas, respira um ar azul que quase não interpreta, gira o pescoço lentamente e atende o interfone.

     Opa.
     Pois não, Seu Hermes?
     ...
     Alô?
     Oi. Você interfonou pra cá?
     Não, senhor, quem interfonou pra cá foi o senhor.
     Não... meu interfone tava tocando sem parar, mas... eu tava no banho e não deu pra atender... aí eu atendi agora.
     Olha, eu não sei. Eu acabei de chegar, mas quem tocou agora foi o senhor. Quem tava aqui era o Emanuel, eu vou perguntar pra ele, aí eu retorno, pode ser?
     Pode ser.
     Então tá bom.

Hermes ainda hesitou por alguns segundos antes de se virar na direção do cômodo. Era agora um cidadão-janela-aberta, seria difícil encarar aquele apartamento triste, minúsculo e imundo, sem espelho, mobília ou carisma. 
Um prazer diurno o invadiu; uma pureza, enfim. Na rua da frente estava montada uma feira. "Isso quer dizer que é sábado." Pelo modo como a luz está batendo na lona das barracas, pelo ruído e pela aparência das pessoas é possível perceber: são 9:00 da manhã. Deu de ombros e resolveu vestir uma roupa, encarar o dia. A geladeira estava vazia, também a despensa. 
“Pronto. Acordei. Sair da caverna e andar um pouco vai me fazer bem. Quem sabe até eu consiga fazer aquela maldita trilha sonora quando voltar.”
O interfone tocou.

     Oi.
     Oi, Seu Hermes, eu falei com o Emanuel e ele me disse que teve uma moça aqui procurando pelo senhor. Já faz três dias que ela vem aqui procurar pelo senhor. Ela disse que era importante e perguntou se podia subir, mas o senhor sabe que a gente não pode deixar ninguém subir sem autorização... Aí hoje ela deixou uma encomenda aqui pro senhor. Uma caixa...
     Uma caixa?
     Sim, senhor.
     Ela disse o nome?
     Luiza. Tá escrito aqui.
     Tudo bem. Daqui a pouco eu desço pra pegar.
     Então tá bom.
     Valeu.

“Quem, diabos, é Luiza?”, fecha a janela, as cortinas, lava o rosto, bebe água da pia e deita-se de novo.
Os joelhos sangram carpete, mas isso não o impede de usar o lençol branco para se cobrir. 
Fecha os olhos, tenta desviar de imagens sujas e indesejadas que recebeu como tortas arremessadas num show cômico e se pôs a imaginar quem poderia ser essa Luiza. Lembrou-se de uma Luiza com quem havia estudado na quarta série. Uma de suas muitas paixões de infância. Certamente não é a Luiza da encomenda.

     "Uma caixa?"

Acorda num tranco, uma pesada chuva do lado de fora. Faz frio. O vento uiva.
Permanecer em casa lhe parece agora absurdo, mas com essa chuva fica impossível sair.
Vai até a janela e, mesmo sem abrir, constata um céu muito escuro e opressor.      
Sem relógio ou calendário em casa, encontra-se suspenso no tempo.































II


Interfona pra portaria.
Quinta-feira, duas da tarde.
Calça chinelos, abre a porta com certa estupidez e dirige-se ao elevador.
Desiste, vai de escada.
Nota o fedor que sobe do próprio corpo, o sangue nos joelhos.
No caminho à portaria toma um pouco de chuva. Detesta a sensação. Nunca compreendeu o misticismo em volta do tal banho de chuva. A água cria uma lama entre os dedos do pé. Sente que pisa em merda mole.
Não há ninguém na portaria. Tenta espiar pelo vidro escuro, não distingue nada lá dentro. Pelo contrário, acaba enxergando o próprio reflexo no vidro fumê.
Cabelo ensebado, uma barba que denota derrota, o bigode cobrindo a boca que fede estômago vazio.
O porteiro vem correndo. Aparentemente também não é adepto ao banho de chuva. Corre rápido como quem pede desculpa pela ausência. Entra na portaria sem falar com Hermes, parece empenhado em entregar a caixa.
Enfim clareia a expressão quando entrega a Hermes uma caixinha quadrada de papel grosso, revestida por um celofane preto brilhoso, a tampa presa com singelos pedaços de durex, nenhuma indicação aparente.
Hermes agradece sem tirar os olhos da caixa. Pensa em abrir ali mesmo mas decide fazê-lo no apartamento. Sobe correndo as escadas. O barulho dos chinelos ecoa no prédio todo. Abre a porta com arrogância, deixa os chinelos do lado de fora, raspa os pés na panturrilha e se joga no colchão com a caixa em mãos.
Analisa minuciosamente o exterior da caixa modesta. Por um momento não deseja abri-la. Sente prazer ao olhar a caixa.
O estômago ronca. Hermes sente uma tontura abrupta. Nota que está ofegante, sente o coração latejar no pescoço. Está sem comer há mais de 24 horas. Gastou as últimas energias descendo e subindo escadas, expondo-se ao mundo lá fora. Não ousa abrir a caixa nessas condições.
Vai até a cozinha conjugada e vasculha os armários. Encontra um pacote de açúcar fechado com pregador de roupa. Joga o açúcar na frigideira, acrescenta um pouco de água da torneira e vai mexendo até pegar consistência. Desliga o fogo mas segue mexendo pra não empedrar. Come o caramelo entre sopros e queimaduras. Sente ódio quando derrama o caramelo quente no pé. Vislumbra a frigideira sendo arremessada pela janela. Come mais algumas colheradas e joga a frigideira na pia, surpreendentemente limpa.
Hermes não consegue pensar. Sente a cabeça travada, poluída. Por um instante esquece a caixa. Faz uma série de alongamentos, estrala as costas, pernas, ombros, pescoço, pés. Uma sinfonia de estralos.
Uma eletricidade orgástica percorre o corpo todo. A mente clareia. Já não chove tão forte lá fora.
Decide abrir a janela outra vez, ventilar a toca.
Num relance pensa em Lígia e na efemeridade daquela relação que terminou em morte. A morte da mãe.
Lígia não suportou a frieza com que Hermes lidou com a situação. Chegou a chamá-lo de psicopata, doente. Fez suas malas (como sempre fazia em discussões), pediu um táxi e voltou pra casa da mãe.
Hermes seguiu sozinho por mais dois meses no apartamento, até que o contrato expirou. Sem perspectivas naquela cidade, decidiu voltar a São Paulo. Não foi ao velório da mãe. Hermes não compreende velórios.
Pensa no velório de seu avô paterno. Aquele corpo absurdo no caixão pequeno demais. As flores cobrindo as pernas do morto. O cheiro do caixão que persegue Hermes até hoje...
Enxerga a caixa negligenciada ao lado do colchão no chão. E sem teorizar sobre caixas e Luizas, retira cuidadosamente os pedaços de durex.


III


Marcaram pras 20h mas Hermes, ansioso demais, chegou às 19:20h. 
Pede uma cerveja e um Cynar. Tenta não beber rápido demais. Mata um copo de cerveja num só gole, deposita um pouco de cynar no copo vazio, preenche com cerveja e vê nascer sua íntima criação: cerveja de alcachofra, uma coloração fascinante.
Dá um gole moderado e se dispõe a olhar seu redor. Homens se agrupam ao redor do balcão, alguns botões de camisa abertos, pós-expediente. Muitos estão ali o dia inteiro, Hermes supõe. 
É o único nas mesas. Sente-se menos viril por isso. 
Dá mais um gole e nota um tipo curioso sentado sozinho na extremidade do balcão. Lendo um jornal que parece absurdamente grande, o homem bebe cerveja de uma lata. É jovem, tem olhos loucos. Hermes mata seu copo, levanta-se e vai até ele.

     Muito sangue no jornal?

O rapaz olha friamente para Hermes. Seus olhos são opacos.

     Não sei. Tô lendo a seção de economia.
     Sangue numérico.

O homem não vê graça. Tampouco Hermes, que se sente meio imbecil e volta à sua mesa.
Seu copo está cheio. Inexplicavelmente.
Agradece mentalmente e vira tudo num gole só. Sente-se muito agitado. Luiza pode chegar a qualquer momento. Não conhece sua aparência, julgou grosseiro e ultrapassado perguntar isso ao telefone. Pela voz, um baita mulherão. Pele tom de cobre, cabelo ruivo tingido, armado, lábios carnudos. Imagina uma foda incrível, ela com as pernas erguidas, olhando nos olhos de modo desafiador.
O homem do jornal surge num repente e senta-se à mesa com Hermes, que agora tem o poder e o olhar impessoal.

     Desculpa se eu fui escroto com você. Costumo adotar essa postura pra evitar bêbado chato. Mas eu tava te olhando e notei que você é um cara legal. Eu me chamo Rafael, se isso te interessa.
     Leonardo, prazer — Hermes sempre mente seu nome em bares e estradas.
     Prazer, Leo, posso te chamar de Leo?, tá esperando alguém ou é dos meus, que vem sozinho pro bar?
     Ambos. Hoje, especialmente, tô esperando uma mulher que eu nunca vi na vida.
     Acho que todos os bêbados de todos os bares do mundo esperam por essa mulher.
     Sem dúvidas. Mas hoje eu realmente tô esperando uma pessoa. É uma história complicada. Ela deve chegar a qualquer momento. Aliás, que horas são?

Rafael, o homem do jornal, olha de modo esquisito pro seu relógio de bolso e afirma: Sete e cinquenta.

     Ela deve tá quase aí. Marcamos pras oito.
     Já entendi, você quer que eu vá embora...
     Não é isso. Pode ficar até ela chegar. Prova isso aqui.

Hermes preparou sua cerveja de alcachofra, coloração surpreendente, e empurrou o copo na direção de seu mais novo amigo, que não fez questão de perguntar. Virou uma boa golada, com pinta de bêbado profissional.

     Gostou?
     Porra, demais. Cerveja com Cynar? Nunca teria pensado nisso.

Hermes notou o olhar de seu amigo perder o foco e acompanhar alguém que acabava de entrar pela porta.

     É essa a sua amiga?

Luiza se aproximava bastante da imagem que Hermes criara. Só um pouco mais velha e mais baixa.
Rafael se levantou e voltou ao seu canto, seu jornal.
Hermes, olhando para trás, por cima do ombro, não tinha dúvidas: era ela. Andava com firmeza e uma certa classe natural. Os olhares dialogaram. Ela sentou-se à mesa e, antes de falar qualquer coisa, chamou o garçom. "Uma dose de whisky sem gelo e uma garrafa de água com gás, por favor."
Então olhou frontalmente, sem pudor e com malícia para Hermes, desarmado mas com a guarda alta.

     Você não deve ter entendido nada, né?
     Na verdade eu entendi tudo. E achei surpreendente. É algo que eu faria com certeza.
     Com certeza?
     Sim. — Hermes responde sem desviar o olhar. Está sendo desafiado e gosta disso.
     Chegou faz tempo?
     Uns cinco minutos.
     E já acabou com uma garrafa de cerveja e uma dose?
     É... Calor... Cê sabe...
     Eu só sei que, ou você bebe desesperadamente, ou tá mentindo e chegou há mais tempo, só não quer admitir pra não parecer fraco.
     Eu pareceria fraco se dissesse que cheguei há quarenta minutos?
     Não sei. Pareceria? — O sarcasmo é quase sólido.
     Você é terapeuta?

Ela solta uma gargalhada pro alto, a garganta fica evidente, também um enorme par de brincos que Hermes não havia notado.
O garçom chega com o whisky e a água.
Ele pede mais uma cerveja e mais uma dose.

     Eu cheguei há quarenta minutos.

Luiza sorri de modo cortante e diz "Eu sei."


IV


Hermes acorda em casa. Sozinho, vestindo a roupa da noite anterior. Não sente ressaca, embora não lembre como chegou em casa. Nunca lembra, por isso não se espanta. Tem uma sensação latente de que agiu de modo idiota. A última coisa que lembra é dançar tango com Rafael, o homem do jornal, no meio do bar. Luiza não se encontra mais em cena. Foi embora logo após o inevitável beijo bêbado. Um beijo afoito, cheio de língua e batom. "Eu já sei onde isso termina", ela diz, "e hoje eu não posso."
Ao tirar a roupa pra entrar no banho, Hermes nota um papel dobrado no bolso.
No papel há um triângulo, reticências e dois olhos desenhados.
Ele se lembra: teve uma ideia genial, pediu papel e caneta ao garçom, anotou rapidamente a ideia de forma simbólica e voltou à jukebox e aos amigos bêbados.
Um triângulo, reticências e dois olhos.
Hermes não faz ideia do que isso significa. Amassa o papel e joga no lixo.
"Eu preciso fazer aquela trilha sonora."
Liga o chuveiro e apaga a luz do banheiro. Deita-se no box de olhos fechados sob a água.
Que noite improvável. Um encontro às cegas com uma mulher que encontrou por acaso seu nome e endereço anotado num papel, em alguma rua de São Paulo. As informações foram escritas a próprio punho por Hermes, dias antes, quando saiu pra beber pela primeira vez em meses e, temendo perder-se na volta, anotou nome e endereço num pedaço de papel, com os dizeres "SOFRO DE CONFUSÃO MENTAL QUANDO BEBO. FAVOR ME GUIAR A ESTE ENDEREÇO". Hermes também não sabe como chegou em casa nesse dia. Mas chegou. Sempre chega. Agora não sabe se já nesse dia conheceu Luiza e não se lembra. Faria mais sentido. De qualquer forma, o encontro não foi tudo isso. Não pretende encontrá-la outra vez. Precisa se concentrar na trilha sonora que aceitou fazer de graça pro curta-metragem de uma amiga de Minas Gerais.
"Por que ela se deu ao trabalho de escrever aquela carta enorme e entregar numa caixa? Por que insistiu três dias consecutivos?"
Hermes, no chão do box, de olhos fechados, lembra-se então de um fato curioso da noite anterior. Luiza falando sobre como Hermes lembrava um filho que ela havia perdido. Suicídio. Lembra agora com vivacidade da expressão desesperada nos olhos dessa mãe. "Meu filho era como você, pensava carregar um fardo maior do que podia aguentar. Por isso se matou. Promete pra mim que não vai fazer o mesmo!"
Foi então que aconteceu o beijo. Um beijo dramático. Um beijo alcoólatra, suicida. Um beijo cheio de língua e desespero.
Então o tango com o homem do jornal; então o dia de hoje. Simples assim.
Hermes agradece a sorte que tem. Surpreende-se por ainda estar vivo.
Desliga o chuveiro e volta à cama, decidido a fazer a trilha sonora.


V


Cheio de energia, Hermes ganha a rua. É a primeira vez em muito tempo que sai de casa durante o dia sem a intenção de ir ao bar.
Precisa ir ao banco. Normalmente essa obrigação o torturaria, mas hoje cumpre com alegria nos lábios. Faz sol mas não calor. Hermes se encanta com os mínimos detalhes do mundo, como se tivesse esquecido sua face; como alguém que volta a enxergar após uma cirurgia.
Caminha cantando, sorri pras pessoas, vê beleza numa conversa de senhoras do outro lado da rua. Traz em mãos um livro que não lerá pois está encantado demais com a vida real e saturado das páginas. No entanto carrega o livro por segurança.
A porta giratória do banco trava. Hermes se assusta. Morre de medo de portas de banco. O guarda do banco — essa pequena autoridade — manda Hermes voltar, depositar chaves e celular no compartimento da porta. "Não to com nada nos bolsos."
Tenta de novo e dessa vez consegue entrar. Sabe que foi barrado pela sua aparência. Sabe que é o guardinha quem controla a porra da porta. Encara o pequeno homem com ódio. O segurança ri pro outro guardinha, que retribui o sorriso como se fosse uma colegial tímida.
Hermes tem de ficar em pé, o banco está lotado. As pessoas falam. Todas ao mesmo tempo. Alto demais. O mundo já não parece mais tão belo assim.
"Isso é um absurdo. Onde já se viu, pra atender tudo isso de gente eles colocam só três funcionários. Tem mais dois caixas vazios, eles podiam colocar mais gente pra atender.", diz um velho.
Todos concordam.
É sexta-feira, dia de vencimento da conta. Hermes quer desistir, voltar pra toca. Mas permanece ali em pé, um pouco tonto. O gosto de alcachofra se sobrepõe à pasta de dente. Hermes vai até o filtro e bebe dois copos d'água. Sente que todos o observam. Todos cochicham sobre ele. Até o velho lastimoso. "Onde é que já se viu, esse cara chega aqui com essa barba de desempregado, essa cara de quem bebeu a noite inteira, ainda se acha no direito de beber a nossa água. A água paga com o nosso dinheiro! O dinheiro dos nossos impostos!"
Hermes se vira na direção das pessoas e percebe que ninguém olha pra ele. Num relance enxerga através da porta de vidro uma pessoa conhecida passando apressada pela calçada. Não reconhece, de fato, mas compreende a importância daquela pessoa. Num ímpeto vai atrás. Estanca no meio da agência. Olha o relógio: 15:57. Se sair agora não entra mais. Se não pagar hoje, a conta vai atrasar, gerar multa, toda essa merda. Hesita um pouco mas teme perder a pessoa de vista. Sai apressado do banco. A porta giratória trava outra vez. Hermes sente o ódio escorrer pela nuca. Olha pro guardinha, que ri de modo grosseiro. Da um chute na porta, ganha a rua e se dispõe a correr atrás de alguém que já não sabe se conhece.
No caminho percebe que esqueceu o livro no banco. Não para de correr. Segue sua intuição e vira à esquerda numa rua onde nomeou todas as casas numa de suas andanças pelo bairro. Certeiro. O homem perseguido está parado em frente ao portão da casinha amarela: "Gema".
Tenta disfarçar, mas não sabe o que fazer com as mãos. Nunca sabe. Cruza os braços? Põe as mãos no bolso? Atrás do corpo? Segue caminhando? Se ao menos tivesse um cigarro, sua presença ali deixaria de ser suspeita. Mas não tem, não fuma.
O homem misterioso troca algumas palavras com alguém através do portão da Gema. Acena e segue seu rumo. Hermes vai atrás. Sente que o velho lastimoso ainda olha pra ele. "Onde já se viu!".
Checa a retaguarda, o velho não está. Quando se vira, dá de cara com o homem, que olha pra ele e sorri. Os dentes amarelos, o bigode amarelado, a barba irregular, o cabelo branco ensebado, olhos de pescador, rugas de quem passou por poucas e boas.

     Tá atrás de mim, campeão? — O tom de voz é sereno e ameaçador.
     Não! É que eu te vi passar e achei que era... — O homem nubla a expressão e vai pra cima de Hermes. Empurra com as duas mãos.

     Sai daqui, seu comédia! Desaparece da minha frente, seu filho da puta!

Hermes fica sem reação. O velho destila ódio.

     Seu viadinho! Some daqui, seu merda!

O velho sai correndo rua abaixo. Hermes vai atrás sem saber o motivo. Correm cerca de 20 metros, até que Hermes consegue alcançar o velho e dar um chute certeiro numa das pernas. O velho cai de cara no chão. Hermes pega no ombro do velho e o vira de barriga pra cima. Coloca o joelho no estômago do velho e dispara uma sequência de socos e cotoveladas até que o velho, jorrando sangue, desmaie. Ou morra. Hermes não sabe. Não consegue pensar. O coração bate no ouvido, a garganta fecha, os ombros se erguem, armados. Sente que alguém respira por ele. Esquece o próprio nome.
Algumas pessoas olham de longe, sem pudor. Grupos de curiosos surgem. O velho não se mexe. Hermes tem um lampejo de sanidade e sai correndo rua acima. Quase infarta quando chega novamente à avenida principal. A cabeça lateja, o corpo exala álcool. Pensa na mãe morta. Pensa em Lígia; no papel higiênico sujo com a merda dela. Passa em frente ao banco, ainda cheio mas já fechado. O segurança bebe café. O velho lastimoso parece vermelho. Fala com o dedo em riste, uma veia saltada na testa. Hermes pensa no homem que acabou de matar. Ou desmaiar. Teme ser perseguido e linchado. Se perde por ruas desconhecidas em vez de seguir o caminho tradicional. Sente desespero quando nota que está perdido em plena luz do dia, perseguido por uma multidão furiosa. Por que o homem o insultara daquele jeito? "Eu agi em legítima defesa", Hermes ensaia. Soa falso. Sente uma mão no seu ombro. "Morri", pensa num relance, os ouvidos tomados por um zumbido ensurdecedor.

     Tá perdido? — Luiza pergunta, rindo.
     O que você tá fazendo aqui?
     Eu moro aqui, você sabe disso. Eu te falei ontem.
     Falou? Não, eu... Ah, sim, eu lembro — mentiu.
     Eu to indo ali na padaria comprar umas coisinhas pra lanchar, sobre pra comer comigo?

Hermes deseja dizer não. Está sem condições de manter uma conversa. Não quer ser objeto de fissura daquela mãe que projeta nele o filho morto. Odeia comer acompanhado, no entanto sabe que é o melhor a ser feito, tendo em vista que pode ser linchado a qualquer momento.

     Nossa! Você tá todo cheio de sangue, agora que eu vi!
     É... Eu caí.
     Vamos subir! Eu cuido disso. Depois eu vou na padaria.
     Tá bom.

Luiza adquire uma fisionomia completamente nova. Já não tem mais aquela cara de predadora sexual, mas a de uma mãe preocupada.
No elevador ele tenta pensar em algo que justifique o sangue e sua presença ali.
Nada vem à mente. A realidade lhe escorre como sangue entre os dedos.


VI


Hermes finge se interessar pelos porta-retratos expostos na sala. Passa os olhos por todos mas não fixa. Vai discretamente até a janela e tenta enxergar alguma coisa lá em baixo. Aparentemente nenhuma multidão raivosa por ali. Respira pela primeira vez em muito tempo. Dá meia-volta e repara em outros porta-retratos. Em um deles vê Luiza bem mais jovem com uma criança ao lado. A mãe sorri e canta parabéns. A criança olha fixamente para o bolo cuidadosamente confeitado, com uma vela "3" em cima.
Num outro porta retrato vê Luiza ainda mais jovem ao lado de um homem idêntico ao Chacrinha. Luiza parece fantasiada de paquita. Ou chacrete.

     Gostou das fotos? Essa é aquela que te falei, com o Chacrinha.
     Você conheceu o Chacrinha?
     Cê tá brincando com a minha cara, né? A gente falou disso durante horas, ontem. Eu era chacrete, esqueceu disso?

Ele tenta dissimular mas não consegue.

     Meu deus, você é pior do que eu imaginava! Agora senta aqui pra eu cuidar desses machucados. E me conta o que houve. Arranjou briga ontem?
     Não, eu caí agora há pouco subindo uma ladeira.
     Pra cima de mim? Você pode falar isso pra quem você quiser, mas não me tira de otária. Tá na cara que isso aqui foi briga. E pelo jeito não foi ontem, não. Que que aconteceu?
     Nada demais. Um cara mexeu comigo na rua...
     E você, valentão, encheu ele de porrada?
     É. Mais ou menos isso.

Luiza suspira como mãe. Cuida dos ferimentos como mãe. Hermes sente-se sufocado ali dentro. Deseja fugir o mais rápido possível.

     Eu preciso ir pra casa... Tô trabalhando numa trilha sonora...
     Você me contou ontem. Disse que não ia fazer porra de trilha nenhuma. Que não era homem de trabalhar de graça.
     Eu disse isso?

Luiza parece não acreditar. Encara Hermes com olhos de mãe.
Ele se levanta, agradece e diz que precisa ir.

     Abre a porta pra mim, por favor.
     Você não vai embora antes de me dizer o que veio fazer aqui.
     Como assim? Eu nem sabia que você morava aqui... Se sabia, não lembrava. Eu simplesmente saí correndo pra não ser linchado e acabei parando nessa rua e por acaso te encontrei.
     Por acaso? Não existe acaso. Você veio porque queria me ver mas tava com vergonha de dizer.
     Desculpa te decepcionar, mas não. Eu realmente não sabia que você morava aqui. E mesmo se soubesse e quisesse te ver, não conseguiria encontrar sua casa. Eu sou do tipo... — Que se perde até em elevador, eu sei. Você disse isso ontem.
     Então pronto. Eu disse isso ontem e agora to dizendo que eu preciso ir. Abre a porta, por favor.
     Seu inconsciente te trouxe aqui!
     Bom, então eu mesmo abro. Tchau.
     Você precisa de mim!

Hermes abre a porta que julgava estar trancada e caminha na direção do elevador. A voz ecoa pelo corredor do prédio classe-média alta, "VOCÊ VEIO PORQUE QUIS. VOCÊ SABE QUE PRECISA DE MIM. VOCÊ DISSE QUE EU ERA SUA NOVA MÃE, QUE A GENTE IA FICAR JUNTO E UM IA PREENCHER O VAZIO DO OUTRO. VOCÊ SABE QUE DISSE ISSO! SEU COVARDE!"

Essas palavras perseguem Hermes até sua casa. Na ausência da multidão odiosa, palavras odiosas.
Será verdade? Ele teria dito aquilo na noite anterior?
Passa de cabeça baixa pela portaria e no elevador é obrigado a lidar com o olhar curioso de um casal de idosos. O sangue parece amedrontá-los. Hermes, sem jeito, sorri e diz boa tarde.
Não quer entrar em casa mas não sabe pra onde ir. Pensa em subir mais alguns andares e matar o tempo na casa do tio (dono do apartamento onde tem passado os últimos dias). Enxerga todo aquele sangue nas mãos e na roupa. Desiste. Entra em casa como quem entra numa cela de prisão. Vai até a parede, encosta a testa e permanece assim, de olhos fechados, por muito tempo.
No escuro dos olhos fechados enxerga o homem que o ofendeu. Em silêncio pisa na garganta do homem, esmaga sua cabeça contra o meio-fio, enche o corpo do velho de chutes. Sente o ódio crescer dentro de si, treme de arrepio. Abre os olhos, respira fundo e vai até o chuveiro, único lugar seguro da casa.


VII


Toma 30mg de Valium e deita. Não consegue ficar ali, a roupa de cama imunda ofende suas costas. 
Estende algumas peças de roupa sobre o colchão, ri da cena e deita novamente. Está mais calmo, o banho fez efeito. O Valium ainda não.
Questiona a própria sanidade por um instante. 
"VOCÊ DISSE QUE EU ERA SUA NOVA MÃE, QUE A GENTE IA FICAR JUNTO E UM IA PREENCHER O VAZIO DO OUTRO"
Qual a probabilidade de sair correndo de uma agência bancária, perseguir um velho, espancá-lo até a morte, depois fugir por ruas desconhecidas e acabar em frente à casa de uma mulher que achou seu endereço num pedaço de papel na rua, mulher essa, aliás, com quem teve um encontro na noite passada... Qual a chance?
Não costuma mistificar o acaso: ele existe, como existem árvores e prédios.
No entanto essa história é esquisita demais. Seu corpo amolece. Sente aquela cosquinha no cérebro. O Valium chegou. 
Pensa no velho do banco, o dedo em riste, a veia saltada na testa. "Onde é que já se viu?! Um assassino bebendo a nossa água!"
"Eu beijei uma ex-chacrete ontem."
Sente-se envolto numa nuvem de bem-estar. Nada pode atingi-lo, nem mesmo essas batidas na porta. Ou o burburinho no corredor do prédio.

de fato
somos feitos
do que fomos
durante o sono

Desperta e escreve esses versos à caneta numa folha de caderno. O corpo está amortecido. Os versos saem ilegíveis. Não consegue fazer um movimento simples, no entanto não se desespera. Ri disso. Ri com vontade. Gosta do som que sua risada emite. Ri cada vez mais alto. Ouve vozes no corredor. As batidas na porta ecoam, graves. Ri efusivamente a risada de outra pessoa. Lembra de um bêbado sem sobrancelhas que viu no bar ontem. Pensa em Lígia. Como será que ela tá? A melancolia o invade. Sente vontade de chorar, não consegue. Tenta alcançar o celular, não consegue. Fica estendido no chão do apartamento; metade no colchão, metade no chão. Adormece assim.

Um homem absurdo dobra a esquina. É noite. Apesar disso, está sem camisa, descalço e veste um shorts minúsculo de tecido fino. Os óculos desse homem são tão grossos que reduzem seus olhos a pequenas bolinhas pretas, como olhos de um porco. Ele caminha estranhamente rápido, olhos fixos no chão. Dobra a esquina. O cenário é a rua onde Hermes passou boa parte da infância. A noite é quente e clara. O homem reaparece, inexpressivo, com jeito de coitado. Tem um disco em mãos. Rubber Soul. Chega em casa e presenteia sua esposa com o disco. Acoplado a ele, uma bomba. Os dois morrem, Hermes acorda assustado no chão de casa, a luz acesa, ventilador de teto ligado no exaustor, televisão sem som.
Alcança o celular, 00:18h, cinco mensagens de Lígia. Hermes levanta na hora. Quase cai pois está consideravelmente sedado. Se apoia na parede. Devora as longas mensagens de Lígia. Relê três vezes até assimilar tudo.
Ela anda muito mal, as crises de labirintite voltaram, ela não consegue esquecer "as pequenas coisinhas do dia a dia". Diz que estará em São Paulo dali a três dias. Hermes aceitaria encontrá-la?
"Óbvio!" responde mentalmente. Apaga a luz, desliga a TV e dorme o melhor sono dos últimos tempos.

Acorda sem conseguir separar sonho e realidade. Repassa mentalmente todos os fatos do dia anterior. 
"Tanto tempo enfurnado em casa e quando decido sair é essa loucura."
Bem, as mãos estão mesmo machucadas.
As mensagens de Lígia realmente estão ali.
Alcança uma folha de caderno no chão:

de fato
somos feitos
do que fomos
durante o sono

Não lembra de ter escrito isso. É com dificuldade que decifra os versos escritos em letras flácidas.
Está ainda assustado pelo sonho que teve. Aquele homem costumava passar diariamente na rua da infância. Sentia pena dele. 
Já passa do meio-dia. Hermes sente-se dopado. Tem muito o que fazer, não sabe por onde começar.
Encontra um espaço na folha de caderno e faz uma lista:

arrumar a casa
comprar comida
lavar roupa
descobrir se eu matei aquele cara
fazer a trilha sonora
voltar a treinar boxe
me preparar pra reencontrar a Lígia

Abre a janela e lembra: é sábado. Lá está a feira outra vez. Ou o que restou dela.
Decide correr e pegar alguns legumes por uma pechincha de fim-de-feira. Tem apenas quinze reais e umas moedas. Comida suficiente pra uma semana. 
Risca um item da lista.
No corredor do prédio hesita. É arriscado botar a cara na rua.
Volta ao apartamento e faz a barba com uma gilete velha, daquelas amarelas, que está ali desde que chegou. Não tem creme de barbear, usa sabonete. Quer manter o bigode mas sabe que de nada adiantaria. Demora quarenta minutos pra tirar todo o bigode com aquela gilete velha.

Na feira não o reconhecem. 
Bom sinal.


VIII


Segunda-feira. Não dormiu à noite. Crise forte de ansiedade. Insônia.
Sente-se fraco, tonto e com olheira. Não vê as olheiras mas sabe que estão ali.
Está esperando Lígia. 
Ela disse que chegaria às quatro da tarde, são quinze pras onze da manhã e ele já está pronto. Arrumou a casa no dia anterior. Olha as horas a cada cinco minutos que valem por semanas inteiras.
Está sem café em casa. Cata as moedas e ensaia tomar café na padaria mas tem medo que ela chegue nesse meio tempo.
"Ela chega daqui a cinco horas. É matemática. Você consegue tomar café na padaria e voltar em menos de cinco horas."
Convence a si mesmo e vai.
Toma com pressa um café horrível, adoçado.
Volta correndo pra casa na esperança de encontrá-la na portaria.
Ela não está.
Sobe as escadas de dois em dois degraus, chega ofegante em casa.
Faz uma série de alongamentos, bebe água, lava o rosto, olha o relógio. 11:23.
Não suporta a espera, decide ler alguma coisa. Escolhe seis livros e deita-se com eles, tomando cuidado pra não bagunçar a roupa de cama.
Folheia todos, não se interessa por nenhum. Deixa os livros de lado e fecha os olhos. Enxerga um Pollock atrás das pálpebras.
Faz alguns exercícios físicos, bebe mais água, acaba cedendo e toma um Valium. Está absurdamente ansioso. Não sabe o que fazer até as quatro.
Decide treinar boxe. Risca mais um item da lista.
Durante o treino lembra do homem que matou (matou mesmo?).
Sente falta de ar, tontura, vergonha, culpa, vontade de cagar, frio, calor, angústia.
Dá um chute na porta do banheiro, que quebra.
Resolve sair de casa outra vez, andar pela rua. Ainda não é meio-dia.
Lembra um poema de Drummond:

"Tolera-se o minuto. A hora suporta-se.
Admite-se o dia, o mês, o ano, a vida,
a possível eternidade.
Mas o segundo é implacável."

A rua é implacável. Muita luz, carro, gente, barulho.
Lembra-se da conta que não pagou naquele dia. Sente-se extremamente feliz por ter encontrado uma atividade que anestesie a espera.
Volta correndo ao apartamento, perde uns bons minutos procurando o boleto e vai até o banco.
Fechado.
"Hoje é feriado."
Tenta pagar no caixa eletrônico mas não consegue, a conta está vencida. Só amanhã.
Segue andando sem rumo e vai parar outra vez na fatídica rua. Por sorte não encontra Luiza dessa vez. Caminha a passos medidos, como alguém que teme acordar um vigia.
Não sabe ao certo a intenção de Lígia. Sabe que ela está para chegar e decide voltar à casa. No caminho, para num bar e pede uma cerveja. Quando o garçom abre a garrafa, lembra que está sem dinheiro. Faz uma cena, finge que esqueceu a carteira, pede desculpas ao garçom e sai envergonhado dali. "Hoje não é um bom dia pra encontrar a Lígia."
Pensa em desmarcar. Convence a si mesmo de que é a melhor escolha. Essa certeza o conforta.
Mas logo muda de ideia e ofende a si mesmo. "Covarde! Sempre fugindo!"
Já em casa olha fixo pro interfone. Tem medo de desviar o foco e o interfone tocar justo nessa hora. Sabe que morrerá se isso acontecer. Então permanece estático, suando frio, encarando o aparelho. Sente sede. Calcula que seja por volta das três da tarde. Faz um movimento arriscadíssimo: levanta num pulo e vai até a torneira beber água. De olhos fechados, numa esperança de burlar a regra caso o interfone toque. "O combinado é que eu não poderia estar olhando pra outro lugar quando ele tocasse. De olhos fechados eu ainda tô dentro do jogo!" 
Encontra a pia, tateando, e bebe água com pressa. Volta correndo pro quarto/sala. Senta-se no chão novamente e abre os olhos. Erra por pouco a mira, mas tudo bem, o interfone não toca. "Essa foi por pouco!"
Com a visão periférica enxerga o celular no chão. Estica-se pra pegá-lo, os olhos sempre no interfone.
Arrisca outra vez e olha a hora no aparelho: 13:07.
Tem ainda duas horas e cinquenta e três minutos pela frente. Pede um tempo no jogo. Concede esse tempo a si mesmo. Respira enfim.
Sente-se exausto. Decide cochilar, mas antes programa o despertador.
Acorda assustado de dez em dez minutos. Desiste de dormir. Levanta e começa a andar pela casa, o ombro encostado na parede fria, cobrindo todo o perímetro do apartamento de 27m². A textura fria da parede é agradável, acalma-o um pouco. Perde a noção do tempo enquanto segue andando em círculo, até que o despertador toca e ele quase infarta de susto. Percebe que está à beira de um ataque de nervos, como dizia um personagem de desenho animado da sua infância.
Percebe que vai enlouquecer ali dentro. Desce pra esperar Lígia na portaria. Aproveita pra jogar conversa fora com Emanuel, o porteiro.
Quatro horas e ela não chegou. Vai até a calçada, olha pros lados, forja naturalidade, se apoia num poste e percebe o quão ridícula é a cena. Volta pra dentro do prédio e já não tem mais assunto com Emanuel. O silêncio pesa. Cogita voltar ao apartamento. Senta-se numa mureta, atrás da portaria. Deseja ser uma pessoa normal. Lamenta profundamente por não ser.
16:07 e a espera é insustentável. Resolve voltar ao apartamento, talvez ela tenha mandado alguma mensagem, é claro!
Mas não. Nenhuma mensagem. Acende um incenso e resolve descer outra vez. No corredor ouve o interfone tocar. O coração vem à boca. Volta correndo e quando entra no apartamento percebe que não é o seu. Desiste. Ela não vem mais. Senta-se no chão outra vez, fingindo olhar pro teto. Prende a respiração sem perceber, à espera do som que enfim vai libertá-lo. Apaga.

Acorda com uma batida discreta na porta. A batida é tão delicada que o assusta.
Levanta nervoso e olha no olho mágico.
É ela.
"Quem é?" — dissimula enquanto arruma o cabelo (disfarça a calvície) e confere o cheiro do suvaco.

     Sou eu.

"É ela!"
Abre a porta de maneira espontaneamente forjada.

     Oi! Entra!

Ela permanece parada. Tem um olhar aflito.

     Fez a barba. (...) Vamos descer? Eu vou ficar pouco tempo. Só passei pra falar com você. Desculpa.
     Não precisa pedir desculpa. Tá bom, a gente desce, mas eu arrumei a casa, fiz até comida pra gente...
     Vamos? — Insiste impaciente.
     Tá... Deixa só eu colocar alguma coisa no pé.

Vão até a padaria do café horrível adoçado.

     Eu tô sem dinheiro.
     Tudo bem, eu tenho, pode pedir.
     Eu não quero nada, só quero você. Senti tanto a sua falta.

Ela sorri de forma nervosa, olhando pra baixo e dispara: Eu tô grávida.

     Oi?
     Eu tô grávida. 
     De mim?

O sorriso desaparece.

     Porra, é claro que é de você!
     Desculpa, foi uma pergunta automática... E por que você só me disse isso agora?! Já faz tanto tempo... — Hermes percebe a barriga evidente. Estava ali o tempo todo? — Você tá com o que?, seis meses? 
     ...E duas semanas.
     Caralho.
     Pois é. Eu não queria te falar. Minha ideia era tirar, mas o tempo foi passando e eu fui... me acovardando.
     E seus pais? Lidaram bem?
     No começo não, né, principalmente meu pai. Mas agora tão me apoiando.
     Não sei o que dizer. O que você sugere?
     Eu vim até aqui justamente perguntar o que você sugere.
     Bom, eu quero estar com você. Você sabe que eu sempre quis isso.
     Sei. Você queria e eu não.
     Sim.
     Como você tá? Voltou pra terapia? Tem bebido muito? Tá dando aula aqui em São Paulo?
     Minha vida tá um pântano. Minhas respostas são as piores possíveis, mas agora com essa notícia tudo muda. Eu vou voltar pra terapia, vou correr atrás de aula, volto a trabalhar em sub-emprego se for necessário. 
     E a bebida?
     Que que tem?
     Você vai parar? Eu não vim aqui te obrigar a casar, nem pedir pensão. Você sabe que minha família jamais me negaria ajuda. Eu só quero que você esteja presente.
     É o que eu mais quero! Você não tá entendendo. Na verdade nem eu to entendendo ainda... é uma notícia forte demais. E não é por nada, mas a gente tava junto, tava tudo indo bem, até que você resolveu ir embora...
     Você vai largar a bebida?
     Essa pergunta é complicada, você sabe...
     Essa é a única pergunta que me interessa. Eu não preciso de um marido, nem de um cara que me dê uma mixaria por mês. Eu quero um pai pra minha filha. E um pai sóbrio.
     Filha? É menina?
     Sim. Como você sempre disse que queria.

Os dois se abraçam e choram como crianças.

     Eu vou ser tudo isso. Eu quero ser seu marido, eu quero ajudar em todas as despesas com ela, eu vou ser um pai presente, você vai ver.
     Você vai largar a bebida?
     Vou.
     Promete?
     Prometo.

Lígia parece acreditar. Sorri plenamente pela primeira vez no dia.

     A propósito, você já escolheu um nome? — ele pergunta.
     Sim. O nome que você sempre me dizia: Luiza. Não é que é um nome bonito mesmo?









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